Fim da dependência? Ceará aposta em novas culturas para crescer no agro

Por: Eduardo Andrade | Em:
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Ceará e agro

O agronegócio cearense aposta na reinvenção para sustentar sua presença nos mercados mais exigentes do mundo. (Foto: Envato Elements)

2025 começou com sinais claros de que o agronegócio cearense teria de enfrentar um dos seus maiores testes. As tarifas impostas pelos Estados Unidos (EUA) atingiram em cheio parte das exportações locais, derrubando vendas tradicionais como a castanha-de-caju e a cera de carnaúba. Os números, que até 2024 apontavam crescimento constante e saldo positivo na balança comercial, recuaram de forma brusca e acenderam o alerta no setor.


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Agronegócio Cearense em 2024

Exportações totais: US$ 427,81 milhões (+1,4% vs. 2023)

Exportações de Frutas e derivados: US$ 179,73 milhões

Importações do setor: US$ 152,1 milhões (+23,4%)

Saldo da balança comercial: Superávit de US$ 275,7 milhões (−7,7% vs. 2023)

Mesmo diante desse cenário, produtores e instituições têm buscado alternativas para não perder espaço no mercado internacional e, agora, a palavra de ordem é: reinvenção. Se, de um lado, a dependência de destinos como os EUA mostrou sua fragilidade, de outro, novas culturas começam a ganhar relevância, diversificando a pauta exportadora e ampliando as oportunidades dentro e fora do país.

É nesse contexto que cultivos emergentes, ao lado da fruticultura tradicional e de produtos de nicho, despontam como caminho para sustentar o crescimento do agro cearense. A aposta em inovação tecnológica, adaptação climática e sustentabilidade sinaliza um movimento de transformação que pode reposicionar o Ceará como referência em cadeias agrícolas emergentes.

Essa estratégia de diversificação é vista como fundamental, pois “amplia a geração de renda, reduz riscos climáticos – sazonais e de mercado –, fortalece a segurança alimentar e promove a inclusão produtiva”, segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec). Com isso, o movimento contribui diretamente para o desenvolvimento socioeconômico do agronegócio cearense.

Um mercado em amadurecimento

No último ano, a fruticultura no Ceará movimentou quase R$ 8 bilhões, referente a toda área plantada (1,6 milhões de hectares). Entre as principais culturas destacam-se: melão, melancia, banana, milho, maracujá, coco, tomate, sorgo, castanha-de-caju, mandioca, feijão e batata-doce. No entanto, outra cultura vem ganhando destaque no mercado local, ao passo que se torna um dos pilares do projeto de expansão do agronegócio na região: o açaí.

O cultivo do açaí tem se expandido no Ceará em municípios como Limoeiro do Norte, Paracuru, Tianguá e Ubajara. Conforme a Secretaria Executiva do Agronegócio do Governo do Ceará, em 2024, o valor bruto de produção alcançou R$ 3,2 milhões. Estima-se que 46 hectares estejam em formação, com destaque para as regiões do Baixo Jaguaribe, Ibiapaba, Baixo Curu e Pacajus. Deste modo, a produtividade pode chegar a 15 toneladas por hectare.

Além disso, o potencial de produção de açaí não se limita ao mercado interno, conforme explica Victoria Albuquerque, sócia-diretora da Agropar, empresa pioneira no cultivo do fruto no Ceará. A empresária ressalta que a demanda por alimentos saudáveis abre boas oportunidades para que o açaí produzido no estado seja exportado para mercados como Estados Unidos e Europa, que enxergam o fruto como um “superalimento”.

“A busca por alimentos saudáveis vem aumentando significativamente e as frutas brasileiras têm muita aceitação em mercados exigentes como o norte-americano e o europeu.”

Victoria Albuquerque, sócia-diretora da Agropar

Mesmo com grande potencial, o açaí cultivado no Ceará exige adaptações por conta das condições climáticas distintas das encontradas em regiões tradicionais, como Pará e Amazonas. “Nós temos investido em tecnologias de irrigação eficiente, seleção de mudas adaptadas ao solo cearense e manejo agrícola adequado para garantir produtividade”, ressalta Victoria.

Desde sistemas de irrigação inteligentes para reduzir o uso de recursos hídricos, reaproveitamento de subprodutos e até incentivo ao manejo responsável, a empresa se apropria da sustentabilidade e da inovação para viabilizar a cultura no estado.

Victoria Albuquerque, sócia-diretora da Agropar
Victoria Albuquerque, sócia-diretora da Agropar. (Foto: Acervo Pessoal)

O açaí já é uma realidade no agronegócio cearense. No entanto, a margem de crescimento foi determinada por uma série de fatores. Segundo Albuquerque (Foto), estimular que mais produtores adotem a cultura é essencial para alcançar escala produtiva e fortalecer a cadeia na região.

A maior segurança hídrica, com a chegada das águas do Rio São Francisco, somada a regiões com abundância de recursos subterrâneos, como Apodi, amplia as condições favoráveis. O litoral e a Serra Grande também apresentam potencial produtivo, combinando boa disponibilidade de água e incidência solar — fatores fundamentais para a cultura do açaí.

Além da capacidade de produção, atender ao mercado externo exige compromisso com sustentabilidade e certificações, destaca Albuquerque. As exigências internacionais de responsabilidade ambiental e rastreabilidade são condições necessárias para consolidar o produto cearense em novos destinos, reforçando a competitividade do estado no setor de superalimentos.

Diversificar para crescer

A diversificação agrícola tem ampliado o espaço do Nordeste no cenário do agronegócio. Amílcar Silveira, presidente da FAEC, ressalta que a estratégia amplia o alcance dos produtores. A diversificação cria novas oportunidades de renda para os produtores e, segundo ele, frutas, mel e castanha estão entre os principais produtos das exportações cearenses.

“A diversificação amplia significativamente o potencial econômico do agronegócio.”

Amílcar Silveira, presidente da FAEC

Além da produção, programas de apoio têm sido fundamentais para inserir agricultores em novos mercados. O Sistema FAEC/Senar, por exemplo, participa do Agro.br, parceria entre a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a ApexBrasil, que oferece consultoria em comércio exterior e capacitação técnica. O objetivo é aumentar a competitividade internacional dos produtores cearenses e diversificar ainda mais a pauta exportadora.

Com isso, novas cadeias produtivas começam a se estruturar, fortalecendo polos agrícolas locais. A presença de diferentes cultivos reduz a dependência de poucos produtos e contribui para a estabilidade econômica do setor no médio e longo prazo.

amilcar silveira
Amílcar Silveira, presidente da FAEC. (Foto: Acervo pessoal)

O selo verde que abre portas para o mercado externo

A fruticultura de exportação segue como um dos principais eixos do agronegócio nordestino. Uva, manga e melão lideram a pauta, mas o avanço de culturas emergentes também depende de adequação às normas internacionais. Luiz Roberto Barcelos, diretor institucional da ABRAFRUTAS e sócio fundador da Agrícola Famosa, destaca esse desafio. “Cada supermercado tem a sua própria certificação, cada país tem a sua própria regulamentação também. Então, tem que estar atento e estar pronto para atender o que esses requisitos nos pedem.”

O setor tem incorporado a sustentabilidade como parte do processo produtivo. Barcelos ressalta a busca por integrar esse conceito ao DNA da gestão, não apenas como exigência externa, mas como prática contínua.

“Não é algo só para os outros verem, a gente acredita que é o futuro da agricultura, e o futuro das empresas está alinhado à sustentabilidade.”

Luiz Roberto Barcelos, diretor institucional dá ABRAFRUTAS

A adequação a padrões de certificação garante acesso a mercados internacionais cada vez mais exigentes. Isso acentua o papel do Nordeste como fornecedor de frutas tropicais e outros cultivos de nicho, e consolida a participação em cadeias globais.

O que falta para o agro cearense alcançar todo seu potencial?

Apesar do crescimento produtivo, os gargalos logísticos seguem como entrave para ampliar as exportações. Barcelos explica que a concentração de empresas de navegação limitou opções e elevou os riscos de atraso. “As empresas de navegação passaram por um momento de concentração. Cada vez mais eles estão uma comprando a outra, então tem poucas opções e tem tido muito atraso, muita insegurança no cumprimento de prazo.”

Luiz Roberto Barcelos
Luiz Roberto Barcelos, diretor institucional da ABRAFRUTAS. (Foto: Divulgação)

Uma das soluções tem sido o afretamento de navios próprios para reduzir a dependência. O investimento em portos e na eficiência de órgãos reguladores também é considerado essencial para garantir a agilidade no escoamento e evitar perdas na exportação de frutas perecíveis.

A Faec acrescenta que, além das questões logísticas, os custos de adequação às normas internacionais e as dificuldades de acesso às linhas de crédito específicas para esse tipo de investimento estão entre os principais desafios enfrentados pelos produtores. Mesmo assim, o setor busca alternativas para reduzir a dependência de poucos destinos e abrir novas oportunidades comerciais.

Além da Europa, principal destino atual, novas rotas vêm sendo exploradas. “A gente tem observado a China e países do sudeste asiático, como o Japão, como grandes destinos. Além do Oriente Médio, com destaque para Emirados Árabes e Arábia Saudita, cada vez mais interessados na nossa fruta”, afirma Barcelos. A busca por diversificação geográfica das exportações complementa o esforço de ampliar a produção agrícola regional.

Perspectivas de consolidação

O Nordeste reúne polos consolidados, como o Vale do São Francisco, com uva e manga, e a Chapada do Apodi, que exporta melão. Para Barcelos, diversificar a produção é essencial para ampliar volumes e atrair mais rotas comerciais. “Quanto mais diversificamos, maior o volume de produção. Isso não apenas cuida da questão da logística, mas também nos torna mais atrativos para as companhias de navegação”, afirma.

Assim, o cenário aponta que a diversificação agrícola é um dos caminhos para enfrentar barreiras comerciais e reduzir a dependência de poucos produtos e mercados. A combinação entre inovação tecnológica, pesquisa aplicada e políticas públicas voltadas à capacitação cria condições para que o Ceará se consolide como referência em cadeias emergentes.

Seja com frutas tradicionais ou cultivos de nicho como o açaí e mirtilo, o agronegócio cearense aposta na reinvenção para sustentar sua presença nos mercados mais exigentes do mundo. Em um contexto de desafios impostos pelo comércio internacional, essa estratégia pode ser decisiva para manter o crescimento do setor e ampliar o papel do estado no mapa agroexportador brasileiro.

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