Com 20% da biodiversidade global e uma matriz energética limpa, o Brasil tem potencial relevante para liderar a transição para uma economia de baixo carbono. Desde 2024, já conta com um marco regulatório claro para atrair investimentos internacionais. A estimativa é de que o país poderia gerar até R$ 31 bilhões já investidos em projetos de hidrogênio de baixa emissão de carbono, mas precisará superar desafios da infraestrutura regional para que os projetos sejam implementados.
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O Serviço Geológico do Brasil (SGB) tem se empenhado em estudos e mapeamentos para ampliar o conhecimento geológico nacional e estimular descobertas de minerais críticos para energias limpas, como lítio, grafite, urânio e terras raras. É pauta de gente grande onde o Brasil é protagonista e vai mostrar sua performance para o planeta, em novembro, durante a COP30, em Belém.
Principais projetos brasileiros:
• Energias Renováveis – O Nordeste se destaca na produção de energia eólica e o Brasil avança também na solar e biomassa.
• Agricultura de Baixo Carbono – o Plano ABC+ (Agricultura de Baixo Carbono) visa reduzir as emissões em 1,1 bilhão de toneladas até 2030.
• Manejo Florestal – o combate ao desmatamento e à degradação conta com projetos como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) e o Carbornext.
• Desenvolvimento de Tecnologias – Entre as tecnologias em desenvolvimento estão a de hidrogênio de baixo carbono e novos materiais de construção sustentáveis, como o Sugarcrete, a partir do bagaço de cana-de-açúcar.
Vantagens comparativas únicas
Mestrando em Gestão para Sustentabilidade da FGV-SP, o especialista em ESG e Gestão de Emissões de Carbono, Lucas Pinto (foto), é um dos que vê o Brasil avançando rumo a uma economia de baixo carbono, embora ainda não no ritmo que o mundo exige diante da emergência climática. Como sócio-fundador da Esphera Soluções Ambientais, ele atesta o engajamento crescente das empresas e até mesmo da sociedade. “De secundário, o tema ganhou posição estratégica na pauta ambiental”, diz, animado com o movimento percebido também no campo regulatório.

Lucas Pinto destaca dois avanços que aceleram a transição: a tramitação do Projeto de Lei do Mercado Regulado de Carbono, que deverá estruturar um dos maiores mercados emergentes de créditos de carbono do mundo, e a adoção pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) da norma internacional IFRS S2, que torna obrigatória a divulgação de informações climáticas para empresas listadas em bolsa de valores no Brasil.
Para ele, o Brasil possui vantagens comparativas únicas que o torna player estratégico global na descarbonização. As razões são conhecidas: pela matriz elétrica já ser renovável em mais de 80%, pela ampla capacidade de expansão em energia solar e eólica e por ser um dos países com maior oportunidade de geração de créditos de carbono associados à preservação florestal e à agropecuária sustentável.
A saber: somente a Região Norte concentra 60% das florestas tropicais remanescentes e aproximadamente 47% das emissões nacionais estão associadas à mudança no uso do solo e ao desmatamento. “Preservar a floresta em pé, por meio de incentivos claros como o mercado de créditos de carbono, é um dos caminhos centrais para a descarbonização nacional”, garante.
Vetores da transição
Outro vetor decisivo será o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que deve regular os setores mais intensivos em carbono, como aço, cimento e saneamento, que concentram as maiores emissões.
Lucas Pinto lembra que o país avança ainda em uma agenda de exportação de energia limpa por meio do Hidrogênio Verde, onde o Ceará está se consolidando como hub de referência para essa operação, inclusive com acordos internacionais em andamento. “Carecemos de incentivos financeiros mais robustos e acessíveis, capazes de viabilizar a implementação efetiva de práticas sustentáveis”, afirma e cita como positiva a mobilização da Net Zero Banking Alliance, uma aliança internacional que reúne instituições financeiras comprometidas com a descarbonização, da qual participam os principais bancos brasileiros.
A seu ver, é importante que instituições de fomento atuem como grandes catalisadores desse processo, também estruturando linhas de financiamento diferenciadas, com condições atrativas em taxas, prazos e garantias. “Com benefícios concretos, o setor produtivo pode acelerar a transição para uma economia mais sustentável, um caminho indispensável para garantir competitividade”, afirma. E alerta que a União Europeia já implementou mecanismos de diligência climática sobre produtos importados, o que significa que quem não avançar em sustentabilidade perderá espaço em mercados estratégicos.
Um dos principais pontos é a consolidação da Taxonomia Sustentável Brasileira, ainda em desenvolvimento. Trata-se de um sistema que classifica e define quais atividades econômicas podem ser consideradas sustentáveis, servindo como referência para investidores e empresas. “Essa ferramenta será essencial para orientar o fluxo de capital em direção a atividades que de fato contribuem para a descarbonização, evitando riscos de greenwashing, uma estratégia de marketing ilusória em projetos que não cumprem os critérios reais de sustentabilidade”.
A implementação desta ferramenta ainda não ocorreu, mantendo o capital verde difuso. Outro desafio crítico é o acesso às linhas de crédito sustentável. Embora o governo já tenha criado instrumentos relevantes — como o Fundo Clima, os títulos soberanos sustentáveis e o programa Eco Invest Brasil — esses recursos nem sempre chegam de forma efetiva às empresas, especialmente às de médio porte, que representam parcela significativa da atividade econômica e da geração de empregos no país.
Descompasso de investimentos em economia verde
Apesar dos movimentos importantes, também o professor do MBA em ESG e Sustentabilidade da FGV, Jaques Paes (foto), considera ainda tímido o avanço do Brasil para uma economia verde. “O Brasil tem laboratórios de sucesso, mas ainda não construiu uma economia verde em escala nacional”, diz.
Segundo o Observatório de Política Externa, somente entre 2021 e 2022, o país captou, em média, R$ 26,6 bilhões/ano em financiamento climático, ocasião em que o BNDES se autodeclarou o maior financiador de energia renovável do mundo, liderando projetos solares, eólicos e de biomassa. “Isso mostra confiança externa e capacidade de captação de recursos”, comenta Paes, alertando, entretanto, que essa captação tem se concentrado em energia renovável.

A seu ver, é preciso diferenciar transição energética, que foca em substituição de combustíveis fósseis, de economia verde, bem mais ampla, que deve gerar bem-estar social e equidade, reduzindo riscos ambientais e a escassez de recursos. E alerta: o desmatamento segue como principal fonte de emissões, o que mostra um descompasso quanto ao discurso de investimentos.
Projetos fragmentados
Jaques Paes reconhece que o setor agropecuário talvez seja o exemplo mais concreto de economia verde no Brasil, embora concentrado no Mato Grosso e Goiás, que expandiram fortemente a integração lavoura-pecuária-floresta. O Mato Grosso do Sul e Paraná se destacam no plantio direto e rotação de culturas. A Região Sul difunde fixação biológica de nitrogênio em larga escala. E Minas Gerais e São Paulo avançam na recuperação de pastagens e no uso de bioinsumos.
Ele exemplifica com o Plano ABC+, política pública voltada para 2020-2030, que financia práticas como recuperação de pastagens, integração lavoura-pecuária-floresta, uso de bioinsumos e plantio direto. Em sua primeira fase, o Plano ABC+ contribuiu para mitigar mais de 170 milhões de toneladas de CO₂ equivalente para uma meta superior a 1 bilhão de toneladas até 2030.
Na Amazônia, a bioeconomia começa a ganhar espaço em cadeias de valor como cacau, açaí e óleos vegetais, enquanto nas cidades surgem experiências de mobilidade elétrica em capitais como São Paulo e Curitiba. E o Nordeste consolidou-se como polo de energia solar e eólica, mostrando a força regional na transição energética.
“Não faltam projetos e nem anúncios de recursos. Biometano, hidrogênio verde, reflorestamento, recuperação de áreas degradadas e ampliação da mobilidade elétrica são alguns projetos, mas fragmentados. O que falta é execução: dinheiro que sai do papel e chega a quem precisa. O Brasil não sofre de ausência de ideias, mas de excesso de promessas que não viram realidade”, considera Jaques Paes.
Financiamento verde até 2030
O Brasil apresentou no âmbito da COP o chamado Roadmap Baku-Belém, que prevê mobilizar US$ 1,3 trilhão até 2030. Além disso, bancos públicos já anunciaram compromissos de direcionar parte significativa de suas carteiras para crédito verde, e o próprio Banco do Brasil fala em centenas de bilhões nesse horizonte.
O desafio é que essas metas ainda estão muito mais no campo da intenção do que em mecanismos estruturados e consolidados de desembolso. “Há um descompasso entre o volume anunciado, o que de fato chega à economia real, e o ritmo em que esses recursos se convertem em linhas de crédito, garantias ou investimentos acessíveis”, assegura o professor Jaques Paes. “Hoje temos ambição expressa em números, mas ainda carecemos da engenharia financeira que os torne palpáveis”, explica ele. E acrescenta que o país não carece de ambição, mas de consistência institucional.
Maiores gargalos:
• Descompasso entre captação e desembolso
• Execução lenta dos projetos
• Clareza de papéis
• Coordenação entre ministérios, estados e municípios
• Continuidade política
• Regulação e métricas
Bancos públicos são espinha dorsal da economia verde
Os bancos públicos são a espinha dorsal do financiamento climático no Brasil pala sua capacidade de alavancar capital privado, criar instrumentos de crédito de longo prazo e sustentar políticas públicas que dificilmente se viabilizariam apenas pelo mercado. O BNDES ampliou os desembolsos do Fundo Clima e o Banco do Brasil direciona parte relevante do crédito rural para práticas de baixo carbono. Já os bancos regionais como o BASA e o Banco do Nordeste atuam em setores estratégicos da bioeconomia e do desenvolvimento regional.
O fato de contar com um sólido sistema público e nacional de fomento é um dos grandes diferencias do país para o enfrentamento da crise climática, e o BNB, maior banco de desenvolvimento regional da América Latina, reconhece seu papel estratégico para o financiamento sustentável do Nordeste. É o que garante Valdir Machado (foto), gerente do Ambiente de Políticas de Desenvolvimento do BNB.

O Banco conta com o Programa de Financiamento à Sustentabilidade Ambiental – FNE VERDE, que dá base para linhas como o FNE SOL (de financiamento à energia elétrica fotovoltaica) e ao FNE ABC, que apoia a agropecuária de baixa emissão de carbono. Outras importantes linhas ambientais são o Pronaf Floresta, Pronaf Agroecologia e Pronaf Bioeconomia, integrantes do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). Entre os setores atendidos estão os de energias renováveis, eficiência energética, agricultura de baixo carbono, manejo florestal, conservação e recuperação ambiental, economia circular, reflorestamento e tratamento de resíduos.
Finanças verdes
Segundo o gerente Valdir Machado, considerando as contratações de 2022 a 2024, apenas no Programa FNE Verde, seu principal produto para o fomento à sustentabilidade, o Banco do Nordeste aplicou cerca de R$ 24,25 bilhões. E a programação anual do FNE para 2025 prevê a aplicação de R$ 7,77 bilhões somente no FNE Verde.
Somente em 2024, entre os destaques da destinação de recursos estão os financiamentos à energia renovável, no montante de R$ 5,77 bilhões, um apoio que estima evitar a emissão de 18,4 milhões de tCO2 durante a vida útil dos projetos. O gerente também citou o financiamento do acesso a projetos de água e esgoto, totalizando R$ 1,69 bilhão, dando acesso a aproximadamente 4,6 milhões de pessoas a melhores condições de saneamento básico.
“O financiamento verde é uma das ferramentas de apoio para a construção do almejado futuro econômica e socialmente justo e inclusivo, na medida em que, de maneira micro, estimula as empresas a se adequarem às boas práticas exigidas e, em visão macro, apoia o esforço de transformações mais amplas dos diversos setores produtivos”, defende Valdir Machado.
Desafios e oportunidades
Os grandes desafios, segundo ele, são convencer a iniciar a jornada de transformação, reconhecer os agentes produtivos que já estão envolvidos e incentivar e apoiar a inovação para acelerar aqueles que já estejam à frente em seu projeto de sustentabilidade.
Para ele, o setor agropecuário é peça-chave para o alcance dos objetivos nacionais, apontando alguns caminhos como práticas produtivas regenerativas, a agropecuária de baixa emissão de carbono, biocombustíveis, eficiência hídrica, recuperação de solos e pastagens degradadas e o reflorestamento. Também enxerga boas perspectivas para a chamada nova industrialização, eficiência energética e descarbonização industrial no setor não rural.
Para isso, o Banco do Nordeste se articula para ampliar as linhas verdes por meio da captação de recursos com organismos multilaterais. Atualmente, seus principais parceiros nesta agenda sustentável são o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD), Banco Mundial (BIRD) e Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). “Ampliar a resiliência climática da sua área de atuação é a razão de ser do Banco do Nordeste, desde sua criação”, finaliza.
Nordeste de baixo carbono
• Grande produtor de energia renovável solar e eólica
• Produtor de biocombustíveis
• Potencial produtor de combustíveis do futuro (baixa emissão de carbono)
• Agronegócio moderno e estruturado
• Atraente para indústrias intensivas em energia e de difícil abate de emissões
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