Para especialista, o empreendedorismo feminino é essencial para os pequenos negócios no Brasil e deveria ser acompanhado de maior valorização. (Foto: Matheus Sousa)
As microempreendedoras brasileiras têm motivos para comemorar o Dia Nacional da Mulher Empresária (17/08), criado para promover o empreendedorismo feminino? Dados do MEI expõem desigualdade de renda e jornada dupla, apesar de terem formação superior maior do que os homens (22,2%), enquanto 8,8% dos homens alcançaram este nível de escolaridade, conforme pesquisa da MaisMEI. Resiliência e a necessidade – mais do que oportunidade – as impulsionam a prosseguir, o que sensibiliza instituições a oferecerem preparo na gestão e recursos financeiros, como o Sebrae e o Banco do Nordeste, que dão sustentação a este mercado feminino empreendedor que já representa 44% das MEIs brasileiras.
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Pesquisa recente “Panorama do Empreendedorismo Feminino no Brasil” do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP) mostrou que as responsabilidades familiares reduzem em 17% o tempo que as mulheres podem dedicar aos seus negócios. E que 42% delas tiveram pedidos de crédito negados a seus projetos, entre outras razões, pela falta de garantias ou histórico de crédito insuficiente.
Para Kályta Caetano, contadora especialista em MEI na MaisMEI, a garra da mulher empreendedora para superar tantos desafios mostra como elas são essenciais para os pequenos negócios no Brasil, o que, segundo ela, deveria ser acompanhado de maior valorização. “Os dados evidenciam a importância de criar ambientes que facilitem o acesso a recursos como crédito e redes de apoio, com foco em capacitação e desburocratização”.
Reconhecido pelo apoio às iniciativas empresariais de quem está começando e que já tenha algum empreendimento, o Sebrae entende o peso das mulheres nos negócios. No Brasil, elas representam 34,1% de todos os Donos de Negócios. No Ceará, as 432.691 mulheres Donas de Negócios representam 36,2% dos Donos de Negócio do estado, um número em crescimento.
Os dados são da pesquisa Empreendedorismo Feminino com base nos dados do 4º Trimestre de 2024 da PNADc, que identificou a existência de 10.350.111 milhões de mulheres Donas de Negócio em todo o país. O número desta categoria, que engloba trabalhadores por conta própria e empregadores, é recorde da série histórica, iniciada em 2012, quando as mulheres à frente de negócios somaram 7,5 milhões no primeiro trimestre.
O Sebrae Delas é o principal programa de apoio ao empreendedorismo feminino, oferecendo mentorias, apoio na gestão, capacitação e networking. E ao promover o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, a instituição reconhece e incentiva as iniciativas empresariais femininas.
A nordestina Ana Fontes (foto), CEO e fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME, classifica o Nordeste como de enorme potencial para desenvolver o empreendedorismo feminino e destaca o Ceará como um dos estados onde as mulheres de negócios mais se fortaleceram, com alta representatividade seja trabalhando por conta própria, seja em microempreendimentos notadamente no comércio, beleza, alimentação e vestuário.

“Na última pesquisa nacional ‘Empreendedoras e Seus Negócios’, do Instituto Rede Mulher Empreendedora (Lab IRME), vimos que 51% das mulheres brasileiras são, inclusive, chefes de família. Mas também percebemos a cultura muito presente nesses empreendimentos”, ilustra Ana. Ela observa que entraram no circuito as mulheres periféricas, negras e mães solo, reforçando o papel do empreendedorismo como alternativa real de inclusão produtiva. Há, entretanto, um longo caminho a percorrer, dada a concentração nos setores informais, o que evidencia a necessidade de políticas públicas, crédito acessível e apoio técnico para garantir a formalização e a sustentabilidade desses negócios.
Para Ana Fontes, ao fortalecer uma mulher, ela impacta positivamente, em média, mais quatro pessoas em sua comunidade. É comprovado, também, que as mulheres tendem a reinvestir até 90% da sua renda em educação, saúde e bem-estar da família, o que gera um ciclo virtuoso de desenvolvimento social.
“Isso é especialmente verdadeiro em regiões como o Nordeste, onde mulheres empreendedoras se tornam grandes agentes de transformação em suas comunidades”, garante ela que, à frente da RME, coleciona histórias de mulheres vencedoras, que tiveram acesso à capacitação, recursos e redes de apoio, e conseguiram aumentar sua renda e gerar empregos.
No entanto, os desafios ainda são enormes. Ana Fontes cita a necessidade da disponibilização do crédito combinado com a ideal orientação para aplicação estratégica. Ana também aponta a dupla ou tripla jornada da mulher e a informalidade como barreiras, o que dificulta a inclusão em políticas públicas e editais de apoio.
Ela vai além e alinha outras saídas para o fortalecimento do empreendedorismo feminino como o incentivo a empresas e governos a contratarem negócios de mulheres (compras públicas e privadas com olhar para diversidade) e na expansão de iniciativas de educação empreendedora e aceleração com foco em mulheres, como os programas da RME. “O empreendedorismo feminino no Nordeste é potente, criativo e resiliente. Quando tem o suporte necessário, gera transformação econômica real e mudança estrutural”, afirma.
O que tantas histórias de empreendedorismo feminino têm em comum? Todas elas são protagonizadas por trabalhadoras confiantes e corajosas. É com esse espírito que mulheres empreendedoras enfrentam os desafios e assumem o protagonismo de liderarem seus próprios negócios. E para isso, contam com o apoio financeiro e orientação empresarial do Banco do Nordeste, por meio do Crediamigo, o maior programa de microcrédito produtivo e orientado da América Latina. O programa já beneficiou cerca de 8,8 milhões de clientes, que geraram 63,4 milhões de operações na área de atuação do Banco ao longo dos 27 anos de atividade. Neste período, o Banco contabiliza um total de R$ 137,8 bilhões em créditos com tíquete médio de R$ 2.177,34.
O Crediamigo está presente nos nove estados do Nordeste e no norte dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo. Dentre os setores de atividades que mais se destacam, o Comércio representa 83,1% dos empréstimos. “As empreendedoras femininas lideram as contratações com presença de 68% na carteira”, informa Sheila Freitas (foto), gerente de Negócios do Escritório do Crediamigo do Banco do Nordeste em Fortaleza. Somente nos últimos cinco anos, 3,2 milhões de mulheres e 1,7 milhões de homens foram beneficiados.

Em sua maioria são apenas CPFs que atuam na informalidade. “Nossa missão é incentivá-los de modo que cresçam e se transformem em CNPJ, o que é muito gratificante”, diz Sheila Freitas. A gerente explica que, mais do que dinheiro, o programa inclusivo – e o Banco em sua essência – participa da organização financeira destes microempreendedores formados por vendedores ambulantes, manicures, mecânicos. “Temos muito cuidado com o valor do crédito liberado porque o excesso pode ser prejudicial”, entende ela, apostando na continuidade da parceria com o crédito cíclico, sem perpetuar o tomador.
O recurso de curto prazo (4 a 5 meses) do Crediamigo não exige aval ou garantias reais. A aposta do Banco do Nordeste encontra segurança na confiança mútua e responsabilidade solidária dos tomadores. E não faltam histórias bem-sucedidas a serem contadas.
Uma mercearia deu início à vida de empreendedora de Maria Nilsa da Silva (foto), em 1995. Mais do que empreendedora, ela é exemplo de inclusão e transformação social.

Com apoio do Crediamigo, em 2006, Maria Nilsa expandiu o negócio e até contratou funcionários. Com faturamento maior e apoio do programa, virou dona de um lote. Após a pandemia, mudou-se para a Comunidade de Camarinhas-MG, onde fundou o Restaurante Palmeiras. Como presidente da associação local, promovia cursos profissionalizantes e ações sociais, criando a Feira Comunitária, com 30 associados, envolvendo-se em ações de acesso à educação e capacitação.
“Acredito muito no social e na capacidade das pessoas de aprender e multiplicar a experiência”, diz Maria Nilsa, certa de que basta um apoio como o que teve do BNB para prosperar nos negócios. Agora, ela está finalizando um projeto de uma cozinha e uma padaria comunitárias.
Natural de Paes Landim-PI, Valdelice dos Santos Carvalho fez do desemprego a sua motivação. Com apoio do Crediamigo, investiu em insumos e estoque para sua confeitaria, a Bolos da Val. Inscrita no CadÚnico, ela teve acesso ao Programa Acredita, permitindo a compra de equipamentos e aumento da produção. Apoiada também pela filha e as irmãs, foca na expansão acreditando que persistência e aprimoramento são essenciais para crescer. “Dormi, sonhei e acordei confeiteira”, disse, aconselhando a todos que acreditem nos seus sonhos.

Rodna Karla Ferreira Rodrigues (foto), da Karla Bolsas e Acessórios, bem ilustra o espírito do apoio financeiro recebido. Cliente do Banco do Nordeste desde 2012, já soma 34 ciclos de crédito. Além do Crediamigo Delas, onde contabiliza R$ 9.100,00, utiliza o Giro Individual (R$ 10.300,00), ambas as linhas em seus valores máximos.

A jornada empreendedora de Rodna começou modesta, como tantas outras, tendo passado pela experiência de “sacoleira”, em 2011, quando nem existia WhatsApp. Na ocasião, o balcão de vendas de produtos era o porta-malas do seu carro até 2020, quando instalou uma loja em Maracanaú. “A pandemia foi minha virada de chave, porque eu já estava preparada para o online graças ao crescimento nas redes sociais”, avalia ela, que conta com mais de 92,6 mil seguidores atualmente no Instagram.
“Sempre trabalhei e continuo trabalhando muito”, assegura ela, que atribui seu sucesso à dedicação e ao boca a boca das clientes. Ela diz se orgulhar de sua história com o Crediamigo, lembrando que já começou bem com empréstimo de R$ 1.000,00. “Foi uma bênção que eu continuo recebendo porque é realmente bom contar com um dinheiro a mais para as necessidades”, diz, especialmente de quem tem que carregar dificuldades culturais adicionais.
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