Inovadora, verde, exportadora e produtiva: esta é a indústria que o Brasil precisa. É ainda um desejo, mas factível, viável e inadiável. O país tem recursos naturais e financeiros, mas faltam técnicos capazes de transformar os processos em produtos competitivos. O plano de neoindustrialização, com anúncio da Nova Indústria Brasil, chega para agilizar este desafio.
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Diferentemente dos Estados Unidos e da Europa, a indústria brasileira vivencia uma oportunidade ímpar de avançar em inovação, dada a condição da matriz energética limpa e das possibilidades de uso e reuso da água, principais insumos usados em qualquer processo de transformação.
De média complexidade tecnológica, a indústria verde-amarela convive, de um lado, com setores menos competitivos, como o de confecções, que ainda não conseguem concorrer globalmente, e, de outro, com outros segmentos como o aeronáutico e aeroespacial, que já cravaram a bandeira brasileira em todos os continentes. Sem esquecer o agribusiness brasileiro, um dos maiores do mundo e líder em exportação de soja, carne bovina, aves e açúcar, entre outros.
Baixa qualificação
Para o diretor de Tecnologia e Inovação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Jefferson de Oliveira Gomes, a dificuldade começa na falta de qualificação das pessoas, comprovada quando se sabe que 70% da população brasileira não terminou o ensino fundamental. “O problema é grotesco porque não temos técnicos”, afirma ele.
A CNI entende que a indústria brasileira é bastante diferenciada em processos, mas não em produtos. “Inovação se faz com gente bem treinada, muita organização e sólidas relações industriais”, afirma o diretor, acrescentando que “dinheiro existe, seja no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, seja nos programas do BNDES, mas não brota e precisa ser eficientemente aplicado para multiplicar”.

Arcabouço de conhecimento
No tabuleiro dos negócios internacionais, os países desenvolvidos abrem espaço para aqueles mais próximos, mais amigáveis e que tenham forças importantes como a energia. E nisto o Brasil pode garantir boas oportunidades. Para Jefferson Gomes, o destaque vai para o Nordeste não somente pela disponibilidade de sol, vento e água.
“O Nordeste tem grande chance de ser a nova Arábia Saudita porque adicionou também tecnologia, conhecimento e gente qualificada.”
Jefferson Gomes, diretor de Tecnologia e Inovação da CNI
Não foi por outra razão que o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) escolheu o Ceará para se estabelecer. “A decisão, que vai acelerar o avanço da região, é fruto de um conjunto de condições favoráveis em torno do Complexo Portuário do Pecém”, diz. Ele garante que a combinação gera um ambiente atrativo de negócios, entre outras razões, pelas parcerias estratégicas entre as empresas, as Forças Armadas e a estrutura pública local, numa inteligente união de forças.
Planos alinhados
A elaboração de um plano envolvendo todos os agentes pode ser a chave do sucesso da neoindustrialização. É o que entende o secretário executivo da Indústria da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE), Joaquim Rolim, satisfeito com o fato de as mais de 80 ações previstas no Plano guardarem estreita relação com o plano estratégico de desenvolvimento cearense.
Tanto em nível federal como estadual, os governos, junto com a iniciativa privada, talvez pela primeira vez, estão falando a mesma linguagem. “No pilar Mais Produção, por exemplo, buscamos mais inovação e reaparelhamento dos sistemas produtivos e, principalmente, temos enorme preocupação com o social e inclusivo visando a redução das desigualdades regionais”, comenta.
Outro ponto de contato entre os projetos diz respeito à primordial formação e qualificação de técnicos com capacitação para reconstruir e reformular esta nova indústria que precisa ser inovadora, sustentável e com menor consumo de energia. Neste ponto, o secretário Rolim destaca o hidrogênio verde que exige técnicos, engenheiros e gestores preparados para ocuparem os mais de 60 mil empregos a serem gerados por este setor até 2030 com uma produção projetada de um milhão de toneladas dessa energia limpa.
Infraestrutura tecnológica
Eduardo Amaral, presidente da Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (AECIPP), diz que apesar de a indústria brasileira estar entre as 20 maiores do mundo, ocupa uma modesta representatividade global de pouco mais de 1%. Ele defende a necessidade de investimentos significativos em infraestrutura tecnológica, na capacitação da mão de obra para lidar com novas tecnologias e na criação de regulamentações adequadas para garantir a segurança e a integridade dos sistemas, queimando etapas para ocupar posição de destaque na revolução industrial em curso.

Para o presidente da AECIPP, a reindustrialização é necessária para revitalizar a indústria, preservar empregos e garantir a autonomia econômica. Ele avalia como positivas as iniciativas como a do programa “Nova Indústria Brasil” para impulsionar a competitividade da indústria nacional. Mas faz um alerta: “É importante garantir uma distribuição justa e equitativa dos recursos do programa por todo o território nacional para evitar o aumento das desigualdades”.
Obstáculos à competitividade
A falta de investimentos em infraestrutura também é citada por André Siqueira, diretor de Relações Institucionais da Associação Empresarial de Indústrias (AEDI), entidade sem fins lucrativos que promove ações para o desenvolvimento da Região Metropolitana de Fortaleza.Embora diversificada, abrangendo desde alimentos e bebidas até automóveis e aviões, a indústria manufatureira enfrenta este e outros desafios, o que inclui, a seu ver, a pesada burocracia, custos elevados de produção e complexidade tributária, que afetam a competitividade global de certos setores.

Tendências notáveis
Apesar de tudo, a indústria brasileira está gradualmente adotando diversas tecnologias impulsionadas por fatores que passam por recursos disponíveis, regulamentações e prioridades estratégicas.
• Inteligência Artificial (IA): Setores como manufatura, saúde, agricultura e finanças têm explorado aplicações de IA.
• Internet das Coisas (IoT): A IoT tem aplicações em manutenção preditiva, gestão de cadeia de suprimentos e monitoramento de ativos.
• Digitalização e Transformação Digital: Empresas têm investido na digitalização de processos e na adoção de tecnologias digitais.
• Eletrificação e Energias Renováveis: Setores de energia, transporte e manufatura têm demonstrado interesse em reduzir a pegada de carbono.
A vanguarda da inovação
Para Siqueira, para que a indústria brasileira avance e mantenha uma posição competitiva no cenário global, há caminhos para o desenvolvimento econômico sustentável que levam à vanguarda da inovação. Sem eles, além da perda de competitividade haverá desemprego e baixa produtividade, dependência de importações e atraso em setores estratégicos como saúde, energia, transporte e manufatura.
“Aos governos cabe criar um ambiente positivo e implementar políticas que incentivem a inovação, a eficiência e o crescimento sustentável”, finaliza, apontando alguns aspectos para acelerar o progresso e competir em igualdade de condições:
• Educação e capacitação tecnológica (IEL, SESI e SENAI)
• Incentivos e políticas públicas
• Colaboração entre setor público e privado
• Infraestrutura digital e conectividade
• Inovação aberta e ecossistemas tecnológicos
• Sustentabilidade e eficiência energética
• Fomento à Pesquisa e Desenvolvimento (P&D)
Recorde de investimentos
A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) bateu recorde em aplicação em projetos de inovação em 2023. Foram R$ 577 milhões aplicados em 440 projetos contratados junto a 431 empresas, valor 7,4% superior ao ano anterior. O presidente Chico Saboya comemora o fato e acredita que neste ano a performance deverá ser ainda melhor, dada a aderência da instituição à estratégica da nova política de industrialização do governo federal. “Nossa missão é aumentar a competitividade da indústria brasileira, por meio da incorporação de novos padrões de inovação tecnológica no sistema produtivo”, afirma.
Nova Indústria Brasil
Até 2026, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai mobilizar aproximadamente R$ 250 bilhões para o apoio a projetos de neoindustrialização. Os recursos integram o valor total estimado de R$ 300 bilhões do Plano Mais Produção, gerido pelo Banco, pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) e pela Embrapii. “Daqui para a frente, o país poderá contar com investimentos permanentes para a neoindustrialização e a transição ecológica do Brasil”, garante o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.
Divisão dos recursos – Em R$ bilhões
Fonte: BNDES
Mais inovadora ………………………………….66
Mais verde ………………………………………….12
Mais exportadora ……………………………..40
Mais produtiva ………………………………….82
O plano faz parte da Nova Indústria Brasil, política de desenvolvimento industrial entregue pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI) ao presidente Lula, no último dia 22, em Brasília. A nova política prevê o uso de recursos públicos para atrair investimentos privados.
No lançamento do plano, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, disse que a nova política posiciona a inovação e a sustentabilidade no centro do desenvolvimento econômico, com responsabilidade social e ambiental. “A questão do financiamento para pesquisa e inovação está bem equacionada, porque é TR (taxa de juros de referência) que não passa de 4 a 5% ao ano”, destacou Alckmin.
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