Investir em economia digital é desafio para impulsionar desenvolvimento social

A criação de novos negócios e a migração dos tradicionais para o ambiente digital vem crescendo a cada ano. Com as limitações impostas pela pandemia, a transformação digital vem ganhando impulso no mundo todo. No Brasil, a Agência de Desenvolvimento Industrial (ABDI) estima que a economia digital responda por 25% do Produto Interno Bruto (PIB) já este ano. Nesse contexto, o Ceará, que tem forte tradição no comércio e nos serviços, desponta em um cenário favorável. Na avaliação de Élcio Batista, vice-prefeito de Fortaleza e superintendente do Instituto de Planejamento de Fortaleza (Iplanfor), um fator decisivo para o estado é a infraestrutura tecnológica construída nos últimos anos. 


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“Fortaleza ocupa uma posição estratégica porque aqui é o entroncamento de cabos de fibra ótica que estão ligados a vários continentes. Já temos uma rede de alta qualidade em quase toda a cidade e temos ampla conexão com o interior através do Cinturão Digital”

Élcio Batista, vice-prefeito de Fortaleza e superintendente do Iplanfor

O desafio, segundo ele, é investir no capital humano. “A mão de obra não é suficiente para atender a demanda atual, muito menos a do futuro. Para ter ganho de produtividade, gerar riqueza e reduzir desigualdades, precisamos investir em inovação numa aliança entre o setor público, setor privado, terceiro setor e universidades. O planejamento do Fortaleza 2040 aponta nessa direção”, detalha. E, apesar das dificuldades do último ano, Batista acredita que o cenário local é bastante positivo. “A pandemia acelerou esse processo de transformação digital e temos uma avenida de possibilidades. Oportunidades estão surgindo e vão surgir ainda mais para jovens empreendedores. Podemos ser vanguarda nessa nova economia, precisamos estimular e investir em pesquisa e inovação”. 

Segundo o Índice de Transformação Digital da Dell Technologies 2020 (DT Index 2020), cerca de 87,5% das empresas instaladas no Brasil realizaram alguma iniciativa voltada à transformação digital em 2020. O número ficou acima da média mundial, de 80%. O secretário executivo de Comércio, Serviços e Inovação da Secretaria do Desenvolvimento Econômico e Trabalho do Ceará (Sedet), Julio Cavalcante, considera a inovação como uma vocação do Ceará.

“O Ceará 2050 coloca um diagnóstico bastante positivo de coisas que avançamos e uma delas é a economia digital. Temos uma boa base de educação, tanto pública como privada, e, paralelamente, houve investimento em infraestrutura de tecnologia. A nossa fragilidade é na geração de oportunidades de melhor qualidade. A gente perde jovens bem formados para outros estados e países. Sem oportunidade, eles vão embora. Precisamos reter esse capital e gerar riqueza no estado”

Julio Cavalcante, secretário executivo de Comércio, Serviços e Inovação da Sedet

Além da área de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), o secretário diz apostar na inovação em áreas estratégicas para o Ceará, como energias renováveis e agronegócio. “Com os investimentos em infraestrutura e formação de mão de obra, estamos atraindo grandes empresas de tecnologia que, por sua vez, acabam impulsionando a criação e o desenvolvimento de empresas locais, em várias áreas. O governo também tem investido em bolsas para que pesquisadores tragam soluções. Isso tem fomentado a criação de startups em todas as regiões do Estado”.

A iniciativa privada também tem apostado na capacitação como forma de estimular novos negócios. A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Ceará (Fecomércio), por exemplo, criou o Inovacom, uma espécie de hub de inovação do setor. De acordo com o consultor de Relacionamento Institucional do Senac Ceará, Luiz Antônio Rabelo, a instituição tem realizado palestras e debates para conhecer as experiências de países como China e Colômbia.

“Queremos chegar no empreendedor, discutir inovação, estimular. O ecossistema de inovação do Ceará é forte e agora temos o Senac Reference, que é o mais moderno do Brasil. Queremos trocar experiências, gerar cultura, tirar a ideia de que inovar é caro”

Luiz Antônio Rabelo, consultor de Relacionamento Institucional do Senac Ceará

Formação tecnológica descentralizada

A descentralização da formação tecnológica é um dos pontos fortes do Ceará e uma das formas de reduzir desigualdades regionais, na visão do secretário de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Estado (Secitece), Inácio Arruda. Dados da secretaria mostram que o estado dispõe de universidades em Fortaleza, Cariri e Sobral, além de duas Faculdades Tecnológicas em Juazeiro do Norte e Quixeramobim, 33 Centros Vocacionais Tecnológicos (CVTs), três Centros Vocacionais Técnicos (CVTECs), uma Universidade do Trabalho Digital, em parceria com o Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec). 

“Também temos as universidades federais, os institutos federais e uma robusta rede privada. A ideia é formar o aluno para o mercado de trabalho ou para a construção do seu próprio negócio. Temos a Ivia, que nasceu aqui e foi comprada por uma empresa indiana, a Lanlink, que hoje é uma parceira da Microsoft. A construção do Cinturão Digital também permitiu o surgimento de empresas como a Brisanet, a Sobralnet, a MOB, e a atração do investimento da Angola Cables”

Inácio Arruda, secretário da Secitece

O estado também mantém o programa Corredores Digitais, voltado para o desenvolvimento de empresas, produtos e negócios. Até o ano passado apoiou 650 startups selecionadas por meio de edital.

Economia digital e redução das desigualdades

“O potencial das favelas nesse contexto de crescimento da economia digital é grande, mas depende da democratização da internet”. A afirmação é do presidente nacional da Central Única das Favelas (Cufa), Preto Zezé.

“A economia digital é um campo muito vasto mas, ao meu ver, ainda é subutilizado. Essa é uma forma de reduzir a desigualdade gritante do Brasil, de gerar renda, mas precisamos levar internet de qualidade para as favelas. Uma das nossas ações no ano passado foi justamente distribuir chips para viabilizar a comunicação, a educação e o lazer dos jovens”

Preto Zezé, presidente nacional da Cufa

Preto Zezé também destaca a infraestrutura do Estado como fator decisivo para o desenvolvimento dessa nova economia e ressalta as possibilidades de novos negócios criados dentro das comunidades. “A favela se comunica de várias maneiras, tem vários potenciais. Tudo está na internet: o delivery, a comunicação e agora as ferramentas digitais de finanças. Criamos o Cufa Card, que completou cinco anos agora. Começou pelo Rio de Janeiro e estamos expandindo para 50 favelas do país. A ideia é movimentar a economia dentro da própria favela”, conta. 

  • O Cufa Card funciona como uma conta digital que permite realizar transferências, pagamentos, compras e recarga de celular.
  • Cerca de 30% de pessoas da favela geram renda através de aplicativos

Fonte: Data Favela (Cufa/ Instituto Locomotiva – 2020)

Uma iniciativa nascida em Fortaleza é o Pirambu Digital que, desde 2006, oferece formação tecnológica para crianças e adolescentes. Ao longo desses 15 anos, a cooperativa atuou com foco na geração de renda e na inclusão digital da comunidade. Entre os prêmios conquistados está o de melhor tecnologia social do país, da Fundação Banco do Brasil, em 2015. O presidente Fabrício Mendes conta que, a partir de 2018, a cooperativa trabalha exclusivamente com a capacitação tecnológica de crianças e adolescentes, oferecendo cursos de Jogos Digitais e Robótica.

“Nos últimos dois anos, mais de 100 crianças foram atendidas e agora vamos ampliar para o Bom Jardim e para o Vila União, em parceria com o Inec (Instituto Nordeste Cidadania). A transformação digital acelerou e a periferia está atrasada. O primeiro passo é a educação, sem dúvida. Outro ponto é a questão dos espelhos, das referências. Precisamos ter boas referências para que as crianças possam se espelhar”

Fabrício Mendes, presidente do Pirambu Digital

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