Mudanças climáticas, desigualdade social, insegurança alimentar, transição energética, precarização do trabalho e perda de biodiversidade já afetam as decisões das organizações. Esses problemas, conhecidos como Grand Challenges, exigem respostas que vão além dos modelos tradicionais de gestão.
É o que aponta um estudo publicado na revista GV Executivo, da Fundação Getulio Vargas (FGV). O trabalho é assinado por Edgard Barki e Fernanda Carreira, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV EAESP), em parceria com Heiko H. Spitzeck e Milton Sousa.
Segundo os autores, esses desafios possuem causas e efeitos interdependentes. Por isso, empresas, governos, organizações da sociedade civil, universidades e comunidades precisam atuar de forma coordenada.
No Brasil, essa necessidade ganha peso diante das desigualdades sociais, das diferenças entre territórios, das pressões sobre os biomas e dos déficits de infraestrutura. Além disso, dificuldades de coordenação entre instituições tornam as respostas mais complexas.
Gestão precisa considerar o território
O estudo reúne aprendizados de quatro experiências relacionadas a diferentes dimensões dos Grand Challenges. Os casos envolvem restauração florestal e mercados de carbono, usinas comunitárias de energia solar, inclusão produtiva de mulheres negras e iniciativas para reduzir o desperdício de alimentos.
A partir dessas experiências, os autores identificam cinco lições para a gestão. A primeira é territorializar os desafios. Na prática, isso significa reconhecer que um mesmo problema global pode produzir efeitos diferentes conforme as características econômicas, sociais e ambientais de cada região.
A segunda lição envolve a colaboração. Para os pesquisadores, trabalhar em conjunto não significa eliminar conflitos. Por isso, projetos com múltiplos atores precisam estabelecer mecanismos de governança, transparência e divisão de responsabilidades.
Além disso, a análise amplia o conceito de inovação. A mudança não depende apenas da criação de novas tecnologias. Ela também pode surgir de arranjos comunitários, metodologias, instituições e modelos de governança.
Impacto exige análise além dos indicadores
A quarta lição está relacionada à avaliação de impacto. Indicadores ajudam a acompanhar resultados, mas não conseguem explicar sozinhos todas as transformações produzidas por uma iniciativa.
Nesse sentido, os autores defendem uma avaliação que combine dados com análise do contexto. Dessa forma, gestores conseguem identificar efeitos que não aparecem com facilidade em métricas tradicionais.
A quinta lição trata dos trade-offs. Grandes desafios envolvem decisões que colocam interesses econômicos, sustentabilidade, justiça territorial, eficiência e inclusão em tensão.
Por isso, a gestão não elimina essas contradições. Em vez disso, precisa criar condições para que os conflitos sejam identificados, negociados e utilizados como fonte de aprendizado.
Estratégia começa pelo problema
Para os gestores, a principal mudança está em inverter a lógica tradicional de planejamento. Em vez de começar pela solução disponível, a organização deve começar pelo problema que pretende enfrentar.
Essa abordagem exige mapear interdependências e identificar os diferentes atores envolvidos. Ao mesmo tempo, demanda construir estruturas de governança antes de buscar escala.
Os autores também defendem que os dados funcionem como infraestrutura coletiva. Com informações compartilhadas, diferentes organizações podem compreender melhor o problema e coordenar suas ações.
Assim, a gestão deixa de se concentrar apenas em eficiência e controle. Ela passa a incorporar a capacidade de criar condições para a ação coletiva em ambientes marcados por incerteza.
Grand Challenges já afetam os negócios
De acordo com o estudo, os Grand Challenges já fazem parte das decisões estratégicas das organizações. Os impactos aparecem em áreas como cadeias de suprimentos, investimentos, relações com comunidades, diversidade, inovação e gestão de riscos climáticos.
Nesse cenário, empresas precisam considerar não apenas os resultados financeiros de suas decisões. Também devem avaliar os efeitos sociais, ambientais e territoriais de suas estratégias.
Portanto, enfrentar grandes desafios exige uma combinação de estratégia, colaboração, inovação, visão territorial e responsabilidade socioambiental. Para os autores, essa mudança não representa apenas uma agenda de sustentabilidade, mas uma nova forma de compreender a gestão diante de problemas que nenhuma organização consegue resolver sozinha.