Tiago Carneiro: “O Palácio do Comércio precisa estar cada vez mais vivo”

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Na conversa, Tiago Carneiro faz um balanço da trajetória da instituição e destaca sua contribuição histórica para o desenvolvimento econômico do Estado. (Foto: Divulgação)

Às vésperas da celebração dos 187 anos da Associação Comercial de Pernambuco (ACP), o presidente da entidade, Tiago Carneiro, concedeu entrevista exclusiva à TrendsPE.

Na conversa, ele faz um balanço da trajetória da instituição, destaca sua contribuição histórica para o desenvolvimento econômico do Estado e aponta os desafios do setor produtivo diante das transformações tecnológicas, da reforma tributária e da necessidade de ampliar a competitividade de Pernambuco.

Confira a entrevista completa:

Trends: A Associação Comercial de Pernambuco completa 187 anos de história. Qual é o significado dessa marca para a entidade e para o desenvolvimento econômico do Estado?

Tiago Carneiro: Essa celebração representa muito mais do que longevidade. Ela simboliza relevância, capacidade de adaptação e compromisso permanente com o desenvolvimento econômico de Pernambuco. Poucas instituições conseguem atravessar 187 anos mantendo protagonismo.

A história da Associação Comercial, em muitos momentos, se confunde com a própria história de Pernambuco e do Brasil. Fundada em 1839 por 26 comerciantes, foi a segunda associação comercial do país e, desde o início, estabeleceu relações com importantes centros nacionais e internacionais, como Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Montevidéu, Liverpool, Londres e Chicago.

Essa vocação para conectar Pernambuco ao mundo permanece. Hoje, a ACP mantém relações internacionais e abriga a Sala das Nações, em parceria com a Aliança Consular do Nordeste, reunindo mais de 40 representações diplomáticas para fortalecer o ambiente de negócios.

Ao longo de quase dois séculos, quais foram as principais contribuições da Associação Comercial para o fortalecimento do ambiente de negócios?

Desde sua criação, a ACP produz informações econômicas e estatísticas que conquistaram credibilidade e passaram a subsidiar decisões de instituições públicas.

Também participou de grandes debates sobre infraestrutura, como a modernização do Porto do Recife, a implantação de Suape, melhorias nas BRs 101 e 232 e o processo de industrialização do Nordeste impulsionado pela Sudene.

Mas considero que sua maior contribuição foi transformar demandas individuais dos empresários em pautas coletivas de desenvolvimento.

Um exemplo marcante ocorreu em 1956, quando a entidade liderou uma mobilização contra pontos do projeto do Código Tributário estadual. A articulação reuniu diversas entidades empresariais, mobilizou a opinião pública e levou à reformulação de vários artigos da proposta.

Quais são hoje os principais desafios do setor produtivo pernambucano?

Vivemos desafios conjunturais e estruturais ao mesmo tempo. O empresário enfrenta burocracia, insegurança jurídica, custo elevado do capital, complexidade tributária e limitações de infraestrutura. Paralelamente, precisa se adaptar à reforma tributária, à inteligência artificial, à automação e aos novos modelos de trabalho e negócios.

A ACP precisa representar o empresário diante dos problemas atuais, mas também prepará-lo para os desafios futuros. Nossa atuação está baseada em três pilares: representatividade, conhecimento e relacionamento.

Como a Associação tem apoiado seus associados na transformação digital?

A transformação digital deixou de ser uma questão apenas tecnológica para se tornar um fator de competitividade.

Mais importante do que falar sobre inteligência artificial é mostrar como ela pode aumentar receitas, reduzir custos, melhorar processos e elevar a produtividade das empresas.

Por isso, aproximamos empresas tradicionais, startups, universidades e especialistas para desenvolver soluções práticas, sempre voltadas para resultados econômicos concretos.

Pernambuco vive um momento de oportunidades em tecnologia, logística, energia renovável e turismo. Como a ACP avalia esse cenário?

Pernambuco reúne ativos estratégicos muito importantes. Temos posição geográfica privilegiada, os portos de Suape e do Recife, um ecossistema de inovação reconhecido internacionalmente, potencial em energias renováveis, forte vocação turística, universidades e capital humano qualificado.

Nosso desafio é integrar essas potencialidades para gerar novas cadeias produtivas, ampliar a competitividade e atrair investimentos que criem emprego e renda.

Como a relação entre iniciativa privada, poder público e academia pode acelerar o desenvolvimento do Estado?

Acredito que o desenvolvimento acontece quando esses três setores trabalham de forma integrada. O setor produtivo conhece as necessidades de quem investe e gera empregos. O poder público cria as condições necessárias para o crescimento, enquanto a academia contribui com pesquisa, inovação e formação de profissionais.

Pernambuco precisa construir uma agenda econômica de longo prazo, capaz de ultrapassar governos e garantir avanços em infraestrutura, educação, inovação, tecnologia, ambiente de negócios e atração de investimentos.

Que lições da história da Associação continuam inspirando as novas gerações?

Destaco três valores fundamentais: coletividade, coragem institucional e capacidade de adaptação. A coletividade demonstra que os desafios são enfrentados com mais força quando o setor produtivo atua unido. A coragem institucional representa a independência para defender aquilo que é melhor para Pernambuco. E a capacidade de adaptação explica como a ACP permanece relevante após 187 anos.

Quais ações estão sendo preparadas para celebrar os 187 anos da entidade?

Com a restauração do Palácio do Comércio, queremos ampliar sua utilização para atividades culturais, turismo, eventos e iniciativas voltadas ao empreendedorismo. Também queremos valorizar a história da Associação e aproximá-la ainda mais da sociedade. Muitos pernambucanos ainda desconhecem a importância da ACP para o desenvolvimento econômico do Estado. Nosso objetivo é construir, desde já, a agenda que marcará o bicentenário da instituição.

Como a ACP pretende fortalecer sua relação com jovens empreendedores e startups?

Tradição e inovação caminham juntas. A própria Associação nasceu inovadora para sua época. Queremos unir a experiência acumulada ao longo de quase dois séculos com a criatividade e a visão das novas gerações, aproximando empreendedores, investidores, universidades e empresas em um ambiente de troca de conhecimento e oportunidades.

Como o senhor imagina a Associação Comercial nos 200 anos?

Imagino uma instituição digital, moderna, financeiramente sustentável, conectada às novas gerações, às universidades, aos centros de inovação e ao cenário internacional. Uma entidade respeitada pelo seu passado, mas reconhecida principalmente pela capacidade de compreender o futuro.

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