Avançar em inovação é questão de sobrevivência para a construção civil

tecnologia na construção civil
Especialista afirma que a Construção 4.0 transforma o canteiro de obras em uma verdadeira linha de montagem avançada. (Foto: Envato Elements)

Moderada na venda e gestão. Tradicional nos métodos construtivos. Esta é a situação da construção imobiliária brasileira, ainda intensiva em mão de obra, uma realidade que começa a mudar pela escassez de pessoal que está envelhecendo sem igual reposição. O fato poderá acelerar o processo de modernização por uma questão de sobrevivência. O avanço tecnológico, entretanto, exige investimentos que, por sua vez, são atraídos por estabilidade econômica. Esta é a equação.

O avanço já começou, mas tem um longo caminho a percorrer. O Brasil se iguala a outros países quando se analisa a digitalização e uso de portais imobiliários no sistema de vendas. Ferramentas digitais como o Building Information Modeling (BIM) também estão sendo implementadas de maneira gradual.

Da mesma forma avança em inteligência artificial para oferecer visitas virtuais do cliente aos projetos e o CRM é amplamente usado no relacionamento. O setor fica atrás em se tratando de construção modular, mantendo-se no sistema artesanal de blocos e concretos quando se sabe que a manufatura industrializada na construção é condição para reduzir prazos e desperdícios e ampliar os controles de qualidade e a consequente produtividade.

Realidade dual na construção

A obra de engenharia civil vive um ponto de ruptura definitiva. O pensamento é do engenheiro civil Emanuel Mota (foto), que empresta sua visão estratégica sobre inovação como diretor Nacional de Tecnologia para a Mútua – Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA. Para ele, a era do canteiro gerido por planilhas isoladas de papel amassado e processos manuais está acabando. “Hoje, a sobrevivência das construtoras depende da transição para ecossistemas orientados a dados em nuvem”, sentencia.

Emanuel Mota, diretor Nacional de Tecnologia para a Mútua. (Foto: arquivo pessoal)

“Vivemos uma realidade dual”, afirma ele. A base carece de digitalização básica e o topo entrega obras no estado da arte global, a exemplo do acelerador de partículas Sirius (CNPEM), em Campinas, que exigiu níveis inéditos de precisão estrutural para evitar qualquer vibração no piso, da mesma forma que os complexos parques eólicos e solares do Nordeste. “Quando há projeto avançado e execução rigorosa, o Brasil compete com qualquer engenharia do mundo”, garante.

A digitalização, no seu entendimento, não ocorre apenas na execução física, mas na infraestrutura institucional: o Sistema Confea/Crea e a Mútua estão encabeçando integrações digitais profundas, como os novos ERPs e conectividade via Mútua Celular, para garantir que o setor tenha a robustez necessária para suportar inovações em IA e gestão de dados em escala nacional. Para isso, ele defende a necessidade de o sistema financeiro se adaptar aos novos tempos, deixando de medir o avanço físico apenas no terreno e passando a financiar a esteira de produção industrial antes que o módulo chegue à obra.

Ex-presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Ceará (CREA-CE), em dois mandatos, Mota diz que um dos grandes entraves é a desconexão de dados entre o escritório técnico e o canteiro e que os gargalos estruturais mais severos são a falta de qualificação da mão de obra e a ausência de uma verdadeira industrialização do setor. “Continuamos concretando e empilhando blocos da mesma forma que fazíamos há 100 anos”, afirma, certo de que sem industrializar o processo construtivo e capacitar as equipes de campo, os softwares de gestão tornam-se subutilizados.

Ele lembra que a Construção 4.0 transforma o canteiro de obras em uma verdadeira linha de montagem avançada, numa fusão definitiva entre o mundo físico da engenharia pesada e o cibernético. Pré-fabricados de concreto são instalados com precisão milimétrica monitorada por escaneamento a laser; drones inspecionam o avanço da terraplenagem; e sensores IoT (Internet das Coisas) embutidos nas fôrmas monitoram a cura do concreto em tempo real.

O caminho foi aberto pelo BIM, que revolucionou as obras de engenharia civil ao integrar o projeto estrutural (3D) ao cronograma (4D) e ao orçamento (5D). Sabendo que a transição tecnológica é cara, o engenheiro Emanuel Mota assegura que a Mútua oferece linhas de crédito e benefícios para que profissionais adquiram licenças de softwares BIM e hardwares de alto desempenho, além de apoiar e financiar eventos que disseminam a cultura da modelagem integrada por todo o país.

Futuro da construção

Para Emanuel Mota, o futuro passa pela modularidade e previsibilidade digital, no qual o engenheiro civil deixa de ser apenas um executor de cálculos braçais de concreto armado para ser um gestor de dados e um integrador de tecnologias, liderando a Construção 4.0 com aliados tecnológicos já disponíveis.

  • Construção Modular e Impressão 3D: Pontes, casas e pequenos edifícios terão componentes impressos em 3D no próprio local ou pré-montados em fábricas, cortando prazos pela metade.
  • Digital Twins (Gêmeos Digitais) e IoT: Nenhuma obra de arte especial (viadutos, barragens, edifícios altos) nascerá sem seu clone digital. Sensores medirão recalque, fadiga e temperatura, permitindo manutenção preditiva baseada em comportamento estrutural real.
  • IA na Gestão de Ativos: A IA vai gerenciar o ciclo de vida da obra, prevendo o desgaste dos materiais e organizando manutenções de forma totalmente autônoma.

O futuro pode ser ainda mais presente com a essencial ajuda das universidades testando novos materiais, como concretos de ultra-alto desempenho. O ciclo de inovação só se fecha quando construtoras levam problemas reais (falhas de execução, desgaste de materiais) aos laboratórios, gerando soluções e patentes que se transformam em produtos comerciais aplicáveis em larga escala.

Inovações pontuais

O professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), José de Paula Barros Neto (foto), concorda com a existência de disparidades de padrão tecnológico entre as grandes incorporadoras, que respondem por 10% a 15% do mercado, e as pequenas e médias empresas, que representam 85% a 90% deste universo, e vê o mercado da construção ainda muito conservador. “As inovações são muito pontuais e não alcançam o planejamento estratégico das construtoras de maneira coordenada e linear”, afirma. Ele sabe que está havendo uma certa dose de modularização e de impressão 3D de casas, mas ainda sem escala.

José de Paula Barros Neto, professor da UFC. (Foto: Arquivo pessoal)

Há, também, uma questão cultural envolvida. “Como as cabras no curral, uma empresa fica esperando pela outra para avançar”, brinca ele, ciente de que o ritmo está diretamente ligado ao elevado custo do investimento inicial de uma maior industrialização, o que inclui a pesada incidência de impostos.

O professor não tem dúvidas de que a construção 4.0 é uma questão de sobrevivência. Como diretor da Agência de Inovação que opera dentro do Parque Tecnológico da UFC, ele vê nascerem nas pranchetas as soluções para os problemas que ele acompanha de perto. “Nossa especialização é em projetos de desenvolvimento”, diz.

Para impulsionar a transformação de projetos em produtos, Barros Neto lembra que as 15 spin-off (empresas de professores) e as 75 startups de diferentes áreas que operam no Parque Tecnológico estão disponíveis para acelerar a transição e fazer o protótipo chegar à produção nas empresas. Em especial, ele cita as da construção civil, ainda ausentes, já que no âmbito desta estrutura tecnológica, a UFC coleciona soluções para nomes de peso como Vale, Ericsson, Goldman Sachs, M. Dias Branco, ArcelorMittal, Johns Hopkins e Sebrae.

Cultura da inovação nos canteiros de obras

Para o presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia e Inovação da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Dionyzio Klavdyanos (foto), inovação exige investimentos que são escassos e caros para a maioria de quem faz a indústria da construção, que são as pequenas e médias empresas. Ele observa que o setor é heterogêneo e que poucos integrantes da cadeia construtiva puxam os processos de modernização nos diferentes segmentos.

Dionyzio Klavdyanos, presidente da Comissão de Materiais, Tecnologia e Inovação da CBIC. (Foto: Arquivo pessoal)

“A saída, sem dúvida, é investir em pesquisa e desenvolvimento para promover a disrupção”, afirma, sabendo que, no entanto, o que vem sendo seguido é a racionalização de custos. Ele cita, em especial, o programa Minha Casa, Minha Vida, que há duas décadas continua usando painéis de concreto armado quando há soluções muito mais avançadas e produtivas.

Dionyzio Klavdyanos defende a necessidade de criação de fundos de fomento para a industrialização da construção, a exemplo do que existe para outras atividades econômicas como a automotiva e agrícola. Também entende como urgente a finalização da reforma tributária para que a construção não seja duplamente tributada dentro e fora dos canteiros de obras.

Outra medida benéfica citada é a redução da burocracia na pré e no pós-obra, que pode consumir até mais tempo do que a própria construção da edificação. “O governo deveria priorizar mais a digitalização ao colocá-la como exigência em suas concorrências”, afirma, embora já veja algum avanço na Lei das Licitações que fomenta o uso do BIM.

“Estou certo de que uma vez mais industrializada, a construção civil também vai se tornar mais atraente para a mão de obra hoje escassa, além de reduzir o risco de patologias e acidentes”, comenta. E finaliza dizendo que é preciso assumir uma cultura da inovação a partir das grandes empresas para que o processo se multiplique e alcance canteiro a canteiro.

Inovação não tem CEP

O engenheiro civil Joaquim Caracas (foto), fundador da Impacto Protensão, é prova de que inovação não tem CEP. Nascido no interior do Ceará, em Guaramiranga, ele rompeu as fronteiras de seu estado e do Brasil. Suas soluções em engenharia estão presentes em obras de Manaus ao Rio Grande do Sul, tendo chegado ao Leste Europeu (Letônia), e mais recentemente com negociações nos Estados Unidos e na Arábia Saudita.

Joaquim Caracas, fundador da Impacto Protensão. (Foto: Arquivo pessoal)

O inquieto engenheiro que queria ser piloto de avião é um inventor de soluções para as dores da construção. Ele acumula 34 patentes registradas no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) e 17 em andamento, sendo dois em solo americano, o que lhe garante o pódio em depósito de patentes no Ceará. A maioria delas envolve o uso de materiais sustentáveis capazes de substituir por plástico reciclado até 85% da madeira utilizada nas obras, resultando numa redução de custos de até 32% nas despesas e de até 45% na necessidade de mão de obra.

Aos 70 anos, ele não pensa em aposentadoria. Pelo menos não no campo cerebral já que continua focado na mudança de cálculos estruturais que levem à ainda maior agilidade e menores custos nos processos construtivos. A ideia de Caracas era criar uma técnica de protensão não aderente em estruturas que permitisse economia de concreto, sem comprometer a resistência. Inspirado num Lego, projetou peças padronizadas usando o plástico. A invenção deu ao Ceará o protagonismo e referência nacional na técnica já presente em grandes obras.

Com um departamento só para pensar, em sua empresa, ele se debruça sobre novas invenções enquanto usufrui dos reconhecimentos externos de instituições como Finep (10 prêmios), CBIC (3) e da FIEC (1), além de constar em rankings de inovação.

E afirma repetidamente que “produtividade não é responsabilidade da mão de obra, mas dos processos adotados”. Soluções existem, assegura, entendendo que a aplicação na prática esbarra na falta de cultura para a inovação. “Sem ela, não vejo futuro”, avalia.

Melhorias na gestão

Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostram que somente o pós-obra pode concentrar até 5% do Valor Geral de Vendas (VGV) de um empreendimento em custos operacionais relacionados a manutenções, retrabalhos, garantias acionadas e chamados técnicos. Na prática, isso significa que um empreendimento de R$ 50 milhões pode gerar até R$ 2,5 milhões em perdas evitáveis.

Segundo Jean Sacenti, CEO da Predialize e especialista em gestão pós-obra, muitas construtoras seguem repetindo erros porque não utilizam os dados gerados após a entrega dos empreendimentos para alimentar melhorias futuras. Ele enxerga uma lacuna no ciclo de gestão da construção. “O setor evoluiu muito em planejamento e execução. Mas o pós-obra continua sendo tratado como consequência, não como fonte de inteligência. É o ‘Check’ do PDCA que a maioria das construtoras simplesmente não executa”, afirma.

O Decreto 11.888/2024 e a nova Lei de Licitações ampliaram a pressão por digitalização e rastreabilidade na construção civil. Assim, a integração entre BIM, pós-obra e inteligência artificial começa a transformar a etapa de assistência técnica em uma fonte estratégica de aprendizado, redução de custos e prevenção de passivos jurídicos.

Obras públicas

A propósito, em vigor desde janeiro de 2024, a lei de licitações públicas determina o uso do BIM em obras e serviços de engenharia. Quando integrado à inteligência artificial, o BIM se alia à boa gestão de obras públicas evitando erros que podem ser identificados em segundos. Quem sabe está aí a saída para a retomada de obras paralisadas.

Dados do Tribunal de Contas da União apontam que até abril de 2025, das 22.621 obras mapeadas pelo TCU, 11.469 estavam paralisadas, representando 50,7% do total. Trata-se de obras que já consumiram R$ 9 bilhões em recursos federais e requerem mais R$ 29,4 bilhões para sua conclusão. “Visibilidade em tempo real e documentação técnica rigorosa não são luxo. São o mínimo para gerir dinheiro público com responsabilidade”, diz Sacenti.

Industrialização da construção como estratégia

A industrialização tem sido um caminho estratégico para a construção civil brasileira ampliar sua produtividade e enfrentar os desafios atuais de escassez e alto custo de mão de obra e da neutralidade do carbono até 2050. Durante live promovida pelo Modern Construction Show, principal evento da construção industrializada no país, especialistas destacaram o potencial dos sistemas construtivos industrializados – concreto pré-fabricado, estruturas metálicas e madeira engenheirada – para o desenvolvimento sustentável do setor.

Para a engenheira Íria Doniak (foto), presidente-executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic), a utilização dos sistemas industrializados apresenta benefícios relevantes, como previsibilidade, redução de riscos, menor necessidade de mão de obra no canteiro e eliminação de aditivos contratuais. “É possível aplicar um único sistema ou realizar a combinação entre eles — e até mesmo com métodos convencionais –, pois cada material possui suas especificidades, que podem contribuir com as demandas do projeto”, afirmou.

Íria Doniak, presidente executiva da Abcic. (Foto: Arquivo pessoal)

Quando se trata de sistemas construtivos industrializados, o projeto é essencial para aproveitar todas as vantagens competitivas da industrialização. “Os maiores desafios estão nas interfaces. As ligações entre concreto, aço e madeira precisam ser detalhadas e testadas, considerando aspectos como deformações, dilatações e transferência de cargas. Quando isso não é bem resolvido, pode comprometer o desempenho da estrutura”, explicou Ulysses Barbosa Nunes, diretor-executivo da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM).

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