Espaço industrial brasileiro em movimento

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Acompanhamento do IEDI comprova que a indústria nacional de transformação está em deslocamento dos grandes centros urbanos para o interior, consolidando uma redistribuição regional da indústria. (Foto: Envato Elements)

Motivada por custos menores envolvendo preço mais atrativo de terrenos, menor pressão salarial, tributos incentivados e logística mais eficiente, a indústria no Brasil começa a olhar com maior interesse para o próspero e ainda inexplorado interior brasileiro. O movimento está em curso, ainda que não no ritmo desejado pelos milhares de prefeitos à espera de geração de empregos e de impostos.

Maior polo industrial, o Sudeste é o que mais vivencia esta interiorização da indústria, mas de alguma forma a realidade da desconcentração urbana nas capitais começa a ser transformada. É o caso do Nordeste e a melhoria de infraestrutura, que vem mantendo crescimento mais consistente desde os anos 1970.

Acompanhamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) comprova que a indústria nacional de transformação está em deslocamento dos grandes centros urbanos para o interior, consolidando uma redistribuição regional da indústria. E o Centro-Oeste lidera este processo em função do agronegócio. Mas é verdade também que o Sul, o Norte e o Nordeste também são destinos com ganhos de participação tanto em emprego como em valor adicionado bruto (VAB), que é a medida de riqueza criada. Pelo estudo do IEDI, a interiorização industrial deve continuar pelas vantagens logísticas e pela proximidade de recursos primários como os biocombustíveis e as terras raras. E o Nordeste se destaca pela geração de energia limpa.

Avanço já histórico

Segundo Ana Karina Frota (foto), presidente do Conselho de Relações Internacionais da Federação das Indústrias do Ceará (FIEC) e gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN), o processo de industrialização para o interior não é recente. Pelo menos não no Ceará. Trata-se, a seu ver, de um processo já histórico impulsionado pela questão dos benefícios/incentivos fiscais (políticas de atração de investimentos), infraestrutura, estratégia logística e custos de produção mais competitivos. Adiciona-se a esta lista o próprio crescimento econômico da região.

Ana Karina Frota, presidente do Conselho de Relações Internacionais da FIEC e gerente do CIN. (Foto: Divulgação)

Para ela, é preciso ressaltar a importância dos distritos industriais e o exemplo da expansão do Complexo do Pecém, fortalecendo cadeias produtivas fora de Fortaleza. Ana Karina também atribui o avanço da interiorização da industrialização à globalização. “É fato que para competir em escala internacional é indispensável menor custo de produção e melhor posição logística para exportação”, alerta ela.

Nesse sentido, ela aponta como válido os investimentos estrangeiros no Nordeste e no Ceará. Multinacionais instalaram fábricas e aproveitaram incentivos e localização estratégica, fatores que pela força do desenvolvimento “arrastou a modernização tecnológica fazendo chegar novas tecnologias produtivas à região”.

No olhar de quem acompanha o mundo lá fora como rotina, a gerente do CIN destaca as chamadas vocações territoriais, ou seja, as características econômicas, naturais, culturais e logísticas de cada região. “A maioria das políticas industriais e os investimentos costumam aproveitar potencialidades locais para aumentar a competitividade e reduzir custos”, explica.

Nordeste descentraliza

Eduardo Amaral (foto), presidente da Associação das Empresas do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (AECIPP), concorda que o Nordeste já vive um processo importante de descentralização e interiorização do crescimento industrial. E o Ceará, segundo ele, tem se destacado nesse movimento, especialmente a partir do eixo formado pelo Complexo Industrial e Portuário do Pecém, pela Região Metropolitana de Fortaleza e pelos corredores logísticos que conectam o interior ao porto.

Eduardo Amaral, presidente da AECIPP. (Foto: Divulgação)

Será preciso, entretanto, vencer os desafios de qualificação de mão de obra, expansão da infraestrutura logística e urbana, segurança energética e capacidade de acompanhar a velocidade dos investimentos que devem contemplar, também, moradia, mobilidade, formação técnica, fornecedores locais, serviços públicos e integração entre empresas, universidades e centros de pesquisa.

“Esse avanço ocorre principalmente nos setores de energias renováveis, siderurgia, logística, indústria de transformação, hidrogênio verde e, mais recentemente, infraestrutura digital”, aponta ele, acrescentando que o Pecém vem se consolidando como uma plataforma estratégica para a nova economia, integrando porto, indústria, energia e tecnologia.

Um exemplo claro desta movimentação em direção ao interior é o projeto do data center da Omnia, na ZPE Ceará, voltado à exportação de serviços digitais. O empreendimento foi anunciado como um dos maiores data centers da América Latina, com operação baseada em energia renovável proveniente de novos parques eólicos associados ao interior do Estado, o que reforça a conexão entre o interior produtor de energia e os novos investimentos tecnológicos no Pecém.

Estratégias e políticas públicas

Para Eduardo Amaral, o novo direcionamento de investimentos se deve à combinação de visão estratégica dos investidores com as políticas públicas de incentivo. Enquanto os investidores enxergam no Ceará vantagens competitivas importantes como localização geográfica, infraestrutura portuária, matriz renovável, conectividade internacional e ambiente favorável à exportação de bens e serviços, cria-se um ambiente ainda mais atrativo com infraestrutura, incentivos e segurança jurídica.

O executivo do Pecém lembra que o governo do Ceará tem destacado a meta de elevar a participação do Estado no PIB nacional, historicamente próxima de 2%, para 4%, em linha com o plano Ceará 2050.

“O Complexo do Pecém é hoje um dos principais vetores dessa estratégia, com projetos ligados à indústria verde, hidrogênio, logística e data centers”, garante ele, defendendo que em muitos casos a interiorização pode representar redução de custos operacionais, maior disponibilidade de áreas para expansão e ganhos logísticos relevantes. “O ponto central não é apenas custo menor; é competitividade sistêmica”, afirma ele, dizendo que no caso do Ceará, a integração entre porto, indústria, energia renovável e ferrovia cria uma condição diferenciada.

Ele cita a Transnordestina como um fator decisivo como vetor de aceleração da interiorização do crescimento industrial, diminuindo a distância entre áreas produtivas do interior e o Porto do Pecém, reduzindo gargalos logísticos e ampliando a capacidade de escoamento de cargas. O fato se torna ainda mais interessante a partir do avanço de trechos estratégicos de estradas em direção ao Pecém, como informado pela ANTT, com impacto direto na logística regional.

Associado a isso, o Porto Seco de Quixeramobim – que prevê investimentos de até R$ 1 bilhão – surge como um projeto estratégico para o Sertão Central. Integrado à Transnordestina ao Porto do Pecém, o empreendimento funcionará como hub logístico multimodal, com capacidade de armazenagem, movimentação e futuro despacho aduaneiro de cargas, além da previsão de implantação de um distrito industrial no entorno.

Esse conjunto de investimentos cria uma nova dinâmica econômica para além da faixa portuária, conectando o interior do Ceará às cadeias globais de produção, exportação e tecnologia. O estado passa a estruturar uma nova base produtiva integrada entre energia, logística, indústria e economia digital, com potencial de ampliar significativamente sua participação no PIB nacional nas próximas décadas.

Mudança no modelo de operação

Com o sentimento de quem é agente desta mudança, Vinicius Rezende (foto), diretor executivo Industrial da Alvoar Lácteos, observa que mais do que uma mudança geográfica, está havendo uma profunda transformação no modelo de operação das indústrias e, graças ao avanço tecnológico que permitiu a descentralização, atualmente uma planta industrial pode operar com o mesmo nível de excelência, automação e inteligência artificial independentemente de estar em uma grande capital ou fora dela.

Vinicius Rezende, diretor executivo Industrial da Alvoar Lácteos. (Foto: Arquivo pessoal)

No caso do setor lácteo, ele entende que o grande motor desse avanço é a busca por eficiência e o compromisso de manter a produção muito próxima da sua origem. “Isso garante o frescor e a qualidade máxima dos alimentos, otimizando o fluxo logístico e levando inovação para toda a cadeia produtiva, de ponta a ponta”, assegura.

A seu ver, esse movimento da indústria em direção ao interior é fruto de uma combinação de fatores, mas, sob a perspectiva industrial, o grande diferencial é a maturidade da visão estratégica em engenharia e tecnologia. E explica que para uma empresa operar de forma competitiva fora dos grandes centros urbanos, ela precisa implementar um modelo que se apoia em três grandes pilares: digital, excelência operacional e capital humano. “O incentivo externo ajuda a pavimentar o caminho, mas é a robustez do ecossistema interno que realmente viabiliza a sustentabilidade e a produtividade do negócio a longo prazo”, explica o executivo da Alvoar.

Modelo de eficiência global

Ele também inclui neste composto da interiorização a dinâmica de custos que mudou muito com a tecnologia, que equilibra a balança de despesas e garante a rentabilidade da operação. Para implementar uma indústria inovadora e competitiva fora do eixo central, o investimento inicial é alto e exige alta precisão. “Na nossa realidade, estruturamos um modelo de eficiência global onde ferramentas digitais monitoram as fábricas em tempo real, prevendo falhas e evitando desperdícios. O retorno desse investimento vem no longo prazo, com a redução drástica de perdas de insumos, ganho de produtividade das máquinas e eliminação de falhas de qualidade”, detalha Vinicius.

O diretor sabe, entretanto, que o maior desafio não é a tecnologia em si, mas a conexão dela com o fator humano. É o caso da indústria 4.0, que só funciona se as pessoas estiverem preparadas. “Por isso, nosso maior foco é a capacitação através de metodologias globais de excelência, dando autonomia para que as equipes locais tomem decisões rápidas no chão de fábrica, apoiadas por dados”, afirma. De outra parte, a grande oportunidade vislumbrada por ele é que esse modelo traz desenvolvimento técnico e social. “Quando estruturamos um ambiente industrial inteligente, criamos empregos altamente qualificados, formamos talentos locais e elevamos o patamar de eficiência e sustentabilidade de toda a operação”, finaliza.

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