Para especialista, ainda que mais tecnológica, a construção tem o desafio de transformar tecnologia em produtividade real em todas as etapas. (Foto: Envato Elements)
A indústria da construção civil atravessa um período de transformação impulsionado pela necessidade de modernização e de questões estruturais e conjunturais de escassez de mão de obra e juros elevados. Ainda que desigual nos diferentes elos da cadeia, o setor mistura métodos tradicionais com avançadas tecnologias em processos e na gestão. O ponto em comum é que todos sabem que o caminho sem volta aponta para a industrialização crescente e a digitalização.
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Entre os desafios, a baixa produtividade da mão de obra aparece na maioria dos cenários, o que aumenta ainda mais a necessidade de adoção de novas tecnologias que exigem treinamento especializado. Mas o impacto da reforma tributária também preocupa. O sistema de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) poderá elevar custos exigindo maior rigor no controle de gastos de um segmento que também convive com um ambiente regulatório em constante evolução em normas e padrões.
Se, por um lado, as portas da inovação estão abertas, por outro, velhos entraves ainda persistem e terão que ser enfrentados com maior aprendizado digital, investimentos maiores em capacitação e estratégias flexíveis para navegar em um cenário econômico e fiscal em plena transformação.
No olhar do presidente da A&B Incorporações, Aristarco Sobreira (foto), com sua experiência de mais de 30 anos no mercado de incorporação imobiliária e obras, a construção civil nacional deixou num passado distante o conceito do baixo uso de tecnologias que lhe renderam os rótulos do atraso e do desperdício. “Tecnologia, gestão e controles, atualmente, são mandatários para a atividade imobiliária em toda a sua cadeia de produção”, assegura. Ele está convicto de que o resultado do esforço conjunto liderando tanto pela CBIB como pelo Sinduscon-CE e da iniciativa privada atende pelo nome de eficácia desde os processos até a execução das obras com resultados em todos os pilares do ESG.

“A indústria brasileira da construção caminha a passos largos e alinhados ao que buscamos como sociedade”, afirma Aristarco Sobreira. Em sua análise, ele inclui também as obras públicas atribuindo os avanços à exigência do governo de que os contratantes estejam enquadrados às normas do Programa Brasileiro de Qualidade e Produtividade do Habitat (PBQP-H), um instrumento público que garante financiamentos habitacionais a empresas certificadas.
Fruto desta postura, que ele avalia como coletiva, o setor convive cada vez com desperdícios menores e preços justos, seguindo a característica da lei de mercado que tem sido favorável ao comprador em função da elevada oferta. “Toda a cadeia da construção está proativa em termos de inovação”, afirma, referindo-se a processos e a sistemas de produção, gerenciamento e projetos. Para ele, o já consolidado uso da modelagem BIM, por exemplo, está hoje para a engenharia e arquitetura nacionais como o obsoleto desenho assistido por computador, o Computer-Aided Design (CAD) esteve no passado, com enormes avanços construtivos.
E onde estão as dores do setor hoje? A pronta resposta envolve a falta de mão de obra que ataca praticamente todas as atividades. Também acrescenta a segurança jurídica que ainda precisa avançar. Aristarco Sobreira cita a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o Sindicato da Indústria da Construção do Ceará (Sinduscon-CE) como lideranças que se empenham em dar suporte ao segmento tanto em melhoria de eficiência como em celeridade e clareza nas aprovações de projetos de incorporação e de construção. E ressalta que Fortaleza evoluiu muito neste quesito graças aos licenciamentos digitalizados.
A propósito, a Comissão da Indústria Imobiliária da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) planeja manter o acompanhamento qualificado do mercado imobiliário neste ano e continuar focada numa agenda voltada à previsibilidade regulatória, à segurança jurídica e à construção de um ambiente de negócios mais favorável à atividade imobiliária.
Segundo o vice-presidente da área da Indústria Imobiliária da CBIC, Ely Wertheim, para 2026, a agenda da entidade prevê a continuidade do acompanhamento técnico do mercado, o aprofundamento do debate sobre crédito, funding e custo do capital, e a defesa de maior previsibilidade regulatória e segurança jurídica. A comissão também pretende manter a atuação previsível junto a agentes financeiros e formuladores de políticas públicas, contribuindo para a construção de um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do setor.
O diretor-presidente da Construtora Colmeia, Otacílio Valente (foto), é mais comedido quando o assunto é inovação na cadeia da construção. Ele concorda que o setor evoluiu muito, mas ressalva que o desenvolvimento poderia ser mais robusto não fossem dois grandes gargalos: a mão de obra escassa para a necessidade atual e o custo elevado do financiamento. “A industrialização maior terá que vir por pressão para podermos dar respostas em prazo e em preço”, alerta.

O engenheiro entende que a indústria da construção cometeu o grande pecado do excesso de especialização de pessoal. Uma obra requer, pelo menos, 20 diferentes tipos de profissionais para funções como pedreiro de acabamento (revestimentos), pedreiro conhecido como “mão grossa” para serviços de menor complexidade, bombeiros, encanadores, eletricistas, fachadeiros, gesseiros, pintores, marceneiros, dentre outros.
Num processo construtivo mais industrializado, como ocorre nos países mais desenvolvidos, a exigência é por profissionais montadores, dado que as tarefas se tornaram mais simples. Mesmo assim, a atividade se ressente de uma renovação de mão de obra, fato que Otacílio Valente atribui à falta de glamour, ainda que um pedreiro, segundo ele, ganhe mais do que um auxiliar de contabilidade.
Sua esperança é de que as entidades representativas do setor lancem, em breve, uma campanha de valorização das profissões do circuito da construção e, quem sabe, abrindo espaço para as mulheres, por natureza mais hábeis para a pintura e marcenaria, como ocorre no continente asiático.
Outro entrave apontado pelo presidente da Colmeia é o custo do financiamento de 15% ao ano. Segundo ele, o modelo de crédito do programa Minha Casa, Minha Vida, que tem processo industrial moderno e juros de 5% ao ano é perfeitamente viável, notadamente diante de uma inflação de 4,5% no Brasil. “Quem determina o prazo de entrega de uma obra é o fôlego de desembolso mensal do cliente”, alerta ele.
Fernando Galiza (foto), presidente do CREA-CE e diretor técnico da G3 Engenharia, afirma que a construção civil avançou, principalmente nas etapas de projeto, planejamento e gestão. “Hoje é muito mais comum ver obras com orçamento mais controlado, cronogramas melhor estruturados e uso de ferramentas digitais para compatibilização e tomada de decisão, como o BIM, por exemplo, que vem deixando de ser ‘tendência’ para se tornar uma direção natural do setor, porque integra disciplinas, reduz erros e melhora previsibilidade”, afirma.

Ele frisa, entretanto, que a inovação ainda é desigual, especialmente nos canteiros de obras onde, muitas vezes, a execução continua bastante tradicional. “Existem empresas e empreendimentos com alto nível de tecnologia, industrialização e controle, mas ainda há uma parcela grande do setor que opera com baixa padronização e forte dependência de processos manuais”, argumenta, defendendo a necessidade de investimentos em tecnologias realmente disruptivas onde o setor ainda engatinha. Para Galiza, ainda que mais tecnológica, a construção tem o desafio de transformar tecnologia em produtividade real em todas as etapas — do projeto ao pós-obra.
Na visão do dirigente do CREA-CE, para avançar de maneira mais consistente o setor precisa de gente qualificada, processos mais eficientes e mais industrialização, para que a tecnologia deixe de ser só ferramenta e vire resultado no prazo, no custo e na qualidade da entrega. “O setor precisa padronizar mais, medir mais e gerenciar melhor”, diz. E alerta que não basta treinar as pessoas, mas estruturar melhor o canteiro, com métodos, equipamentos, planejamento e gestão que reduzam improviso e dependência do “braço”.
Ousadia e uma boa dose de “loucura”, segundo o próprio, definem o engenheiro civil Joaquim Caracas (foto), sócio-fundador da Impacto Protensão, que provou possível aperfeiçoar métodos construtivos com técnicas racionais e materiais sustentáveis, inclusive para enfrentar a falta de mão de obra não especializada como requer uma construção mais industrializada.

No portfólio constam obras como a Arena Castelão e o Centro de Eventos em Fortaleza, capital onde ele marca presença em mais de 90% das construções que se estendem do Amazonas a Santa Catarina e Europa.
Em tempo: leva sua assinatura o primeiro hotel de plástico do mundo feito com a reciclagem de caixas plásticas usadas nas lajes nervuradas, o Vale das Nuvens, em Guaramiranga (CE), projetado há 10 anos. Otimista, ele diz que o Brasil está condenado a dar certo. E entende que “a produtividade é responsabilidade das pessoas, desde que contem com bons processos e sistemas avançados”, diz.
As 34 patentes registradas dão a noção da inquietação de Caracas, que buscou soluções para a área de estruturas de concreto. Mudou a metodologia de cálculos estruturais e substituiu por plástico reciclado 95% da madeira até então usada nas obras. A criatividade lhe rendeu o prêmio Techne/Pini de Inovação em 2015 pelo Sistema Pavplan na construção de lajes planas protendidas usando cimbramento metálico e formas plásticas que levaram à economia de tempo e de pessoal. Depois veio o Pavplus, que alia redução de materiais e também de mão de obra, reconhecido como o primeiro sistema de concreto protendido patenteado no Brasil com validade mundial.
Igualmente, Karine Gomes, responsável pela área de engenharia do Grupo BSPAR, manifesta preocupação com o envelhecimento nos canteiros de obras, razão pela qual defende uma maior industrialização como forma de tornar os processos mais atraentes aos jovens que não se interessam por colocar tijolo por tijolo. Os processos construtivos podem avançar com novos materiais. A propósito, a própria BSPAR conta com o BS Steel, um prédio feito em aço e vidro, cujo projeto exigiu dois anos e meio. “Ao optarmos por perfis de aço, saímos das lajes convencionais através de recursos tecnológicos que nos levaram à melhorias de processo ampliando a industrialização”, diz ela, entendendo que as empresas precisam pensar sobre o futuro que já chegou.
A seu ver, o ponto de mudança passa pela maior industrialização que é embarcada junto da inovação. E lembra que há tecnologias disponíveis para todas as etapas construtivas, desde a fundação. Karine Gomes entende que “o primeiro passo é querer mudar, buscar a informação e sair do processo arcaico, já dentro das práticas do ESG, que veio para ficar.
Neste sentido, a engenheira do Grupo BSPAR cita o fundador Beto Studart como um grande visionário que entendeu a necessidade de inovar e impulsiona a equipe a questionar as formas convencionais de construir. O loteamento BS Botanic, no Eusébio, por exemplo, é fruto da inquietude. As manilhas de concreto foram substituídas por tubos mais leves para a drenagem na obra, resultando na redução de 70% de emissão de CO².
“Sabemos que há custos envolvidos, mas não é só isso. O caminho da industrialização, da tecnologia e da inovação não tem volta”, conclui ela.
Para quem analisa o setor na academia e compartilha conhecimentos com futuros construtores, o professor titular da Universidade Federal do Ceará (UFC), José de Paula Barros Neto (foto), há risco de apagão de mão de obra na construção civil pela falta de renovação. “A idade média no setor é de 45 anos e o filho do pedreiro estuda para ser engenheiro”, alerta.

Ele sabe que a solução é complexa, mas o setor terá que, obrigatoriamente, avançar na industrialização que exige recursos e volume de obras para se viabilizar economicamente. E cita alternativas como a modularização, já amplamente utilizada em outros países na qual banheiros inteiros prontos são integrados à obra. Outra saída, segundo Barros Neto, é tirar maior e melhor proveito das tecnologias já adotadas, como o BIM, e agora, mais recentemente, a Inteligência Artificial. Também alinha a opção da impressão de casas em 3D, ainda experimental.
O professor entende que há preocupação das empresas com a inovação, mas avalia que ainda faltam ações objetivas de um setor ainda conservador e relutante o que, a seu ver, é compreensível, em função de variáveis como o custo do crédito para um segmento que atua no longo prazo.
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