Especialista afirma que o cenário para 2026 é de crescimento moderado, mas com mudança qualitativa importante na forma como a economia se financia e se expande. (Foto: Envato Elements)
Dólar em queda. Desemprego mais baixo da série histórica do IBGE. Inflação controlada podendo ficar abaixo de 4% em 2026. Ibovespa com sucessivos recordes. As manchetes que ocupam os noticiários diários podem sinalizar bons ventos para o Brasil que, em se mantendo fora dos episódios geopolíticos, se torna ainda mais atraente aos investimentos externos, formando um composto positivo para fazer girar a roda da economia com maior consistência.
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Tudo se encaixaria nas regras econômicas de crescimento sustentado, não fosse a questão fiscal que desorganiza e dificulta este esperado cenário. A virada do jogo, longe de ideologias, inclui reformas estruturais difíceis de acontecerem num País com eleições a cada dois anos. É preciso considerar outras e fundamentais variáveis como a condição do consumidor, início e fim de toda a engrenagem econômica.
Segundo o Mapa da Inadimplência e Renegociação de Dívidas da Serasa, 2025 se foi e deixou metade (49,7%) da população adulta com dívidas médias de R$ 6,3 mil por conta do acúmulo de parcelamento em bancos e cartões de crédito. “Quando o endividamento se torna estrutural, o crédito deixa de impulsionar vendas e passa a travar o crescimento”, analisa Vanderley Cardoso de Moraes, CEO da Top One Financeira.
PRINCIPAIS INDICADORES DE 2025
PIB – Avanço superior a 2% impulsionado pela agropecuária e serviços;
Inflação (IPCA) – Abaixo de 4,5% favorecida pelos preços menores de alimentos;
Juros – Taxa de 15% mantida pelo BC para controlar a inflação;
Desemprego – Atingiu mínimas históricas;
Câmbio – queda de 11,18% (dólar em R$ 5,30);
Bolsa – Recordes sucessivos superando os 164 mil pontos;0
Destaques setoriais – Agropecuária (+11,6%), serviços (+1,8%) e indústria (+1,7%).
O conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), Pedro Rafael Fernandes (foto), é um dos especialistas que olha nesta direção. Para ele, o cenário macroeconômico brasileiro para 2026 segue contaminado pela ameaça de uma crise de natureza fiscal. E não se trata de exercício de “achismo”. “O conjunto de regras de governança fiscal lançado pelo Ministério da Fazenda em 2023 mostrou-se incapaz de estabilizar a dívida pública, mesmo sob a hipótese de cumprimento integral”, afirma. E coloca a situação na conta do próprio Poder Executivo que, ano após ano, tem aberto exceções recorrentes para o cálculo dos limites fiscais, induzindo uma expansão dos gastos sob a aparência de responsabilidade fiscal.

“O principal termômetro da qualidade da governança fiscal é a estabilidade da relação dívida/PIB, e essa métrica vem se deteriorando e se disseminando em diversas frentes de forma persistente desde o início do atual governo”, sentencia Pedro Fernandes.
O economista exemplifica dizendo que o próprio Tesouro Nacional tem elevado sucessivamente suas projeções para a relação dívida/PIB. No ajuste mais recente, a estimativa para 2035 passou de 82,9% para 88%. Já a Instituição Fiscal Independente tem, como cenário-base, uma razão de 115%.
Mestre em economia, especialista em macroeconomia e avaliação de políticas públicas, Pedro Fernandes diz que “o desequilíbrio fiscal é particularmente pernicioso, pois se comporta como uma doença que se autoalimenta”. Ou seja, quanto maior o descompasso fiscal, maior o custo de rolagem da dívida e mais rapidamente a dívida cresce, retroalimentando e agravando o problema.
A despeito da gravidade do quadro, não há, no momento, sinais de que o atual governo venha a agir de forma consistente para dirimir a distorção fiscal. Muito pelo contrário: em ano eleitoral, o mercado antecipa que os Poderes Executivo e Legislativo tendem a acelerar a expansão dos gastos, transferindo para o próximo governo a tarefa politicamente mais custosa de cortar despesas e conter o crescimento do endividamento público.
O vice-presidente da Academia Cearense de Economia, Célio Fernando Melo (foto), foca exatamente na questão do gasto público e no endividamento, defendendo a necessidade de maiores investimentos, mas de maneira inteligente e eficiente. E lembra que na China foi assim, ainda que a relação dívida/PIB passe de 200%. Nos Estados Unidos é superior a 100%. “Precisamos mudar o atual modelo de gasto público que requer controle rigoroso e transparência”, afirma. Ele entende que despesas com educação, saúde e segurança devem ficar fora do arcabouço fiscal. “Fazer um hospital ou investir em saneamento público”, questiona, sabendo-se que cada dólar aplicado em prevenção gera economia de cinco dólares em saúde. A seu ver, o Brasil gasta demais e mal.

“O Brasil reúne pré-condições continentais e de recursos para ser protagonista num mundo que enfrenta desafios semelhantes e de variadas naturezas como polarização política, corrupção, transição energética e inteligência artificial”, afirma Célio Melo, que classifica como “ridículo” um crescimento máximo de 2% em um país das dimensões brasileiras.
Para mudar o rumo do acanhado crescimento, ele diz que são necessárias muita diplomacia e lideranças fortes, sem A ou B, capazes de promover reformas estruturais sem a busca de culpados. “Podemos sair fora da caixa com muita inovação, ciência e tecnologia”, garante ele.
Para o professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE), Lauro Chaves Neto (foto), também assessor econômico da Federação das Indústrias do Ceará (FIEC), desde a pandemia o mundo passa por uma reconfiguração das cadeias globais de valor, com movimentos de regionalização e de diversificação produtiva, o que pode ajudar o Brasil, principalmente em minerais estratégicos, energia limpa e alimentos. No seu entendimento, o crescimento do PIB de 2% a 2,5% terá que ser sustentado principalmente pelo consumo das famílias.

Ele vê como pequena, porém gradual, a recuperação dos investimentos, especialmente no agronegócio e na indústria ligada às commodities. “Nossa taxa de investimento é muito baixa e isso requer uma combinação entre investimento público em infraestrutura, concessão e parceria público-privada com os investimentos privados que dependem muito do ambiente de negócio, das incertezas e do crédito”, explica.
Entre os setores com mais potencial de crescimento, o professor Lauro Chaves cita a infraestrutura, a energia renovável, o agronegócio, com produtividade elevada, e a indústria de transformação ligada à transição energética e serviços intensivos em tecnologia, já que a transformação digital tem um papel cada vez mais relevante.
O assessor da FIEC destaca potenciais de desenvolvimento para o Brasil e para o Ceará, em especial, em áreas como a transição energética e a transformação digital. E cita o hidrogênio verde, a energia eólica on e offshore, a inteligência artificial e os datacenters que podem ser motores estruturais no avanço econômico nacional.
O economista Sérgio Melo (foto), presidente da Academia Cearense de Economia e sócio-fundador do Grupo SM, vê a inflação sob controle e o baixo crescimento brasileiro em linha com o cenário mundial no qual até mesmo a poderosa China deve repetir em 2026 o crescimento de 5% de 2025, da mesma forma que a zona do euro e os países emergentes não passarão de 3%. Sua preocupação maior é com os inibidores juros altos, que tenderão a se manter no mesmo patamar e, principalmente, com a situação fiscal do País, no qual a dívida líquida do setor público e a dívida bruta do governo são elevadas e sem sinalização de melhoras. “Os gastos desenfreados do governo federal levarão a um resultado catastrófico se nada for feito”, avalia, entendendo que este comportamento poderá fazer com que o Brasil entre numa espiral sem volta e com problemas seríssimos.

O crédito restrito e caro por conta das taxas elevadas de juros inibe o consumo e os investimentos. “A baixa taxa de poupança do Brasil é o principal entrave para um crescimento consistente, com impacto relevante sobre os projetos com base em infraestrutura mais robusta”, observa Sérgio Melo. Um fato que, para ele, se torna preocupante à medida em que são baixíssimos os investimentos em infraestrutura diante do tamanho da necessidade.
“O ano de 2026 pode ser até um pouco melhor se efetivamente forem aplicados os R$ 500 bilhões divulgados tanto pelo setor público quanto pelo setor privado e que, se ocorrerem, trarão grandes benefícios para o país”, comenta, apontando o modelo de PPPs como solução com reflexos ainda para este ano. Para isso, lembrou a necessidade de regras transparentes para garantir segurança jurídica.
Outro aspecto apontado pelo economista diz respeito à timidez da abertura brasileira para o comércio internacional, onde o câmbio opera como alavanca. Também cita as elevadas taxas de importação. “É preciso que o Brasil se alinhe definitivamente com o comércio internacional e amplie sua participação de pouco mais de 1% das transações globais, o que é muito pouco para o nosso tamanho”.
Apesar dos aspectos críticos, sua expectativa é de que o Brasil – assim como o resto do mundo – conta com setores com enorme potencial de expansão ainda neste ano. Trata-se de atividades ligadas à inteligência artificial e tecnologia de informação em geral, sem esquecer o agronegócio, que deve ser a grande medalha de ouro do ano de 2026. Sérgio Melo também cita a energia verde e a saúde mental, que vem ganhando espaço especial nos investimentos, notadamente nos dois últimos anos.
Na análise de Edgar Araújo (foto), CEO da Azumi Investimentos, as projeções econômicas para 2026 indicam um cenário de crescimento moderado no Brasil, em um ambiente ainda marcado por inflação resistente e política monetária cautelosa no mundo. “Esse contexto tende a manter os juros em patamares relativamente elevados, o que afeta diretamente o ritmo do consumo, o custo do crédito e as decisões de investimento das empresas”, afirma, acrescentando que a economia segue apoiada por setores com maior resiliência, como agronegócio, infraestrutura, energia, logística e serviços essenciais.

No ambiente externo, a expectativa é de volatilidade cambial ao longo do ano, influenciada pela trajetória dos juros nas principais economias, pelo cenário fiscal doméstico e pela dinâmica do comércio global. Edgar Araújo entende que a reconfiguração das cadeias globais de valor segue abrindo espaço para o Brasil em segmentos específicos, desde que haja estabilidade regulatória e segurança jurídica.
Para os investimentos, 2026 tende a ser um ano de maior disciplina na alocação de capital, com investidores priorizando estruturas bem desenhadas, risco mensurado e retorno compatível. Temas como digitalização, automação, inteligência artificial e transição energética continuam a influenciar a produtividade e a competitividade das empresas, criando oportunidades, mas também exigindo maior capacidade de adaptação.
Também para Gabriel Padula (foto), CEO do Grupo Everblue, o cenário é de crescimento moderado, mas com uma mudança qualitativa importante na forma como a economia se financia e se expande. “As projeções indicam um PIB em torno de 2%, sustentado mais por serviços, infraestrutura, agronegócio e cadeias industriais do que por consumo puro”. Para ele, os juros devem permanecer elevados, o que impõe disciplina maior a empresas, investidores e ao próprio Estado.

Diante deste quadro de juros altos e seletividade bancária, o capital deixa de ser abundante e passa a ser estratégico. “O crédito não some, ele muda de forma e passa a exigir mais eficiência”.
Gabriel elege a confiança com o ponto central. “A relação entre política fiscal, estabilidade institucional e capacidade de execução econômica será determinante para destravar investimentos privados”, afirma, entendendo que empresas que conseguirem combinar tecnologia, eficiência financeira e acesso a capital estruturado tendem a ganhar espaço. Ele também alerta que a transição energética, a digitalização e o uso inteligente de dados e inteligência artificial não aparecem apenas como tendências, mas como vetores reais de produtividade e geração de valor. “Em um ano de menos euforia e mais critério, quem estiver preparado sai na frente”, conclui.
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