ESG na construção: não mais verde, porém mais criterioso

Por: Gladis Berlato | Em:
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O conceito de ESG ganhou força na construção civil durante a pandemia e desde 2023 tornou-se requisito para financiamento. (Foto: Envato Elements)

A indústria da construção civil nacional começa a ganhar espaço entre as atividades que adotam práticas sustentáveis econômica, social e ambientalmente. Ainda que o conceito de ESG tenha chegado muito mais como reação do que uma ação estratégica, o processo avança movido pelas exigências legais e regulatórias de licenciamentos ambientais.


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Entre os setores que mais impactam a sustentabilidade pelo uso intensivo de recursos, pela geração de resíduos e pela transformação permanente do espaço urbano, a construção gera passivos de longo prazo, o que requer medidas fortes em toda a cadeia, a começar pela concepção de projetos. O que se vislumbra não é uma construção “mais verde”, mas um setor mais criterioso nas decisões.

Projetos certificados vendem mais

O vice-presidente da Comissão de Habitação de Interesse Social da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Clausens Duarte (foto), vê com otimismo a evolução do ESG no setor onde o discurso começa a virar prática. Também vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Ceará (Sinduscon-CE), ele lembra que o conceito ganhou força na construção civil durante a pandemia e desde 2023 tornou-se requisito para financiamento, contando com o Selo Azul da Caixa, como ferramenta facilitadora de melhorias das condições. E assim chegou a 2026 como motor de acesso às LCIs verdes, em crescimento continuado.

Clausens Duarte, vice-presidente da Comissão de Habitação de Interesse Social da CBIC. (Foto: Arquivo pessoal)

Sócio fundador da CR Duarte EnGa, ele atesta que o Selo Azul é uma certificação obrigatória presente em todos os empreendimentos da sua própria empresa há mais de seis anos, desde que surgiu. “Esta postura nos dá vantagens competitivas frente aos concorrentes, atrai investidores e nos permite cumprir um importante papel socioambiental, que nos realiza enquanto cidadãos e empresários”, atesta ele, convicto de que projetos certificados vendem mais rápido e consolidam a reputação junto à Caixa.

Maiores desafios

A jornada pode ser longa e onerosa, mas traz resultados, conforme o dirigente do Sinduscon-CE e CBIC. Ele lembra que o início exige investimentos para o atendimento aos critérios das certificações implicando em projetos e empreendimentos mais caros, mas de maior valor agregado. Entre os entraves, Clausens Duarte cita a escassez de fornecedores certificados para os padrões exigidos. “A capacitação das equipes avança lentamente e a exigências do Selo Azul demanda constante adaptação dos projetos e canteiros de obras”, alerta, apontando como saída a formação de parcerias estratégicas com a Caixa e foco em governança para escalar.

Sua crença é de que a adesão ao conceito ESG deve escalar no setor. A julgar por sua própria empresa, o horizonte para 2030 prevê expansão para construções com baixa emissão de carbono, com soluções acessíveis, alinhadas ao pacto mundial. Também prevê aumento no volume de negócios, padrão de controle, governança, transparência e margens.

ESG é realidade e aspiração

Para Jaques Paes (foto), professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV, a postura até então adotada pelo setor teve que mudar à medida que financiadores, seguradoras e estruturas de crédito passaram a incorporar critérios ESG de forma mais explícita. “O ESG deixou de atuar apenas como exigência periférica e passou a influenciar decisões técnicas ainda na fase de concepção dos projetos, como critérios de eficiência energética, avaliações de ciclo de vida e a inclusão de requisitos ambientais e sociais em contratos com fornecedores com impactos nos custos”. ilustra.

Jaques Paes, professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. (Foto: Arquivo pessoal)

Para Jaques Paes, os ganhos efetivos aparecem quando os critérios ambientais, sociais e de governança são incorporados ao processo decisório e à estratégia do empreendimento, e não quando operam como iniciativas paralelas ou desconectadas da gestão. “Hoje, o ESG é simultaneamente realidade e aspiração, depende de como é aplicado”, afirma, acrescentando que o ESG não diferencia porque é “melhor”, mas porque permite operar onde outros não conseguem ou não estão preparados.

Desafios à implementação do ESG

Para o professor da FGV, a fronteira do desafio técnico para a implementação do ESG já foi em grande parte superada. O problema maior é cultural e estrutural. O setor da construção é fragmentado, intensivo em fornecedores, opera com margens pressionadas e ciclos longos, o que exige coordenação de cadeia, visão de longo prazo e capacidade de absorver custos iniciais em troca de ganhos futuros. “Esse movimento entra em conflito direto com modelos tradicionais de gestão orientados ao curto prazo, sobretudo porque parte dos benefícios pode se materializar apenas em empreendimentos posteriores, como no desenvolvimento gradual de fornecedores”, exemplifica.

Na visão do professor, o futuro do ESG no setor da construção não está em um salto disruptivo, mas em um processo gradual de normalização. Ele acrescenta que a tendência é que o ESG deixe de ser tratado como agenda paralela ou diferencial excepcional e passe a operar, de fato, como critério padrão de decisão em projetos, portfólios e organizações. E estima que no curto e médio prazo, o avanço deve ocorrer de forma assimétrica. Alguns segmentos e tipos de empreendimento tendem a incorporar o ESG de maneira mais estruturada, enquanto outros permanecerão em estágios mais básicos. “Essa heterogeneidade não indica fracasso, mas reflete as diferentes pressões, escalas e modelos de negócio presentes no setor”, analisa.

O ESG tende a se consolidar como linguagem comum para tratar riscos, trade-offs e impactos ao longo do ciclo de vida dos empreendimentos. Quando isso ocorrer, o ESG deixará de ser pauta específica e passará a estar diluído, e incorporado, na forma como projetos são concebidos, avaliados e executados.

Principais benefícios do ESG na construção:

  • Redução de riscos relevantes
  • Maior previsibilidade de custo e prazo
  • Maior robustez estratégica dos projetos
  • Instrumento de decisão e proteção do valor do empreendimento.
  • Redução de impactos ambientais
  • Eficiência energética e hídrica
  • Gestão de resíduos e práticas de economia circular
  • Dinamização da economia local
  • Qualificação do entorno urbano e maior integração com a cidade
  • Maior qualidade das decisões

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