Brasil busca avanço no ranking mundial de cacau

Por: Gladis Berlato | Em:
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Apesar das boas safras, a demanda da indústria nacional de chocolates é gigante, consumindo mais cacau do que é produzido internamente. (Foto: Envato Elements)

Até há pouco concentrado apenas na Bahia, Pará, Acre, Rondônia e Espírito Santo, o cacau ganhou a geografia brasileira e marca presença em 25 estados, à exceção do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. O fato dá ideia do avanço da atual produção de 300 mil toneladas anuais de amêndoas de cacau, um volume que coloca o Brasil na sexta posição mundial. A liderança é da África Ocidental, notadamente a Costa do Marfim, Camarões e Nigéria, que responde por 65% do cacau produzido no mundo.


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A Bahia é o principal polo cacaueiro nacional que enfrentou a praga da “vassoura-de-bruxa” na década de 1990, abrindo espaço para o Pará. Os dois estados se alternam na primeira posição. O Pará vem se destacando pela alta produtividade, com um modelo de cultivo mais moderno e sementes mais resistentes. Rondônia figura como o terceiro maior produtor nacional.

Mesmo em crescente produção no mundo, há um déficit global de 1,0 milhão de toneladas, oportunidade que está no radar do Brasil que mira alcançar 400 mil toneladas até 2030, conforme planejado pela Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac) do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).

Interessante saber que, apesar das boas safras, a demanda da indústria nacional de chocolates é gigante, consumindo mais cacau do que é produzido internamente, o que exige a importação para a complementação do produto como matéria-prima. O Brasil exporta “cacau fino e de aroma” para países que produzem chocolate premium e importa “cacau a granel” ou “bulk”, especialmente da Costa do Marfim, para a indústria de chocolates mais básicos.

Cacau superior

O diretor da Ceplac, Thiago Guedes (foto), acha factível a meta de 400 mil toneladas em cinco anos construída pela Comissão juntamente com o setor e em parceria com a Fundação Mundial do Cacau. “Mais do que volume, buscamos qualidade para garantir a referência de cacau superiorque o Brasil já conquistou”, observa. Ele destaca que o cacau verde-amarelo tem que honrar as medalhas de ouro e prata conquistadas em competições internacionais. Guedes mostra otimismo com a estrutura produtiva nacional. São 96 mil propriedades que cultivam 600 mil hectares e que contam com 100 mil agricultores, 75% dos quais da agricultura familiar. Juntos, movimentaram R$ 14 bilhões em 2024.

Thiago Guedes, diretor da Ceplac. (Foto: Acervo pessoal)

“Há muito espaço para crescer interna e externamente”, assegura o especialista. Basta saber que o consumo per capita de chocolate no Brasil não passa de 3,5 kg (puxado pelo Sul e Sudeste) contra os 12 kg na Europa. Guedes aponta avanços, a começar pelo número de marcas. Em 2009, a Bahia, por exemplo, tinha apenas três marcas, mas hoje chegam a 250. O Pará já conta com mais de 70 e o Espírito Santo com mais de 40, totalizando mais de 400 em todo o mercado neste novo ciclo. “São marcas de origem, com indicação geográfica, o que dialoga com a agricultura familiar”, comenta.

Os gargalos apontados pelo diretor da Ceplac incluem o crédito, sempre escasso e caro, a assistência técnica e extensão rural e a pesquisa, barreiras para as quais o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) traça estratégias para que o setor possa enfrentar mais fortalecido os entraves de mercado. Um deles é a volatilidade do preço do produto, uma variável incontrolável. Com mercado aquecido, a tonelada do cacaupassou de US$ 2,0 mil entre 2018 e 2022, para US$ 12 mil em 2024. Atualmente está em torno de US$ 5,9 mil a tonelada, considerado ainda um valor competitivo que estimula os agricultores.

Chocolate Dengo

Uma das marcas brasileiras que nasceu em 2017 com o propósito de transformar a relação das pessoas com o chocolate foi a Dengo, que atua em toda a cadeia produtiva, do cultivo docacau à experiência de consumo. “Produzimos chocolates de verdade, com mais cacaue menos açúcar”, garante a gerente executiva de Redes da Dengo, Andresa Silva (foto). Para ela, a marca valoriza ingredientes nacionais e celebra o que o Brasil tem de mais genuíno que é o sabor autêntico do cacau, a diversidade da fauna e flora e a alegria contagiante da cultura brasileira.

Andresa Silva, gerente executiva de Redes da Dengo. (Foto: Acervo pessoal)

Como negócio de impacto socioambiental, a marca Dengo constrói o que chama de um ciclo justo: compra o cacau diretamente de mais de 200 pequenos e médios produtores, promovendo renda digna e estimulando práticas sustentáveis que conciliam produção e preservação.

Com mais de 50 lojas pelo Brasil e três em Paris, a Dengo vem consolidando sua presença internacional, levando ao mundochocolates que traduzem a brasilidade de forma sustentável, afetiva e inovadora. Em novembro deste ano, a Dengo reafirmou seu protagonismo ao conquistar o Sustainable Business Award, reconhecimento internacional anunciado durante a COP30, em Belém. O prêmio destacou o projeto “Créditos para a Terra”, iniciativa pioneira que remunera produtores decacau pelos serviços ambientais gerados em sistemas agroflorestais, fortalecendo a conservação da Mata Atlântica e o desenvolvimento de uma economia regenerativa.

“No mercado de chocolates premium, percebemos uma valorização crescente por marcas com propósito e transparência, que entregam qualidade e impacto positivo”, diz Andresa Silva, garantindo que o consumidor está cada vez mais atento à origem e ao impacto de suas escolhas.

Cacau do Ceará

A cultura do cacau é relativamente nova no Ceará, tendo iniciado em 2010 com as primeiras áreas de pesquisa e vem avançando, inclusive, com viveiristas locais. A produção estadual chegou a 3,0 mil quilos já a partir do terceiro ou quarto ano, graças a um bom manejo. O engenheiro agrônomo Diogenes Henrique Abrantes Sarmentes, CEO da Cacau de Ceará, se diz um aprendiz do cacau.

Diogenes Henrique Abrantes Sarmentes, CEO da Cacau de Ceará. (Foto: Acervo pessoal)

Especialista em fruticultura irrigada e doutor em manejo de sol e água, ele já marca presença em redes de supermercados.

A Cacau do Ceará, empresa genuinamente cearense, instalada em Limoeiro do Norte, está entrando no segmento de chocolate fino, saudável e sem gordura vegetal e conservantes. Com isto, a empresa, que compra o cacau da região, planeja ampliar também a sua carteira de compras da fruta para a região do Acaraú, com mais de 300 hectares de área plantada.

Benefícios e malefícios

O consumo decacau oferece diversos benefícios à saúde, mas exige moderação para evitar possíveis malefícios. Rico em compostos bioativos, como flavonoides e antioxidantes, ocacau melhora a circulação sanguínea e reduz a pressão arterial e o colesterol “ruim” (LDL). Substâncias como a teobromina e o triptofano, estimulantes de serotonina, endorfina e neurotransmissores, agem sobre o bom humor, também combatendo os radicais livres pela sua ação antioxidante.

Especialistas apontam, também, que o cacau atua como um prebiótico, combatendo as bactérias maléficas no intestino. Como fonte de ferro, previne a anemia, podendo melhorar a memória e a função cerebral.

Na lista de malefícios consta o aumento de peso, dada a elevada concentração de açúcar e gordura nos chocolatesde alta concentração, mas o efeito pode ser minimizado com o uso moderado deste tipo de alimento.

Cacau puro

A nutricionista Giovana Cezar (foto), aluna da escola de negócios Nutrição sem Fronteiras, recomenda privilegiar o consumo de cacau menos processado, da mesma forma que chocolates com maior teor de cacau, com mais flavonoides e menos açúcar e aditivos. “O cacau puro é a estratégia mais efetiva”, garante.

Giovana Cezar, nutricionista. (Foto: Acervo pessoal)

Especializada em nutrição vegetariana, saúde da mulher e nutrição clínica com foco em emagrecimento flexível baseado em evidências, ela acompanha o aumento do consumo do chocolate premium como um alimento funcional. “Este é um nicho associado a muito dinheiro, mas que requer cuidado em relação à saúde porque, embora o produto tenha menos açúcar, também pode ter muita gordura em sua composição”, alerta.

Giovana observa que tem ficado mais acessível o preço de alimentos de altíssima qualidade a base de cacau, como barras de chocolate especiais, pó de cacau cru e bebidas que incluem cacauna composição. “Vejo aí um potencial interessante que além de mais saudável pode beneficiar os pequenos produtores e, principalmente, resultar em um cacau mais sustentável”, analisa ela, em referência também ao problemático histórico da cultura do cacau, associado à devastação de áreas e à exploração de mão de obra e do trabalho infantil.

O Brasil já utiliza sistemas agroflorestais, um mix de cacau com árvores de sombra, fomentando a biodiversidade. Também privilegia a restauração do solo, práticas de manejo integrado e menor uso de insumos químicos, ampliando a produção de cacau orgânico de maior valor agregado e maior rastreabilidade na cadeia de produção. Na área social, o país conta com uma legislação trabalhista mais rigorosa que leva a condições mais dignas para quem produz e para quem comercializa.

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