O economista-chefe do BTG Pactual, em entrevista à jornalista e CEO da TRENDS, Carla Matos, analisou o desempenho da economia brasileira. (Foto: Trends)
O economista-chefe do BTG Pactual e ex-secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, em entrevista concedida com exclusividade à jornalista e CEO da TRENDS, Carla Matos, analisou o desempenho recente da economia brasileira e projetou os principais movimentos para os próximos anos.
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Ele afirmou que o país entrou numa fase de desaceleração depois de quatro anos seguidos de expansão e ressaltou que o debate fiscal definirá o ritmo de crescimento entre 2025 e 2027. “A economia brasileira está desacelerando depois de vários anos de crescimento forte pós-pandemia”, disse. Mansueto lembrou que o PIB avançou 5% em 2021, 3% em 2022, 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, o que reduziu a taxa de desemprego para 5,6%, patamar que ele classificou como historicamente baixo.
No Cenários, programa promovido pela TRENDS, o economista afirmou que essa fase de expansão ocorreu em meio a reformas e mudanças estruturais, mas explicou que o atual ciclo reflete uma política monetária mais dura para conter a inflação. Ele observou que o Banco Central elevou a taxa de juros a um nível alto para esfriar a demanda e estabilizar preços, e que mesmo assim o país continuará crescendo, embora num ritmo menor. “Nós devemos crescer perto de 2% este ano”, afirmou, e estimou que “no ano que vem o Brasil crescerá entre 1,5% e 2%”, apesar de os juros continuarem elevados. Mansueto argumentou que o cenário só mudará quando houver clareza sobre o ajuste das contas públicas, porque enquanto o déficit fiscal persistir, a política monetária seguirá pressionada.
Ele destacou que a dívida pública segue em trajetória de alta e avaliou que esse é o principal fator que limita a redução da taxa de juros. Para ele, o país fechará 2026 com um desemprego ainda baixo, possivelmente inferior a 7%, mas abaixo do desempenho visto entre 2021 e 2024. “Enquanto não resolvermos a questão fiscal, nós teremos juros altos para esfriar a economia e trazer a inflação para baixo”, afirmou. Ele acrescentou que a partir de 2027 caberá ao próximo governo — seja o atual ou outro — apresentar um plano fiscal crível para estabilizar a dívida e, assim, criar condições para uma queda sustentável dos juros.
Ao comentar a taxa de investimento do país, hoje em torno de 17% do PIB, Mansueto avaliou que o nível é baixo, mas ressaltou que alguns setores seguem com forte capacidade de atrair capital. Ele afirmou que a agropecuária mantém crescimento constante de produtividade há mais de três décadas e continuará entre os líderes de desempenho. “O setor agrícola vai continuar atraindo investimento e crescerá bastante”, disse. Ele lembrou que o país registrou, em 2023, a maior safra de grãos da história e que a Conab projeta novas supersafras em 2025 e 2026, o que reforça o peso do agronegócio nas exportações.
Mansueto também mencionou o setor de petróleo e gás, num momento em que o Brasil se consolidou como exportador líquido e ampliou a capacidade de produção. Além disso, apontou a expansão do mercado de data centers, impulsionado pela demanda por infraestrutura para inteligência artificial e pela maior oferta de energia renovável no país. Ele destacou que o Nordeste atrai projetos por causa da combinação de energia eólica e solar, o que abre espaço para novos investimentos. O economista citou ainda o avanço das concessões estaduais e federais em portos, rodovias e saneamento, que ampliam o fluxo de capital para infraestrutura.
Ao abordar o potencial regional, Mansueto afirmou que o turismo segue como uma das áreas com maior capacidade de crescimento, especialmente no Nordeste. Ele ressaltou que o Brasil recebe entre 8 e 9 milhões de turistas por ano, enquanto Portugal, com população menor, recebe aproximadamente 26 milhões, o que mostra a distância entre o atual desempenho e o potencial do setor. “O Brasil tem um enorme caminho para crescer no turismo”, afirmou. Segundo ele, o país tem condições de atrair mais investimentos se avançar na estabilidade fiscal e reduzir o custo do capital. “Se a gente fizer o dever de casa e controlar o crescimento do gasto, nós teremos boas notícias em diversos setores”, afirmou Mansueto.
TRENDS: Sobre confiança e previsibilidade, o empresário brasileiro vive ciclos de otimismo e insegurança. Quais fatores pesam hoje para investidores e empreendedores?
As duas coisas pesam muito para o empresário investir. O empresário faz investimento olhando para 20 anos ou 30 anos. Ele não faz investimento pensando em 2 ou 3 anos. Para ele fazer investimento, tem que ter um uma certa confiança de que com quem quer que esteja no governo, o país irá avançar, terá regras simples e não vai mudar muito a carga e regras tributárias. Então, é muito importante para o empresário na decisão de investimento, ele ter confiança que aquele país vai sempre, mesmo que aos poucos, continuar melhorando.
E previsibilidade também é importante, porque se o empresário toma decisão de investimento hoje, baseado em um cenário de carga tributária, de regras tributárias e depois de 2, 3, 4 anos, muda tudo, aquilo muda a taxa de retorno do projeto e impacta um cálculo que o empresário passou anos para fazer, para tomar decisão de investimento. Então, confiança e previsibilidade são muito importantes para a decisão de investimento de longo prazo. Não é investimento em uma ação, não é investimento no título de renda fixa. A gente tá falando de investimento em economia real. Para o empresário ter confiança de fazer investimento em economia real por duas décadas, três décadas, ele realmente precisa acreditar que aquele país vai melhorar ao longo do tempo.
TRENDS: Pelas suas estimativas, se o próximo governo empurrar a questão fiscal com a barriga, quando o Brasil enfrentará uma nova crise fiscal?
Então, é muito difícil responder exatamente quanto seria, mas a gente tem um problema fiscal que é o seguinte, a despesa no Brasil continua crescendo num ritmo muito forte. Pelos números que tem no orçamento, de 2023 a 2026, nós teremos um crescimento real do gasto público federal, não financeiro, que é tudo que o governo gasta sem incluir a conta de juros, nós teremos um crescimento real de 17%, o que é muito alto para um período de 4 anos. Então, o grande desafio do Brasil daqui para frente, qualquer que seja o governo, é o mesmo. Como a gente consegue controlar o crescimento do gasto público para gerar uma economia, o que a gente chama superávit primário, para permitir a redução da dívida. A dívida do Brasil está numa trajetória de crescimento muito forte. Nesse governo de 2023 a 2026, nós teremos um crescimento da dívida pública, segundo estimativas oficiais do próprio governo, de 10 pontos do PIB, em um período em que o crescimento médio da economia será de 2,5%.
Então, a dívida pública do Brasil está numa trajetória de crescimento que preocupa porque a taxa de juros que nós pagamos para financiar o governo é uma taxa de juros muito alta. Para ela baixar, a gente precisa enxergar que algum momento, nos próximos anos, seja em 3, 4, 5 anos, a dívida pública do Brasil vai parar de crescer e eventualmente vai começar a cair como proporção do PIB. Então, é muito importante a gente controlar o crescimento do gasto público, e aumentar a receita não vai solucionar um problema porque a carga tributária do Brasil já é muito alta. Se a gente for fazer um ajuste fiscal aumentando muito a receita, isso impacta o crescimento da economia.
O melhor caminho é reduzir gradualmente. Ninguém tá falando em cortar gasto público, nós estamos falando em reduzir o crescimento do gasto público. Se a gente conseguir, seja quem for o governo, reduzir esse crescimento, imediatamente a expectativa de inflação cai e a gente abre espaço para uma redução muito rápida da taxa de juros. Se nós não fizermos isso, nós vamos precisar de carga tributária mais alta e mesmo assim a gente poderá ter uma queda do crescimento e ter um cenário de inflação mais alto.
TRENDS: Considerando que a taxa de juros real do Brasil está próxima de 10%, a segunda maior do mundo, e que a taxa neutra está em torno de 5%, essa diferença de cinco pontos percentuais é necessária para refletir o nível de risco do Brasil?
Infelizmente sim. Só tem um país do mundo que está com a taxa de juros real maior que o Brasil, que é a Turquia. Em qualquer outro país do mundo, com juro real tão alto, a gente estaria discutindo qual seria o tamanho da recessão, mas o Brasil não terá recessão, o Brasil vai crescer. Essa taxa de juros está esfriando a economia, mas a gente vem de um ciclo de 4 anos de crescimento muito forte. Então, a economia está desacelerando num nível muito alto e infelizmente a gente precisa de uma taxa de juros muito alta para esfriar a economia.
Qual é a boa notícia? que não terá recessão. Qual é a notícia ruim? Quem está endividado sofre muito. As famílias no Brasil estão muito endividadas. E o que as famílias gastam com pagamento serviço da dívida também tá muito alto. Isso não é comum. Em geral, em períodos em que o desemprego cai e que a massa de salário real sobe, o endividamento das famílias cai. Dessa vez isso não aconteceu. E também tem algumas empresas que estão muito alavancadas, estão com a dívida muito alta e isso acaba reduzindo a margem que essas empresas têm de lucro. Muitos empresários têm que reestruturar a dívida. Então, o juro alto atrapalha a economia. Qual seria a melhor forma da gente levar esse juro para uma queda mais rápida? Seria a gente ter compromisso de, qualquer que fosse governo, incluindo com Congresso Nacional, controlar o crescimento do gasto público.
TRENDS: Sabemos que a trajetória do crescimento de um país depende do capital humano, da produtividade, das instituições e do equilíbrio macroeconômico. Considerando que o Brasil não contará com bônus demográfico e que a qualidade média de ensino ainda está aquém do necessário, como sair da armadilha da renda média em um contexto em que o país está envelhecendo antes de enriquecer?
Quando a gente olha os próximos 4 anos, até 2030, no próximo governo, o maior desafio é resolver o problema fiscal. Se você conseguir sinalizar de qual forma o governo conseguirá controlar o crescimento do gasto, isso levará a um cenário de juros mais baixos, o que vai ajudar na recuperação de investimento. Mas, na virada da década, essa transição demográfica vai pesar muito. Vamos lembrar o seguinte, nós estamos em 2025, daqui a 15 anos, a partir de 2040, todos os anos a população no Brasil vai diminuir. Nós nunca passamos por isso. Nem nossa geração, nem a geração dos nossos pais, nem a nem a geração dos nossos avós. Um país que a população cai ano após ano. Quando o país chega nesse estágio, mesmo antes disso, a tendência ao crescimento diminuir, justamente pela questão demográfica, chega menos pessoas todos os anos no mercado de trabalho.
Então, pra gente não ter uma queda forte do crescimento da economia, a gente precisa que cada trabalhador que vai entrar no mercado de trabalho consiga produzir mais, o que significa aumento da produtividade. Mas para um trabalhador que vai entrar nas nossas fábricas daqui a 15, 20 anos, ser mais produtivo, ele precisa ter uma qualidade de educação melhor, o que significa um enorme desafio pra gente melhorar a qualidade da educação no Brasil, de todo o ensino básico. Vamos lembrar que o Brasil só começou a investir consistentemente em ensino fundamental, ensino básico, a partir de meados dos anos 90, quando foi criado FUNDEF e depois foi criado FUNDEB. Agora a gente conseguiu aumentar bastante o número de crianças na escola, universalizar o acesso à educação, mas a qualidade ainda é um problema muito sério. E a gente já tem boas experiências no Brasil em qualidade da educação.
Tem um município aqui no estado do Ceará que é Sobral, que é um modelo para investimento no ensino. O que é que Sobral faz de diferente que permite ter indicadores tão bons de ensino fundamental? Então, a gente tem vários casos no Brasil que a gente precisa entender melhor e difundir para o resto do Brasil, para os mais de 5500 municípios. Mas não é só investimento, mas melhorar a qualidade da educação é algo que a gente não pode falhar nos próximos 5, 6 anos, porque isso é que vai determinar o crescimento do Brasil quando a população do Brasil começar a cair ano após ano.
TRENDS: O que o governo federal precisa fazer para equilibrar essas variáveis e evitar uma recessão, considerando que você não projeta uma retração da economia?
A gente tem hoje um setor público com pessoas muito mais qualificadas. O processo de seleção para ser servidor público hoje é muito mais competitivo. Tem pessoas muito boas no município, no estado e no governo federal. Mas a gente precisa avaliar políticas públicas, o que é que funciona e o que não funciona para cada real gasto e o que traz maior retorno para sociedade. A gente precisa ter o hábito de avaliar políticas públicas e colocar dinheiro naquelas que trazem maior redução da pobreza, redução da desigualdade e que levam ao maior crescimento econômico. Nós temos que fazer escolhas. Todos os países do mundo fazem escolhas.
Países que fazem escolhas, têm as contas públicas equilibradas e podem entrar num ciclo de crescimento mais sustentável, melhorando a educação e a saúde pública. O Brasil tem tudo para fazer isso. Nós tivemos vários anos de crescimento muito forte pós-pandemia, um crescimento muito forte de exportação. Quando a gente olha para os próximos 10 anos, a produção e exportação de petróleo no Brasil aumentarão, a produção e exportação de grãos no Brasil também crescerão. Então, o Brasil é uma economia diversificada e não tem nenhum grande desastre natural. Nós temos tudo para dar certo, mas a gente precisa fazer o dever de casa.
TRENDS: Setor com maior potencial para crescer até 2030?
O setor de energia no Brasil, todo investimento ligado à energia, que é o caso de data center, por exemplo, neste “boom” de investimento em inteligência artificial. É um setor que pode crescer muito no Brasil e atrair bastante investimento. A parte de infraestrutura também é um setor que pode crescer muito no Brasil, já tem crescido bastante depois que a gente mudou as regras. Olha o que é hoje o aeroporto de Fortaleza, Pinto Martins, e olha o que era 10 anos atrás. Totalmente diferente porque nós fizemos concessão de serviço aeroportuários no Brasil todo. Investimento em saneamento, investimento em infraestrutura tem um longo caminho para crescer e tem sido importante a mudança de regras para investimento nesses setores que traz mais segurança pro investidor.
Mas tem muita coisa no Brasil que pode crescer. Petróleo e gás também vai crescer. O Brasil está no pico, vai continuar aumentando a produção de petróleo do pré-sal, pelo menos até 2031., o que é também uma tendência muito positiva. A agricultura vai continuar crescendo no Brasil e não está ligada ao desmatamento. A gente tem que aumentar a produção agrícola com a área que nós já temos plantada com aumento de produtividade e a melhora de infraestrutura para trazer mais competitividade para nossas exportações de grãos. Quanto à indústria, vai depender, entre outras coisas, do cenário de giro baixo. A reforma tributária, que já foi aprovada nesse governo, vai ajudar o setor industrial. E claro, o cenário de juros baixos ajuda no crescimento de todos os setores.
Clique aqui para conferir o episódio completo do Cenários Trends com Mansueto Almeida
Nível de atividade, inflação e taxa de juros
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