Nível de atividade, inflação e taxa de juros

Por: Rogério Sobreira | Em:
Tags:
inflação e juros

Diante da perspectiva de uma desaceleração menos intensa da atividade econômica e mesmo com a inflação exibindo um comportamento bastante benigno, a autoridade monetária tende a manter a taxa Selic no nível atual até janeiro de 2026 – Foto: Envato Elements

Nos dias 30 e 31 de outubro foram divulgados os dados mais recentes do mercado de trabalho. O Novo Caged, que monitora o emprego formal, mostrou que as admissões de julho, agosto e setembro permaneceram praticamente estáveis — após três meses anteriores (abril, maio e junho) marcados por queda. Já os desligamentos diminuíram ao longo do trimestre. Como resultado, esses três meses registraram um saldo positivo de aproximadamente 490 mil novos postos de trabalho formais.


Quer receber os conteúdos da TRENDS no seu smartphone?
Acesse o nosso canal no Whatsapp e fique bem informado


A Pnad Contínua, por sua vez, reforçou o bom momento do mercado de trabalho. A taxa de desocupação manteve-se no menor nível da série histórica5,6%, e houve uma leve alta tanto no rendimento médio real efetivamente recebido quanto na massa de rendimentos, quando se compara o terceiro trimestre (julho a setembro) com o segundo trimestre (abril a junho). Em resumo: mesmo que em ritmo mais moderado do que nos trimestres anteriores, a criação de empregos formais continuou, e o rendimento real mostrou pequena recuperação. Assim, o mercado de trabalho segue demonstrando forte resiliência, permanecendo como um dos principais pilares de sustentação da atividade econômica.

Essas informações se complementam com os dados setoriais do IBGE — indústria (PIM-PF), comércio varejista e ampliado (PMC) e serviços (PMS) — divulgados entre 4 e 13 de novembro.

Na indústria geral, observa-se desaceleração da taxa anual de crescimento desde maio: o indicador recua de 2,83% em maio para 1,54% em setembro, movimento também presente na indústria de transformação. A indústria extrativa, por outro lado, mostra trajetória oposta, com aceleração da taxa anual de 0,25% em maio para 1,80% em setembro.

No comércio varejista, há queda contínua da taxa anual de crescimento desde janeiro, refletindo variações mensais negativas a partir de abril — exceção feita a agosto. O varejo ampliado também desacelera continuamente desde abril, embora suas taxas mensais apresentem comportamento menos uniforme.

Dentro do varejo ampliado, alguns segmentos chamam atenção. O comércio de veículos, que vinha se recuperando desde julho, voltou a cair 0,8% em setembro na comparação com agosto. O segmento de materiais de construção mostra desempenho ainda mais fraco, com queda contínua desde julho. A única exceção positiva é o segmento de atacarejo, que apresentou crescimento nos meses de julho, agosto e setembro.

O setor de serviços, por sua vez, permanece como o mais dinâmico entre os grandes setores da economia. Houve leve aceleração tanto da taxa anual de crescimento — de 3% em julho para 3,08% em setembro — quanto das taxas mensais, que passaram de 0,2% em agosto para 0,6% em setembro.

Em síntese: o setor de serviços — que possui o maior peso no PIB, cerca de 70% — tem compensado o desempenho mais fraco da indústria e a perda de fôlego do comércio. Os dados, em conjunto, sugerem um resultado do PIB mais favorável no terceiro trimestre do que o inicialmente esperado no início de julho, quando foram divulgados os primeiros indicadores do período.

É nesse contexto que o COPOM decidiu, em 5 de novembro, manter a taxa básica de juros inalterada. Ao afirmar que:

“O cenário atual, marcado por elevada incerteza, exige cautela na condução da política monetária. O Comitê avalia que a estratégia de manutenção do nível corrente da taxa de juros por período bastante prolongado é suficiente para assegurar a convergência da inflação à meta. O Comitê enfatiza que seguirá vigilante, que os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados e que não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.” (grifos nossos)

Diante da perspectiva de uma desaceleração menos intensa da atividade econômica — especialmente no setor de serviços — e mesmo com a inflação exibindo um comportamento bastante benigno (o IPCA subiu apenas 0,09% em outubro), a autoridade monetária tende a manter a taxa Selic no nível atual até janeiro de 2026. A expectativa é que o ciclo de cortes seja iniciado apenas em março de 2026, sobretudo pela postura de cautela na condução da política monetária, já que não há sinais de deterioração significativa da atividade econômica ou do mercado de trabalho.

Rogério Sobreira é Economista-Chefe do BNB – Foto: Acervo pessoal

*Este conteúdo é de inteira responsabilidade do seu autor. A TrendsCE não se responsabiliza pelas informações contidas no material publicado.

Saiba mais:

Focus: inflação interrompe sequência de queda e permanece em 4,55%

Deflação de outubro reduz inflação acumulada na RMF para 3,46%


Siga a Trends:

Instagram | LinkedIn | Facebook | Telegram | YouTube | Google Notícias

Top 5: Mais lidas