Líder em biomassa, Brasil pode exportar soluções climáticas

Por: Gladis Berlato | Em:
Tags:
biomassa brasil

Especialistas preveem que na próxima década, o Brasil tende a consolidar uma bioeconomia integrada, onde as produções agrícola, energética e ambiental caminharão juntas – Foto: Envato Elements

Bioenergia é o nome do jogo, onde o Brasil é favorito pela sua vocação agrícola, pela extensão de terras férteis e pelo clima favorável. A condição ímpar lhe garante o degrau mais alto no pódio internacional, graças, também, ao fato de o país estar décadas à frente das grandes nações no quesito matriz energética com fontes renováveis, onde o agronegócio desponta como estrela. Adicionalmente, conta com um marco regulatório que oferece segurança aos investidores, atraindo empreendimentos.


Quer receber os conteúdos da TRENDS no seu smartphone?
Acesse o nosso canal no Whatsapp e fique bem informado


Neste cenário, especialistas preveem que na próxima década, o Brasil tende a consolidar uma bioeconomia integrada, onde as produções agrícola, energética e ambiental caminharão juntas. A expansão do mercado de Sustainable Aviation Fuel (SAF) – o combustível verde para avião –, o avanço do biometano, a consolidação do RenovaBio e o desenvolvimento de cadeias de hidrogênio verde serão pilares de competitividade global. O reconhecido fornecedor de commodities pode, também, ser um exportador de soluções climáticas, transformando sua base rural em infraestrutura estratégica para o net zero.

Campo é vetor estratégico

Tal protagonismo é apontado por Daniel Caiche (foto), professor de MBA de ESG e Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), para quem o agronegócio brasileiro tem assumido um papel central na transição energética global ao combinar segurança alimentar, produção sustentável e geração de energia limpa. “Com uma matriz energética já majoritariamente renovável (cerca de 47% contra uma média mundial inferior a 15%), o Brasil demonstra que é possível alinhar competitividade e descarbonização”, afirma e lembra que o campo é hoje um vetor estratégico da transição, não apenas pela oferta de alimentos, mas também pela capacidade de gerar bioenergia, biocombustíveis e créditos de carbono.

Daniel Caiche, professor de MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV – Foto: Acervo pessoal

O professor Caiche destaca o biogás e o biometano como fronteiras promissoras da bioenergia brasileira. Gerados a partir de resíduos da agropecuária e de efluentes industriais, esses combustíveis renováveis transformam passivos ambientais em ativos energéticos. Além de reduzir emissões de metano – um gás de efeito estufa com alto potencial de aquecimento global – o biometano substitui o diesel em frotas e pode ser injetado diretamente na rede de gás natural, fortalecendo a segurança energética e promovendo a economia circular no campo.

Não é preciso muita memória para lembrar dos carros a álcool, uma ousadia que o Brasil pôde cometer por conta do etanol brasileiro. “Um dos maiores símbolos da transição energética brasileira desde o Proálcool. O país construiu um modelo integrado de produção, tecnologia e logística que se tornou referência mundial”, comenta Daniel Caiche. Ele acrescenta que hoje, o etanol de segunda geração e o etanol como matéria para o Sustainable Aviation Fuel (SAF) demonstram que essa matriz segue evoluindo. O modelo de governança do RenovaBio, com o crédito de descarbonização (CBIO), consolidou uma política de Estado baseada em métricas de ciclo de vida e eficiência energética, alinhada a padrões internacionais como os da União Europeia e da Califórnia.

Hidrogênio verde

A propósito, convém lembrar que o Brasil é um dos poucos países com base agrícola, territorial e tecnológica capazes de produzir SAF e HVO (óleo vegetal hidrotratado) em escala. Para que este potencial se concretize são necessários grandes investimentos em infraestrutura e logística, integrando refinarias, usinas e produtores rurais. Daniel alerta que a convergência entre bioenergia e eletrólise sustentável abre caminho para o hidrogênio verde de base biogênica, que pode aproveitar o etanol e o biogás como rotas de produção com menor pegada de carbono. “Essa integração posiciona o país como fornecedor estratégico de energia limpa para a aviação, transporte pesado e indústrias de difícil descarbonização”, assegura.

A conexão entre agro, indústria e ciência tem impulsionado uma nova geração de soluções em bioenergia. Centros de pesquisa e startups brasileiras vêm desenvolvendo rotas tecnológicas para captura de carbono, fertilizantes verdes, reaproveitamento de biomassa e biorrefino avançado. Projetos de MRV digital (Mensuração, Reporte e Verificação), agricultura regenerativa e uso inteligente de dados consolidam uma visão de “agro como energia” e reforçam o protagonismo nacional no contexto de descarbonização global.

Oportunidades ímpares

O sócio-diretor da consultoria NexBio, Expedito Parente Júnior (foto), concorda plenamente que, como líder na produção de bioenergia, o Brasil é protagonista na transição energética, até porque está 30 anos à frente de outras nações. Ao mesmo tempo, ganhou destaque entre maiores produtores de etanol e de biodiesel, contando com um conjunto de marcos regulatórios que garantem previsibilidade aos investimentos. Além do etanol de cana, o Brasil também dispõe de outros biocombustíveis como o etanol de milho em crescimento nos últimos anos e o biodiesel, uma indústria madura que produz quase 10 bilhões de litros/ano.

Expedito Parente Júnior, sócio-diretor da consultoria NexBio – Foto: Acervo pessoal

Também o biogás e o biometano, em substituição ao gás natural, já conquistam espaços relevantes, assim como a produção de eletricidade a partir do bagaço da cana, a bioeletricidade que chega como alternativa energética limpa. Animado, Expedito espera que nos próximos anos o Brasil inicie em território verde-amarelo a indústria de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) e de combustíveis marítimos (biobankers), também de fontes renováveis. “Eis uma matriz bastante diversificada, o que amplia ainda mais a segurança energética”, diz ele.

Em sua análise, o agronegócio brasileiro vem crescendo muito mais em rentabilidade e produtividade do que em área de plantio, o que é sinônimo de agricultura de precisão, melhoramento genético das biomassas, automação, uso de tecnologias emergentes, inteligência artificial, big data e tecnologias 4.0 aplicadas à agricultura e à indústria. “Isto nos dá novas rotas tecnológicas”, garante ele.

Impactos sociais

A bioenergia é um mecanismo muito viável de combate à poluição com evidentes resultados na qualidade do ar. A substituição dos combustíveis fósseis também repercute na saúde das pessoas e nos cofres públicos com menos internações e óbitos ligados a doenças cardiorrespiratórias. Igualmente gera oportunidades de renda e de emprego nas comunidades do interior através da agricultura familiar, já que utiliza diferentes tipos de matérias-primas e resíduos do campo.

Para Expedito Júnior, cada vez mais países estão aderindo ao cenário de crescimento zero em carbono até 2050/2060, especialmente o mercado europeu, mais comprometido com o aspecto ambiental, além de alguns países asiáticos como China, Coreia e Japão, que também têm estabelecido metas de zero carbono. E nenhum deles tem a capacidade de expansão do Brasil em produção e comercialização de biocombustíveis. “Sem o Brasil, o net zero emission não será factível. Isso é uma nova oportunidade para a gente”, sentencia.

Entre as barreiras a serem vencidas, o diretor da NexBio cita crédito e infraestrutura para dar sustentação ao crescimento da indústria de biocombustíveis em grande escala, até para garantir participação no mercado internacional. “O agro brasileiro tem sido um palco de inovação e o Brasil também já tem papel estratégico como fornecedor de bioenergia para a redução da poluição”, finaliza.

Protagonistas da ação climática

“É fundamental que o mundo reconheça a singularidade da agricultura tropical e nosso papel como protagonistas da ação climática”, disse o presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins (foto), durante a COP30 Farmers Summit, em Brasília, no dia 06 de novembro. Na ocasião, a CNA ingressou na Organização Mundial dos Agricultores (OMA), que reúne 80 entidades mundiais de produtores rurais em 55 países para discutir e propor ações voltadas para a produção de alimentos e a sustentabilidade.

João Martins, presidente da CNA – Foto: Wenderson Araújo

“Produzimos com responsabilidade, ciência e inovação, conciliando produção com conservação”, garantiu Martins, acrescentando que o Brasil é referência em tecnologias de baixo carbono, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, recuperação de pastagens e manejo eficiente de recursos naturais.

No mesmo evento, o diretor-geral adjunto do Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura (IICA), Lloyd Day, destacou o papel do Brasil não apenas como produtor e fornecedor de alimentos para o mundo, mas também como provedor de biocombustíveis e fontes de energia renováveis.

“Se não fossem os agricultores, teríamos muitos problemas. A agricultura não é o vilão, mas a solução dos problemas climáticos, porque auxilia na redução da emissão de carbono”, disse o dirigente.

Avanço em fontes renováveis

“O agronegócio tem adotado, cada vez mais, práticas sustentáveis em suas cadeias produtivas”, assegura Amilcar Silveira (foto), presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec) e diretor da CNA, lembrando que no Nordeste, região que desponta como polo nacional de geração solar e eólica, o setor rural tem avançado na adoção de fontes renováveis, especialmente na irrigação e no processamento de alimentos.

Amilcar Silveira, presidente da Faec – Foto: Acervo pessoal

No Ceará, segundo ele, os produtores contam com ampla disponibilidade de terras que apresentam condições climáticas ideais para a instalação de usinas solares, o que amplia as oportunidades de investimento e autossuficiência energética no campo. “Esse movimento fortalece a competitividade do agro, reduz custos operacionais e impulsiona a produtividade”, afirma.

O Governo Federal projeta investimentos de R$ 200 bilhões em transição energética até 2028. Em 2022, os investimentos em energia renovável no Brasil saltaram para US$ 86 bilhões, colocando o país na 5ª posição no ranking mundial. A expectativa é de aportes de ao menos R$ 40 bilhões por ano em projetos solares, eólicos, hidrogênio verde e biocombustíveis.

Saiba mais:

Brasil é o paraíso da biomassa e biocombustíveis são destaques

Energia Pecém e UECE vão desenvolver biocarvão a partir de biomassa de coco


Siga a Trends:

Instagram | LinkedIn | Facebook | Telegram | YouTube | Google Notícias

Top 5: Mais lidas