O plástico é herói quando salva vidas e reduz desperdícios, mas vira vilão quando o descarte é feito sem gestão adequada. (Foto: Envato Elements)
O plástico surgiu no início do século XX como uma alternativa mais acessível e versátil a materiais escassos, como marfim e vidro. Ganhou força após a Segunda Guerra Mundial, essencial para a reconstrução das economias, barateando produtos e democratizando o acesso a bens de consumo.
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Em pouco tempo, entretanto, o mocinho virou vilão diante do acelerado progresso e do volumoso e inadequado descarte que sobrecarrega a natureza. Novamente, o plástico se reinventa e volta a ser herói a partir da inovação que o transforma em solução com processos como reciclagem química, reutilização e novas aplicações circulares que reduzem o impacto ambiental.
De alta versatilidade, o plástico é presença constante nos hospitais, salvando vidas em seringas, bolsas de sangue e próteses. Na alimentação, protege e prolonga a vida útil dos alimentos. No transporte, reduz o peso e emissões e na tecnologia é base de componentes eletrônicos usados intensivamente por todos diariamente.
Em menos de duas décadas, a produção de plástico alcançou os atuais 400 milhões de toneladas e poderá atingir 1,1 bilhão de toneladas até 2050, se mantido o histórico de expansão deste material de presença constante na vida moderna. Mocinho ou bandido, o plástico impõe à sociedade o desafio da gestão séria e responsável.
“A quantidade anual de plástico emitida pelos rios para o mar nesse modelo global está estimada entre 0,8 milhão e 2,7 milhões de toneladas métricas por ano”.
Fonte: Science
O presidente do Sindquímica-CE e CEO da Intraplast, Beto Chaves (foto), é enfático ao classificar o plástico como herói quando salva vidas e reduz desperdícios, mas vira vilão quando o descarte é feito sem gestão adequada. “O problema não é o material em si, mas como a sociedade lida com ele”, afirma, defendendo a necessidade de aumentar a reciclagem e reduzir o descarte irregular como forma de fazer frente à crescente produção global anual da ordem de 400 milhões de toneladas.

Ele ilustra com estudos que mostram que cerca de 1.000 rios em países sem coleta estruturada são responsáveis por até 80% do plástico que chega aos oceanos. O CEO da Intraplast – fabricante cearense de embalagens para bolos, tortas, doces, salgados, ovos e sushi – diz que no Brasil, o setor já investe pesado em reciclagem e logística reversa. O PET, por exemplo, tem um dos maiores índices de reciclagem do mundo alcançando taxas acima de 40%. “Isso mostra que a circularidade é viável quando há educação, incentivo e tecnologia”, comenta ele.
A propósito, ele lembrou que em países com coleta estruturada, o plástico não é visto como vilão, mas como recurso valioso. E citou a educação como ponto-chave. “Sem educação, nenhuma lei funciona. Quando a população entende por que e como separar, a taxa de reciclagem pode aumentar dezenas de pontos percentuais”, afirma.
A julgar pelas alternativas, há soluções. Existem plásticos de base biológica, como os derivados do milho ou da cana, que são biodegradáveis em condições específicas. “Eles não substituem tudo, mas são aliados importantes em embalagens e aplicações de curto ciclo”, acrescenta Beto Chaves. Para ele, cada um tem seu papel para a virada deste jogo: o consumidor pode ser protagonista ao escolher embalagens recicláveis, separar o lixo e cobrar políticas públicas de coleta e reciclagem. Empresas também têm papel fundamental ao investir em design circular e logística reversa.
O posicionamento do Sindquímica-CE é engrossado pela Associação Brasileira das Indústrias Ópticas (Abióptica), que apoia a iniciativa da ABIHPEC – Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos –, entidade representativa do mercado de estética, no Programa Mãos para o Futuro. Entre as atividades de uso intensivo de embalagens plásticas, as instituições comemoram a superação da meta de 200 mil toneladas de embalagens em 2024 por meio de ações estruturantes de logística reversa. Deste total, o Plástico representa 28,8%, perdendo apenas para o Papel (46,22%). O Vidro responde por 15,33% e Metais por 9,62%.

A diretora-executiva da Abióptica, Ambra Nobre Sinkoc (foto), diz que a entidade reconhece a responsabilidade de contribuir para uma solução sustentável, o que a levou a integrar o Mãos para o Futuro. Na prática, foi estruturado um programa de logística reversa de embalagens, assegurando que as embalagens pós-consumo retornem ao ciclo produtivo por meio da neutralização. “O plástico pode, sim, ser um aliado da sustentabilidade desde que integrado a modelos de responsabilidade compartilhada, conectando indústria, varejo, consumidores e cooperativas em uma solução concreta e eficiente. Como resultado, gera também benefícios aos catadores, elo mais vulnerável da cadeia de valor”, afirma ela.

Mãos para o Futuro em números – 2024
• Parceria ativa com 199 cooperativas e associações de catadores;
• 5.594 profissionais da reciclagem diretamente beneficiados;
• 174 municípios envolvidos.
Para o diretor-executivo do Instituto Nacional do Plástico (INP), Carlos Moreira (foto), o rótulo de vilão é injusto e mostra o desconhecimento sobre um material tão valioso, que requer tratamento adequado. “Onde há sistemas de coleta eficientes, infraestrutura de triagem, desenho de produto orientado à reciclabilidade e responsabilidade estendida do produtor, o plástico permanece como recurso de alto valor econômico, não como resíduo”, diz ele.

À frente da instituição de promoção comercial do plástico, a Think Plastic Brazil, ele garante que o setor vem promovendo essa transição por meio de metas de circularidade, incorporação crescente de conteúdo reciclado, padronização de materiais, expansão da logística reversa e investimentos em reciclagem mecânica e avançada, além de iniciativas de descarbonização com matérias-primas renováveis.
Para ele, a fórmula de sucesso inclui o fortalecimento de modelos circulares e de alta performance ambiental, investimentos em qualidade da sucata e rastreabilidade e com o poder público assegurando previsibilidade regulatória e infraestrutura, num sistema de compartilhamento de responsabilidades. E destaca que, talvez, o fator humano seja o mais desafiador. Mesmo com leis e tecnologias disponíveis, os hábitos de consumo e descarte da população nem sempre acompanham as mudanças necessárias. A conveniência dos produtos descartáveis está culturalmente enraizada e muitos consumidores ainda preferem embalagens de uso único pela praticidade ou por desconhecerem opções reutilizáveis.
“O plástico não é antagonista, ele é um viabilizador de soluções. O desafio reside em consolidar a boa gestão ao longo de todo o ciclo de vida. Com disciplina técnica, governança e educação para o consumo consciente, transforma-se o que antes era visto como problema em vetor de competitividade, saúde e sustentabilidade para a sociedade”, assegura.
Dentro da perspectiva de crescimento populacional de um lado e do avanço da tecnologia de outro, novos processos de reciclagem avançada (química ou molecular) vêm sendo testados para decompor os plásticos de volta aos seus componentes químicos originais e produzir resinas virgens novamente, de alta qualidade, mesmo a partir de resíduos plásticos mistos ou contaminados. Essas técnicas, como a pirólise, gasificação e despolimerização, complementam a reciclagem mecânica tradicional, podendo aumentar a taxa de reaproveitamento de plásticos que hoje acabam em aterros.
Grandes empresas químicas e startups de tecnologia têm investido em plantas-piloto para converter embalagens flexíveis e outros materiais de difícil reciclagem em novos polímeros ou em combustíveis, evitando que virem poluição. Estudo do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) indica que medidas de inovação na forma de reutilização, reciclagem e substituição de materiais podem reduzir em 80% a poluição plástica até 2040. “Ou seja, soluções já conhecidas, como redesign de produtos para usar menos plástico, padronização de materiais para facilitar a reciclagem, sistemas de refil e reúso, combinadas com novas tecnologias, podem cortar a maior parte do fluxo de resíduos plásticos no meio ambiente nas próximas duas décadas”, sinaliza Carlos Moreira.
Outra vertente importante da inovação, segundo ele, é o desenvolvimento de materiais plásticos mais sustentáveis como os bioplásticos e polímeros de fonte renovável, além dos biodegradáveis. É o caso polietileno “verde” produzido a partir de etanol de cana-de-açúcar no Brasil, considerado oprimeiro plástico de fonte 100% renovável produzido em escala industrial no mundo. Esse polietileno vegetal captura gás carbônico da atmosfera durante o cultivo da cana, substitui diretamente o polietileno convencional (de fonte fóssil) nos processos industriais existentes e, ao final da vida útil, pode ser reciclado da mesma forma que o plástico comum.
Inovações assim reduzem a pegada de carbono do plástico sem exigir mudanças drásticas na cadeia produtiva. Outras empresas têm investido em incorporar conteúdo reciclado em novos produtos, por exemplo, há fabricantes de embalagens e utilidades domésticas que já utilizam 100% de matéria-prima reciclada, retirando toneladas de lixo do meio ambiente e fechando o ciclo produtivo. Também surgem inovações em aditivos que tornam certos plásticos tradicionais mais fáceis de degradar após o uso.
Plásticos biodegradáveis e compostáveis
• Plásticos biodegradáveis: são degradados por micro-organismos em condições ambientais adequadas, convertendo-se em substâncias inofensivas como água, CO₂ e biomassa.
• Plásticos compostáveis: são os que com calor, umidade e presença de bactérias/fungos específicos se decompõem e viram adubo dentro de um prazo relativamente curto.
Diversas iniciativas ao redor do mundo estão em curso para implementar a economia circular no setor de plásticos, envolvendo governos, empresas e sociedade civil. No âmbito internacional, a mobilização mais ambiciosa é a negociação de um Tratado Global de Combate à Poluição Plástica, liderado pela ONU e apoiado por mais de 170 países. Em paralelo, coalizões público-privadas como os Pactos dos Plásticos (iniciativa da Fundação Ellen MacArthur) reúnem empresas e governos em vários países com compromissos voluntários de circularidade.
No setor empresarial, vemos inovações em logística reversa e novos modelos de negócio. Grandes fabricantes de bens de consumo têm implementado programas de retorno de embalagens, instalação de pontos de coleta para reciclagem e parcerias para utilizar plástico reciclado em seus produtos. Iniciativas como a campanha #CleanSeas (Mares Limpos), do PNUMA, cobram medidas concretas do poder público e do setor privado para combater a poluição hídrica.
Alguns governos nacionais e municipais já adotaram políticas de proibição ou restrição a produtos de uso único: canudos, sacolas plásticas e talheres descartáveis foram banidos em diversos lugares, impulsionando o uso de alternativas reutilizáveis ou biodegradáveis. Outros instrumentos são as taxas e impostos verdes, como a taxação de sacolas plásticas (implementada em países como Uruguai desde 2018), que visam desestimular o consumo supérfluo.
Em resumo, a transição para uma economia circular do plástico já começou. Ela envolve desde acordos globais de alto nível até projetos locais de reciclagem comunitária. Embora haja um longo caminho para escalar essas ações, elas demonstram o comprometimento crescente em fechar o ciclo do plástico, de modo que o material permaneça em uso produtivo e não acabe como poluição.
O sucesso dessas iniciativas depende de vontade política, investimentos tecnológicos e engajamento de toda a sociedade na mudança de paradigma, onde a educação ambiental torna-se uma das ferramentas mais importantes para a mudança de rumo com a criação de uma cultura de consumo consciente para que o indivíduo se sinta parte da solução.
Desenvolvida pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e pela Associação Brasileira da Indústria do Plástico (ABIPLAST), a plataforma Recircula Brasil, que é operada pela Central de Custódia, já certificou mais de 50 mil toneladas de plástico reciclado, envolvendo 300 fornecedores e 1.500 clientes em 20 estados. Reconhecido pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/ONU) como modelo de excelência no combate à poluição plástica, o Recircula é a primeira plataforma brasileira a certificar efetivamente a circularidade do plástico reciclado.
“Com o Recircula, o Brasil dá um passo definitivo para transformar resíduos em valor econômico, inovação e empregos, colocando o país na vanguarda da economia circular”, afirma o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli. “O Recircula Brasil é mais que uma ferramenta tecnológica: é um instrumento estratégico para a indústria brasileira competir de forma sustentável e soberana nos mercados globais”, destacou Perpétua Almeida, diretora de Economia Sustentável e Industrialização. A novidade é que após consolidar-se no setor de plásticos, o Recircula está em fase de expansão para novas cadeias produtivas de alto impacto, como alumínio, vidro, papel, têxtil, setor automotivo e aço.
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