Indústria brasileira avança em sustentabilidade

Por: Gladis Berlato | Em:
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sustentabilidade na indústria

Especialista afirma que a sustentabilidade também remodela a relação da indústria com consumidores, investidores e comunidades. (Foto: Envato Elements)

A transformação industrial brasileira caminha a passos firmes na direção da sustentabilidade em seus aspectos econômicos, ambientais e sociais, e já começa a ser reconhecida não apenas como uma responsabilidade, mas como um diferencial de inovação, competitividade e crescimento.


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O argumento mais motivador junto às empresas ainda é a redução de custos, como a reutilização de materiais e a eficiência energética, que resultam em substanciais economias. Mas cresce a adoção de práticas sociais sustentáveis voltadas à garantia à saúde e segurança dos trabalhadores, proteção de dados e promoção da diversidade, dentro da cartilha ESG.

De parte do governo, as políticas públicas demonstram um bom alinhamento com a agenda de sustentabilidade. É o caso da Nova Indústria Brasil e os marcos regulatórios, como o do hidrogênio de baixo carbono e o futuro marco ESG. O gargalo ainda está mais concentrado nas pequenas e médias empresas que avançam em menor ritmo em função do ainda deficiente acesso ao crédito.

Movimento de transformação industrial

Quase metade das indústrias brasileiras já investe em fontes renováveis de energia, um salto de 34% para 48% em apenas um ano, segundo pesquisa da Nexus encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O movimento de transformação transcende a área energética e chega a processos internos mais eficientes, economia circular, redução de resíduos e inovação tecnológica.

Neste contexto, setores como papel e celulose, químico, mineração, agroindústria e construção já lideram práticas sustentáveis, seja pelo uso de biomassa, reaproveitamento de resíduos ou pela adoção de tecnologias limpas.

“A sustentabilidade já é parte do presente da indústria brasileira”, garante Davi Bomtempo (foto), superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI, citando o Nordeste como referência em investimentos em energia eólica e solar, onde seis em cada 10 indústrias da região aposta em projetos de energia limpa.

Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI. (Foto: Acervo pessoal)

Os desafios ainda existem: financiamento acessível, modernização do maquinário e incentivos regulatórios são os pontos fracos. Nove em cada 10 indústrias afirmam que faltam estímulos tributários para acelerar a descarbonização. Mesmo assim, há grande interesse em acessar linhas de crédito para avançar nessa agenda.

“Mais do que gerar menos impacto nos recursos naturais, a sustentabilidade também remodela a relação da indústria com consumidores, investidores e comunidades que percebem uma atitude mais responsável”, diz ele. E exemplifica. Hoje, 83% das empresas que investem em economia circular reconhecem que essas iniciativas contribuem para reduzir emissões de gases de efeito estufa, além de fortalecer a imagem das marcas e abrir portas em cadeias globais de valor.

“A inovação é peça-chave nesse processo”, afirma Davi Bomtempo diante do percentual de indústrias que priorizam tecnologias para descarbonização que cresceu de 14% para 20% em apenas um ano. Ele está convicto de que o Brasil tem condições de se tornar polo global em soluções sustentáveis. “A bioeconomia, o hidrogênio de baixo carbono e as soluções baseadas na natureza são áreas em que o país tem vantagens competitivas”, assegura.

O cenário internacional também impulsiona a agenda. A próxima COP30, em Belém, em novembro, é vista por 54% dos industriais como oportunidade positiva para o setor, e 75% acreditam que o evento vai fortalecer a imagem da indústria brasileira no exterior. A CNI lançou a Sustainable Business COP30 (SB COP) justamente para consolidar recomendações do setor privado, reunir casos de sucesso e ampliar a presença qualificada das empresas nas negociações.

“Acreditamos que a indústria brasileira pode ser protagonista global na transição para uma economia de baixo carbono. Temos uma matriz elétrica majoritariamente renovável, capacidade de inovação e exemplos concretos de boas práticas já em andamento. O desafio agora é escalar essas soluções, ampliar o acesso a financiamento e garantir políticas públicas que apoiem a transformação”, observa o dirigente da CNI.

Avanço precisa chegar às pequenas e médias empresas

O professor de ESG da Fundação Getúlio Vargas, Rubens Mazzali (foto), defende a sustentabilidade em seu conceito mais amplo e real. Ele concorda que ela é uma pauta estratégica das grandes empresas em suas cadeias produtiva e de fornecimento. Com clientes internacionais, elas precisam ficar próximas de práticas sustentáveis que não apenas aquelas envolvendo reciclagem de papel e de canudinhos, mas incluindo questões ambientais em suas dimensões econômicas, sociais e ambientais. Para ele, a indústria enxergou que esta postura, quando aplicada de verdade, traz valor e gera resultado (não apenas lucro) na última linha do balanço.

Rubens Mazzali, professor de ESG da Fundação Getúlio Vargas. (Foto: Acervo pessoal)

Ele alerta, entretanto, que embora a indústria brasileira tenha evoluído, ainda tem muito a avançar, notadamente as pequenas e médias que, por dificuldades de investimentos em equipamentos e inovação e por não atuarem tão intensivamente no mercado internacional como as grandes, operam muito no curto prazo. “Empresas que trabalham com sustentabilidade são empresas que têm menos riscos e oferecem menores riscos também aos seus stakeholder”, afirma ele.

Mazzali aponta o segmento de papel e celulose como um bom exemplo. Economizar papel para poupar as árvores é uma máxima válida, mas ele lembra que o negócio do produtor de eucalipto só se sustenta se ele plantar mais árvores do que derrubar. “Trata-se de um setor muito profissional”, sentencia. “Quando se planta eucalipto, é preciso destinar uma área para o plantio de mata nativa”, garante. O setor químico é outro exemplo que adota a logística reversa, assim como o de energias renováveis que lidera em se tratando de sustentabilidade no Brasil.

O professor também inclui nesta lista a siderurgia nacional, já detentora do Selo Verde, que se tornou uma espécie de passaporte para mercados externos desenvolvidos, que exigem cadeias de produção sustentáveis. A carne e a soja do Brasil passam por rastreabilidade para alcançar os consumidores da União Europeia. Esta é a norma que tende a se estender para várias atividades.

Pseudo-indicadores sustentáveis

O professor Rubens Mazzali insiste na necessidade de as empresas brasileiras focarem na verdadeira sustentabilidade que vai muito além da reciclagem de papel, copos e canudos ou do plantio de árvores. “Isto é fachada verde”, aponta e, de novo, cita as pequenas e médias empresas que se agarram nessas métricas que ele considera como pseudo-indicadores de sustentabilidade.

A mesma análise alcança os processos industriais que se assumem como sustentáveis por conta de economia de água e de energia e maior digitalização. São itens importantes, mas não mais do que o que ele classifica como valores intangíveis que resultam em redução de riscos para todos os envolvidos, mas que não aparecem no balanço. “O investidor enxerga uma empresa que investe em sustentabilidade, que lhe indica mais segurança”, assegura.

A seu ver, a economia circular é muito incipiente no Brasil, com iniciativas interessantes, mas ainda pontuais. Mas cita a vantagem competitiva da matriz hidrelétrica brasileira e sua liderança mundial em biocombustíveis, o que vai requerer, conforme o professor de ESG da Fundação Getúlio Vargas, mudanças na frota nacional de transporte baseada no diesel, para não comprometer a meta de descarbonização até 2050. “Estamos atrasados”, ilustra.

Já em se tratando de bioeconomia, a avaliação otimista. “Quem tem uma Amazônia como ativo, tem um enorme potencial de exploração, especialmente nas áreas farmacêutica, cosméticos e biomateriais”, diz. Ele destaca como altamente favorável o hidrogênio por conta de uma matriz energética renovável tanto eólica como solar e que já conta com alguns entendimentos com países da Europa, mas que ainda ocupa espaço pequeno no mapa da sustentabilidade.

Para inverter esta realidade, ele defende a necessidade de investir mais, ter políticas públicas adequadas, financiamento de longo prazo com custos menores para os pequenos médios e também maior aproximação e interação do empresariado com o mundo acadêmico, em especial, da ciência e tecnologia. “Esta é a lição de casa que precisa ser feita”, finaliza.

Construção sustentável

A construção civil, que emprega mais de 3,0 milhões de trabalhadores formais e impacta 94 diferentes segmentos da economia, também busca a sustentabilidade em seus processos construtivos. Durante a Conferência Internacional CAU 2025, em Brasília, no início de setembro, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) debateu temas como neuroarquitetura, moradia, patrimônio, crise climática, acessibilidade e inovação tecnológica.

O presidente da CBIC, Renato Correia, destacou a relevância da parceria entre arquitetura e engenharia e o papel estratégico da construção para o futuro sustentável do país. E anunciou um investimento de cerca de R$ 680 bilhões em habitação e infraestrutura ainda neste ano, garantindo que sustentabilidade é parte central dos negócios. 

Transformação digital premiada

A Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) premiaram nove projetos de transformação digital selecionados na primeira etapa do edital E-commerce.BR, destinando R$ 380 mil a micro e pequenas empresas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O objetivo é descentralizar o comércio eletrônico concentrado, com mais de 90% das vendas, no Sul e Sudeste, e explorar o potencial das demais regiões.

“Os negócios do século XXI são necessariamente digitais”, afirmou o presidente da ABDI, Ricardo Cappelli, acrescentando que a expectativa com o edital E-commerce.BR é impactar, ao longo da fase piloto, pelo menos 1125 micro e pequenas empresas nessas três regiões do país. Para ele, o Centro-Oeste pulsa com o agronegócio, o Nordeste desponta com grandes perspectivas de transição energética e o Norte, com a margem equatorial, pode inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento regional.

A propósito, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) acaba de anunciar a reabertura do Inovacred com foco exclusivo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, disponibilizando R$ 400 milhões para projetos inovadores que impulsionem a competitividade e reduzam desigualdades regionais. Empresas de todo o país podem participar, desde que a execução ocorra nessas localidades. “Nosso objetivo é impulsionar projetos transformadores nestas regiões, incentivando soluções tecnológicas e produtivas que respeitem a vocação e a realidade local”, destaca Luiz Antônio Elias (foto), presidente da Finep.

Luiz Antônio Elias, presidente da Finep. (Foto: Finep)

Sustentabilidade na prática

• Suzano: Fibra Têxtil Sustentável – A líder global em celulose, em parceria com a finlandesa Spinnova, desenvolveu a primeira fibra têxtil sustentável do mundo a partir de celulose microfibrilada (MFC) de madeira. Este material inovador possui um potencial de emissão de carbono 70% menor em comparação com outras fibras, destacando o papel do Brasil na bioeconomia e na descarbonização da indústria têxtil.

• Tupy: Motor de Combustão Interna a Hidrogênio – Multinacional brasileira do setor metalúrgico, a Tupy está na vanguarda do desenvolvimento de um motor de combustão interna movido a hidrogênio. Esta tecnologia representa uma alternativa neutra em carbono aos combustíveis fósseis, oferecendo maior durabilidade, reabastecimento rápido e menor custo operacional, com aplicações em transporte, infraestrutura e agronegócio.

• SENAI e Porto de Suape: TechHub Hidrogênio Verde – O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e o Porto de Suape, em Pernambuco, estabeleceram uma parceria para criar um ecossistema de inovação focado na produção, transporte, armazenamento e certificação de hidrogênio verde. O TechHub Hidrogênio Verde é uma iniciativa pioneira que visa acelerar a transição energética em escala industrial no Brasil.

• Morlub: Óleos Sintéticos Ecológicos – A empresa gaúcha especializou-se no desenvolvimento de óleos solúveis sintéticos orgânicos de alto desempenho. Estes óleos são atóxicos, não contêm polímeros de petróleo, cloro ou óleos minerais, e contribuem significativamente para a descarbonização das indústrias. Suas propriedades incluem alta refrigeração, resistência à chama e menor percentual de reposição.

• Tramontina: Economia Circular e Reuso de Recursos – A gaúcha Tramontina é um exemplo de aplicação da economia circular. A empresa utiliza Estações de Tratamento de Efluentes (ETEs) para reuso da água, alcançando 100% de reaproveitamento em algumas fábricas. Além disso, a madeira para cabos provém de reflorestamento, e a serragem é transformada em briquetes, demonstrando um ciclo de produção fechado e eficiente.

• ProSolar: Usinas Fotovoltaicas – A ProSolar, também do Rio Grande do Sul, atua na instalação e certificação de usinas fotovoltaicas. Um caso notável é a instalação de painéis solares no Estádio Alfredo Jaconi, do Esporte Clube Juventude, em Caxias do Sul, que resultou em uma economia financeira e na redução de 55 toneladas de CO² em um ano, equivalente ao plantio de 396 árvores. Este exemplo ilustra o potencial da energia solar na descarbonização da indústria e de outras atividades.

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