O agronegócio nordestino é sustentável?

Por: Gladis Berlato | Em:
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O agronegócio nordestino caminha para a sustentabilidade através da adoção de tecnologias, práticas agroecológicas e modelos de produção inovadores. (Foto: Envato Elements)

Contraste é a palavra que melhor define o posicionamento do agronegócio no Nordeste brasileiro em relação aos conceitos e práticas sustentáveis, dada a sua complexidade e diversificação. De um lado, a alta tecnologia, especialmente no semiárido. Em contraposição, a Caatinga e o Cerrado ainda enfrentam o desafio da degradação do solo e a histórica escassez de água. As soluções passam pelo equilíbrio entre os pilares ambiental, social e econômico. E neles, o Banco do Nordeste já fincou sua bandeira de suporte aos produtores, da mesma forma que a Embrapa, unindo forças com recursos e conhecimentos em favor do empreendedorismo.


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O agronegócio nordestino caminha para a sustentabilidade através da adoção de tecnologias, práticas agroecológicas e modelos de produção inovadores. Embora enfrente barreiras significativas, a diversidade de culturas e o investimento em inovação demonstram o grande potencial de desenvolvimento sustentável da região, um desafio que é brasileiro e global. A estimativa é de que a população mundial some 10 bilhões de pessoas nas próximas décadas, o que exige, desde já, a otimização do uso da terra, da água e dos insumos, em total harmonia com a natureza para garantir a produção de alimentos às futuras gerações.

As diversidades nordestinas

Trata-se de um delicado sistema onde as regiões mais desenvolvidas são a Zona da Mata, mais urbanizada e populosa, que se destaca na produção de cana-de-açúcar e fruticultura. Importantes polos econômicos, Pernambuco e Ceará têm os maiores PIBs graças à indústria sucroalcooleira e à energia eólica. A Bahia é forte no agronegócio. Já o MATOPIBA (oeste da Bahia e sul do Maranhão e Piauí), surge como a nova fronteira agrícola para a soja e a pecuária.

Este é o Nordeste que se empenha em aplicar práticas sustentáveis como a agroecologia com o manejo sustentável do solo e o uso de tecnologias sociais de baixo custo. Também são utilizadas tecnologias na produção agropecuária como a tecnologia de precisão e o uso de drones. A integração lavoura-pecuária-floresta e a pecuária regenerativa estão sendo implementadas, especialmente em novas fronteiras agrícolas, como a do Maranhão na recuperação de áreas. E as políticas de financiamento alinhadas com as práticas ESG (ambientais, sociais e de governança) são vitais para fortalecer o agronegócio na região, onde o uso de energia solar e eólica na produção agrícola é uma das atividades prioritárias apoiadas por programas governamentais, como o Plano Nordeste+Sustentável.

Para garantir segurança alimentar:

  • Adoção de práticas e tecnologias sustentáveis
  • Investimento em pesquisa e desenvolvimento
  • Políticas públicas de incentivo

BNB impulsiona produção sustentável

Em entrevista ao portal Trends, o superintendente de Agronegócio e Microfinança Rural do Banco do Nordeste, Luiz Sérgio Farias Machado (foto), dá seu testemunho de que o Nordeste é uma terra de oportunidades e demonstra sua crença de que o agronegócio e a agricultura familiar despontam como setores estratégicos. “O agro nordestino tem superado os desafios por meio de estratégias diversas e inovadoras sempre em conformidade com a legislação vigente”, afirma.

Luiz Sérgio Farias Machado, superintendente de Agronegócio e Microfinança Rural do Banco do Nordeste. (Foto: Divulgação)

“O Nordeste brasileiro tem potencial para se tornar um grande provedor mundial de alimentos, impulsionado pela alta produtividade de suas áreas agrícolas e pela capacidade de adaptação às novas demandas globais”, acredita ele.

Com apenas 9% da rede bancária instalada nos nove estados do Nordeste, norte de Minas Gerais e norte do Espírito Santo, o Banco do Nordeste vem atendendo 48% do crédito rural e 50% dos financiamentos na região.

Energia e transporte

Entre as oportunidades, notadamente para os pequenos produtores e para a agricultura familiar, Luiz Sérgio destacou a produção orgânica em franca expansão. Ele citou como diferencial o avanço de infraestrutura básica como a geração de energia fotovoltaica e eólica, que vem batendo recordes de produção. Soma-se o avanço nas obras de expansão e modernização da malha ferroviária, especialmente por meio do regime de outorgas de autorização, que permite a construção e operação de trechos ferroviários pelo setor privado. Neste ponto, o executivo do Banco do Nordeste aponta a conclusão da Ferrovia Transnordestina como relevante conexão dos polos produtores e para a melhoria da logística para o agronegócio.

O superintendente Luiz Sérgio Farias Machado entende que a aplicação da tecnologia ao agronegócio e à agricultura familiar é essencial para garantir o abastecimento alimentar da população, por meio de uma gestão mais eficiente da produção e, consequentemente, do aumento da produtividade. São ações que necessitam de recursos que o Banco do Nordeste tem se empenhado em oferecer e comenta:

“O BNB atua para promover o crescimento sustentável por meio do apoio financeiro às atividades agropecuárias, oferecendo linhas de crédito com condições altamente competitivas. Essas linhas atendem a diversas finalidades, como custeio pecuário e agrícola, investimentos, comercialização, exportação, inovação, armazenagem, entre outras.”

O Banco também propicia apoio específico às atividades agropecuárias no Semiárido nordestino, por meio do financiamento de projetos voltados à convivência com as condições climáticas da região, com foco na sustentabilidade dos agroecossistemas. Também contribui para o desenvolvimento do Cerrado nordestino. Como órgão executor de políticas públicas, cabe ao BNB a operacionalização do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) e a administração do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

Agricultura familiar

Na agricultura familiar, a participação do BNB representa 70% do total de recursos aplicados e 95% das operações contratadas no último Plano Safra. “Esses números evidenciam o compromisso com a inclusão produtiva, a democratização do acesso ao crédito e o fortalecimento das pequenas propriedades rurais, que desempenham papel essencial na segurança alimentar, na preservação ambiental e na geração de renda nas comunidades locais”, afirma Luiz Sérgio Machado.

Em 2005, foi criado o programa Agroamigo, que atualmente ultrapassa a marca de 1,7 milhão de clientes, mediante a concessão de microcrédito rural, prestando orientação e acompanhamento de forma sustentável e com atuação fundamentada nas diretrizes do Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) do Governo Federal.

Compromisso com a sustentabilidade

Para financiar projetos voltados à convivência com o Semiárido e o desenvolvimento do Cerrado e da região do Vale do São Francisco, o Banco do Nordeste oferece linhas de crédito destinadas a investimento, custeio e comercialização, valendo-se do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE).

  • FNE SOL Produtor Rural – especial para financiamento de sistemas de geração distribuída de energia por fontes renováveis, para consumo próprio dos empreendimentos e produtores rurais.
  • FNE AGRO Inovação e FNE AGRO Conectado – crédito para impulsionar a conectividade no campo, a incorporação de tecnologias e a inovação no meio rural.
  • FNE Verde e FNE Agricultura de Baixo Carbono – crédito voltado para desenvolver empreendimentos e atividades econômicas que propiciam a preservação, a conservação, o controle e a recuperação do meio ambiente.
  • FNE AQUIPESCA – crédito para implantação, ampliação, modernização e reforma de empreendimentos de pesca e carcinicultura.
  • FNE RURAL – crédito para construção, ampliação e modernização de armazéns para o aumento da capacidade de estocagem da safra.
  • FNE AGRIN – financiamento ao setor agroindustrial envolvendo a comercialização, beneficiamento ou industrialização de produtos de origem agropecuária.

Estudo do IBGE, no 2º semestre de 2024, mostra que a capacidade de armazenagem no Brasil é de cerca de 53% da capacidade de armazenagem da sua produção de grãos, enquanto o Nordeste possui 48% desta capacidade.

Desafios do agro nordestino

  • Expansão da conectividade no campo;
  • Inserção de mecanização voltada à agricultura familiar;
  • Oferta de máquinas e equipamentos acessíveis a pequenos produtores;
  • Avanço em pesquisas para controle seletivo de pragas e doenças;
  • Difusão de tecnologias para o uso eficiente da água e do solo;
  • Sucessão no campo para qualificação da mão de obra;
  • Práticas sustentáveis e adoção da estratégia ESG;
  • Preservação e uso consciente do meio ambiente e seus recursos;
  • Expansão da logística e capacidade de armazenagem;
  • Conquista de novos mercados.

Estrelas do agro nordestino

MATOPIBA – Com uma área plantada de grãos, de 4 milhões de hectares na Bahia, 2 milhões de hectares no Piauí e 2,1 milhões de hectares no Maranhão.

SEALBA – Com uma área superior a 5 milhões de hectares, abrangendo 171 municípios: 33,2% em Sergipe, 36,1% em Alagoas e 30,7% na Bahia.

Nordeste rural

O pesquisador da Embrapa Semiárido, Pedro Carlos Gama da Silva (foto), concorda que o Nordeste é diverso e vivencia diferentes realidades que se contrapõem social e economicamente, mas que também são um caldeirão de oportunidades. Ele observa que o agronegócio pujante se concentra no Cerrado e se assemelha, em produtividade e avanços, a qualquer outra fronteira agrícola brasileira, mas que representa apenas um terço da região nordestina.

Pedro Carlos Gama da Silva, pesquisador da Embrapa Semiárido. (Foto: Acervo pessoal)

Os dois outros terços configuram o bioma da Caatinga, bastante carente de água, sem acesso a crédito e ainda não alcançado em suas necessidades pelas políticas públicas. “A disponibilidade hídrica e crédito para a irrigação encurtam o caminho da produção e da produtividade”, afirma.

Pedro Gama aponta o Nordeste rural – não necessariamente agrícola – como uma tendência que se configura como uma alternativa promissora. “A região seca, dependente de chuvas, continua desafiadora. São atividades econômicas sem geração de renda elevada que incluem boa parte dos produtores rurais que já não sobrevivem mais apenas da agricultura, dedicando-se a atividades menores, mas ainda dependentes de subvenções sociais”, analisa.

Reestruturação produtiva

O Cerrado é tão ruim assim? A resposta é negativa. O pesquisador da Embrapa afirma que o Cerrado vivencia uma relevante reestruturação produtiva com “novos” e promissores arranjos agrícolas como apicultura, avicultura, cajucultura, caprino e ovinocultura, além da bovino cultura de leite que passam por um processo de modernização de sua base técnica. “A transformação se deve, fundamentalmente, ao pronto apoio técnico e financeiro de instituições financeiras alinhadas ao potente empreendedorismo dos produtores da região”, atesta o pesquisador, certo de que estes são sinais evidentes do dinamismo econômico que pode fazer a diferença dentro do contexto histórico de atraso.

Afora o risco de ordem climática e a pobreza da população, os maiores obstáculos iniciam pela estrutura fundiária carente de registros. O fato emperra as demais alternativas de soluções, a começar pelo acesso ao crédito, já que a propriedade não pode ser oferecida como garantia.

Tecnologia e educação são outros fatores que entravam o desenvolvimento, além da falta de organização cooperativa dos pequenos que, unidos, somariam forças. “Há pluralidade a ser melhor explorada no meio rural”, afirma Pedro Gama, defendendo a ideia de que é urgente preparar os jovens diante do envelhecimento no campo, atraindo-os com maior nível de digitalização e de mobilidade para que assumam ou criem novos negócios. “Infelizmente, entretanto, faltam políticas públicas direcionadas aos jovens no meio rural”, afirma.

Era uma vez… Histórias da vida real

Rita Grangeiro – Paracuru/CE

Era uma vez uma produtora de coco, Rita Grangeiro (foto), que iniciou a atividade com as dificuldades de sempre como a falta de assistência técnica e do acesso ao crédito. Embrapa e Banco do Nordeste responderam ao apelo e hoje ela passou a beneficiar o produto. “Colocamos o coco na garrafa”, comemora, fazendo questão de salientar que não utiliza conservantes para preservar as características da fruta. “A inovação foi possível porque a Embrapa concedeu a transferência de tecnologia e o BNB nos auxiliou com taxas de juros diferenciadas”, diz, recomendando que os pequenos produtores busquem agregar valor para garantir lucros maiores.

Rita Grangeiro, produtora de coco. (Foto: Acervo pessoal)

Jorge Thomas – Cabo de Santo Agostinho/PE

Era uma vez uma empresa fundada na década de 80, a Plastamp, fabricante de embalagens plásticas, que encontrou no BNB a parceria que precisava para enfrentar a perda total dos equipamentos em um incêndio e para multiplicar seu mix inicial de tampas para bebidas alcoólicas. As máquinas 100% elétricas garantiram eficiência energética, sem uso de óleo e baixa geração de resíduos. Agradecido, Jorge Thomas (foto) conta que houve ganhos para a natureza e para o ambiente fabril limpo, o que levou a um ganho de produtividade de até 40% com muito mais eficiência e qualidade.

Jorge Thomas, gerente industrial da Plastamp. (Foto: YouTube)

Juscelino Santana – Jeremoabo/BA

Era uma vez um agricultor familiar, Juscelino Santana (foto), o único da família a fazer escola rural, que percebeu que trabalhava bastante e produzia pouco. “O Agroamigo, do BNB, com visita de campo, deu o pontapé inicial para a minha virada”, afirma ele que também usou o Pronaf Jovem para a produção, junto com a família, de hortifrutas e na criação de animais. Orgulha-se de fabricar os adubos utilizados na propriedade ecológica e sustentável por beneficiar a saúde, o meio ambiente e o bolso.

Juscelino Santana, agricultor. (Foto: YouTube)

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