Problemas de saúde e isolamento social são alguns efeitos danosos da distração digital causada pelo excesso à exposição às redes sociais. (Foto: Envato Elements)
Em seu artigo mensal no jornal gaúcho Zero Hora, em maio, Daniel Randon, presidente da Randoncorp e do Transforma RS, abordou os efeitos da perigosa distração digital. Na rotina de quem lidera uma empresa com mais de 70 anos na área de equipamentos para o transporte de cargas e autopeças, o industrial levanta a questão do excesso no uso de telas em casa e no trabalho, apontando os desvios relevantes de foco que impactam a produtividade, além da saúde mental e as relações sociais, especialmente familiares. “É a pressão pela resposta sempre urgente”, escreveu o empresário.
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Desatenção, falta de foco, interrupções constantes, procrastinação, sedentarismo, problemas de saúde e isolamento social são alguns efeitos danosos da distração digital causada pelo excesso à exposição às redes sociais apontados por especialistas, como consultores de recursos humanos, psicólogos e até mesmo por empresários. São fatores que repercutem na produtividade profissional de diferentes formas como aumento do absenteísmo e dos acidentes de trabalho.
O Brasil registrou quase 500 mil afastamentos por transtornos mentais somente em 2024, conforme acompanhamento do Ministério da Previdência Social. Entre os mais afetados estão jovens e profissionais do setor de tecnologia, cuja rotina acelerada se intensificou após a pandemia.
Entre os países com maior número de usuários de internet (170 milhões de internautas ativos), o Brasil integra o clube dos mais conectados do mundo, junto com a populosa China, Índia, Estados Unidos e Indonésia. No caso brasileiro, estudos mostram que o país se destaca, ainda, pelo maior tempo online por dia, acesso feito predominantemente pelo celular. Positivo, por um lado, nem tanto, por outro.

O assunto, que já preocupava os educadores e acabou virando lei que proíbe o uso de celulares nas escolas, também já ganha espaço em outras rodas, inclusive corporativas e institucionais. No Paraná, por exemplo, o problema foi tema do evento “Elas são Tech”, promovido pela Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação do Paraná (Assespro-PR). Um paradoxo porque o setor, que cria soluções para encurtar distâncias e aproximar pessoas, também isola, pressiona e adoece.
“É vital discutirmos a saúde mental dos trabalhadores da área. Não existe mais aquela questão de sempre estar disponível, de estar sempre trabalhando, simplesmente por trabalhar com conexão. Isso é um erro grave que precisa de reparo. Máquina é nosso material de trabalho. Não nós”, afirma Adriano Krzyuy, presidente da Assespro-PR.
Idealizado para dar voz às mulheres da tecnologia e construir ambientes mais humanos e equilibrados, o encontro aconteceu dois dias após a entrada em vigor da norma que exige das empresas um plano estruturado para lidar com os riscos psicossociais do ambiente de trabalho, entre eles assédio, estresse crônico e esgotamento profissional. “A NR 01 é um avanço importante para ambientes mais saudáveis e produtivos”.
“Estamos diante de um marco para a saúde mental corporativa”, diz a psicóloga Fernanda Sacoman (foto), especialista em desenvolvimento humano, transformação organizacional e liderança estratégica. Segundo ela, a normativa amplia o olhar das empresas sobre a prevenção, indo além das métricas tradicionais de produtividade. “A NR propõe um novo jeito de pensar o trabalho: com empatia, escuta e responsabilidade”, completa.

Para Giuliano Amaral (foto), co-fundador e CEO da Mileto, uma HRTech que conecta jovens do ensino técnico a pequenas e médias empresas, as distrações digitais provocam desatenção e interrupções indesejáveis e que drenam a energia, mesmo de forma imperceptível.

Para ele, além da saúde mental, o excesso de telas impacta várias outras áreas e com certeza a produtividade no trabalho é uma delas.
Pesquisas mostram que o trabalhador médio perde cerca de 6,5 horas por semana apenas para recuperar o foco após interrupções digitais, já que cada distração pode custar até 23 minutos para retomar a tarefa. A pesquisadora Gloria Mark, da Universidade da Califórnia, alega que quando a atenção a um projeto é desviada, leva-se em média 25 minutos para que se volte à concentração novamente, com risco de não retorno.
Giuliano levanta outra questão de risco do uso excessivo das telas. “As ferramentas digitais podem estender o turno de trabalho para além do horário normal e dias regulares”, comenta, sobrecarregando o contratado.
No ambiente escolar, o problema é similar e alarmante. Dados da PISA 2022 revelam que dois em cada três estudantes se distraem com telas durante as aulas. Outra pesquisa de 2025 indicou que alunos usam dispositivos para atividades não relacionadas em quase 20% do tempo de aula, percentual suficiente para comprometer a absorção de conteúdo e o desenvolvimento de competências essenciais.
Atuando há mais de 10 anos no setor educacional, Giuliano Amaral tem ouvido relatos frequentes sobre os desafios das distrações digitais, em especial por vídeos no celular. “Proibir ou culpar é um caminho fácil, mas que não resolve a raiz do problema”, assegura, defendendo a necessidade de uma proatividade e compreensão sistêmica. “Medidas restritivas têm impacto limitado e de curto prazo”, acredita ele, certo de que a solução passa pela conscientização das pessoas com base fundamentada em estudos sobre o impacto no bem-estar e produtividade.
No seu entendimento não se deve apostar exclusivamente em regulação para solucionar o desafio. A lei de proibição dos celulares nas escolas (2025), por exemplo, foi um passo importante. No entanto, iniciativas como essa precisam ser acompanhadas de orientação e outras ações que conscientizem e preparem todos os envolvidos a construir soluções duradouras. Caso contrário, os resultados poderão retroceder pela não aceitação genuína dos alunos e pela busca por formas de evadir da fiscalização.
E a indústria da tecnologia tem papel neste contexto? Para o especialista, sua função é central na crise contemporânea da atenção e precisa reconhecer isso com honestidade porque o preço disso é alto: uma geração que tem dificuldade de se concentrar, silenciar e sustentar o pensamento profundo. “Na Mileto, vivemos esse dilema todos os dias. Somos uma HRTech que precisa engajar jovens do Ensino Médio Técnico, uma geração que já cresceu imersa nesse ambiente de hiperestimulação”, garante, acrescentando que “temos o duplo desafio de usar a tecnologia para ensinar e desenvolver, mas sem reforçar os vícios de atenção que essa indústria criou”.
Sabendo-se que o cérebro cansa mais e aprende menos diante de tamanho volume de informações e distrações, as empresas começam a tomar medidas como o bloqueio às redes sociais no horário de trabalho ou criam momentos do dia sem interrupções. Na Prolins, a opção foi reservar períodos exclusivamente para o foco total para evitar maiores prejuízos que nem sempre aparecem nas planilhas, mas nos resultados. O CEO Cristiano Lins (foto) diz que é fato o afastamento das pessoas frente às tecnologias disponíveis, além de ansiedade, cansaço e até baixa autoestima.

Para Cristiano, o primeiro passo para a reversão é de natureza individual, ou seja, cada um tem que aprender a usar a tecnologia com consciência, fazer pausas, silenciar notificações, ter momentos sem celular e buscar equilíbrio. As empresas e escolas também podem ajudar com programas de bem-estar digital, horários mais organizados e incentivos à atenção plena. E ao governo cabe apoiar com campanhas e regras que protejam os usuários, principalmente crianças e adolescentes.
O CEO da Prolins vai além entendendo que a responsabilidade também alcança as empresas de tecnologia que criam aplicativos e redes pensando somente em prender a atenção do usuário, quando deveria criar soluções que respeitem o tempo e o bem-estar das pessoas. “Na Prolins, por exemplo, desenhamos nossos sistemas com foco em facilitar a vida, e não em viciar o usuário”, informa.
A distração digital e seus efeitos vão piorar. É o que tem pregado o psicoterapeuta Leo Fraiman, que na última semana de julho voltou a alertar os professores gaúchos durante congresso do Sinepe/RS. Para ele, após 2015, com o avanço da conectividade, os pais delegaram a educação dos filhos às telas, a começar pelas mães que querem ser legais, ao invés de serem leais com o futuro e não dizem “não” temendo a frustração.
Como um músculo, o cérebro, quanto mais incentivado, recruta os neurônios que se fortalecem alimentados com futilidades e violência. Os galhos desta fértil árvore cerebral multiplicam estes conteúdos transformando-os em verdades. “Estamos gerando uma dívida impagável com nossas crianças e jovens que são treinados pelo prazer rápido das telas”, sentenciou.
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