A economia azul representa para o mundo uma convergência entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental. (Foto: Envato Elements)
O Brasil tem dimensões continentais em terra e no mar. A área oceânica sob jurisdição nacional, conhecida como “Amazônia Azul”, abrange cerca de 5,7 milhões de km² de águas, ricas em biodiversidade e recursos naturais. A zona costeira brasileira, de aproximados 7.000 km, tem potencial de desenvolvimento da pesca, turismo, transporte marítimo, exploração de petróleo e gás, portos e aquicultura. São atividades econômicas que compõem a Economia do Mar ou Economia Azul, um presente da natureza que gera empregos e riqueza, sem receber ainda a contrapartida proporcional em investimentos para uma exploração adequada e longeva ou até mesmo infinita.
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O que é a economia azul? É um modelo que busca maximizar o valor econômico dos recursos marinhos sem comprometer a saúde dos ecossistemas, promovendo a regeneração e o uso eficiente
dos recursos naturais. Trata-se da sétima maior economia do mundo, com valor estimado de US$ 100 bilhões por ano e que emprega cerca de 260 milhões de pessoas globalmente.
Popularizado pelo empresário, economista e autor do livro The Blue Economy, Gunter Pauli, em 2009,
o conceito de economia azul é um modelo econômico que respeita o meio ambiente, buscando inovações que gerem empregos de forma sustentável e acessível, em contraste com a “economia
verde” que muitas vezes resulta em produtos caros e inacessíveis.
A pesca predatória, a destruição de habitats e as mudanças climáticas são os maiores desafios da economia azul, que requer políticas e iniciativas globais como o G20. Organizações como o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) e a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) promovem a economia azul sustentável através de relatórios e iniciativas que buscam fortalecer políticas e investimentos no setor, incentivando práticas de gestão ambiental, tecnologias inovadoras e colaboração entre governos, empresas e comunidades locais.
Para Mathias Mangels (foto), presidente do RethinkingWorks e membro do Comitê Executivo do Blue Ceará, o Brasil já conta com bons projetos em andamento em todo o bioma oceânico e costeiro, mas enfrenta enormes desafios para criar sinergias e programas complementares para integrar o ciclo de impacto em cadeia.

Para mobilizar a sociedade em favor da riqueza e da necessária gestão foi criada a plataforma cocreativa e de inovação Economia Azul RTW para envolver todo o ecossistema e as partes interessadas. “A exemplo da Blue Santos, a plataforma Blue Ceará também tem isto como um dos objetivos da mesma forma que a criação de novos projetos”, comenta. Entretanto, o intenso uso dos oceanos e costas traz desafios sociais para as comunidades litorâneas e acarreta impactos ambientais importantes que exigem atenção para evitar a erosão costeira, a poluição marinha e a perda de biodiversidade.

Estima-se que aproximadamente 25% da força de trabalho brasileira esteja ligada a atividades marítimas, envolvendo mais de 20 milhões de brasileiros (pescadores, marisqueiras e trabalhadores de portos, profissionais do turismo, da indústria naval e das plataformas de petróleo). “Direta ou indiretamente, o oceano sustenta um em cada quatro trabalhadores do país, o que tem efeitos positivos na inclusão social e no desenvolvimento local”, observa Matias.
Ele lembra que somente o setor de viagens e turismo já representa 8% do PIB brasileiro e o governo tem a meta de elevar essa fatia aos dois dígitos nos próximos anos. As praias brasileiras colocam o país como o 11º maior mercado de turismo do mundo, movimentando cerca de US$ 59 bilhões por ano, grande parte ligado ao turismo de sol e praia.
De novo, ressalta-se a preocupação com a degradação ambiental, que já afeta a vida dos pescadores regionais com os baixos estoques pesqueiros e com a escassez de algumas espécies (sardinha, por exemplo). Outro desafio social é a vulnerabilidade de cidades costeiras à erosão e eventos climáticos extremos.
Cerca de 18% da população brasileira vive na faixa litorânea, como Rio de Janeiro, Recife, Fortaleza e Salvador, onde as populações de baixa renda ficam expostas a inundações, ressacas e deslizamentos. “A economia azul brasileira traz oportunidades de trabalho e melhoria de vida para milhões, mas requer políticas sociais que amparem os mais vulneráveis”, afirma. Entre as ações necessárias aponta programas de capacitação profissional, diversificação de fontes de renda e garantia de direitos aos povos tradicionais costeiros.
Estima-se que as atividades marítimas e costeiras respondam por cerca de 29% do PIB, o que inclui tanto as atividades diretamente ligadas ao oceano (aproximadamente 13% do PIB) quanto as desenvolvidas nas regiões costeiras (mais 16%).
“Trata-se, portanto, de um pilar econômico equiparável em importância a outros setores tradicionais, embora nem sempre seja reconhecido como tal no debate público”, afirma o presidente do RethinkingWorks.Entre os exemplos queilustram a relevância econômica estão os portos brasileiros – uma rede de 175 portos públicos e privados – que escoam 95% de tudo que o país exporta e viabilizam cerca de 70% do volume importado.
O agronegócio, a mineração e a indústria dependem criticamente do transporte marítimo para competir no mercado global. No setor de energia, a balança comercial e a segurança energética do Brasil foram transformadas pela exploração marítima de petróleo. O pré-sal, explorado desde a última década, colocou o Brasil entre os maiores produtores offshore do mundo.
Conforme dados da Marinha do Brasil, hoje o mar é responsável por mais de 95% do petróleo e 85% do gás natural consumidos no país. “Ou seja, quase toda gasolina, diesel e gás de cozinha utilizados internamente têm origem no fundo do mar, abastecendo o mercado interno e gerando divisas na exportação”, observa.
A produção aquícola e pesqueira brasileira chega a cerca de 500 mil toneladas anuais apenas na pesca marinha – sem contar a aquicultura de água doce –, fornecendo proteína para o mercado interno e matéria-prima para a indústria (farinha de peixe, óleos, etc.). Segundo relatório da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), a produção global de pescados atingiu recordes em 2022, e o Brasil tem capacidade de ampliar sua participação nesse mercado de forma sustentável.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou a iniciativa “BNDES Azul”, destinada a apoiar financeiramente projetos da economia azul brasileira, incluindo pesquisas de novos usos do mar, desenvolvimento do Planejamento Espacial Marinho (PEM), descarbonização da frota naval e melhorias na infraestrutura portuária.
Cerca de R$ 22 bilhões já foram contemplados na construção e modernização de navios e estaleiros (R$ 13,6 bi), em portos e terminais (R$ 7,7 bi) e no apoio a projetos de turismo costeiro e recuperação de manguezais. “Esses números indicam um esforço para alinhar crescimento econômico com sustentabilidade, financiando a inovação e a preservação nos ambientes marinhos”, comenta Matias.
É crescente também o interesse em projetos de energia eólica offshore, particularmente no Nordeste, graças aos ventos fortes e constantes, da mesma forma que no potencial da energia das ondas e correntes marítimas. A biotecnologia marinha tem atraído investimentos para pesquisa de compostos oriundos de organismos marinhos com aplicações em fármacos, cosméticos e outros produtos.

Entusiasta do uso correto dos recursos do mar, o advogado Rômulo Alexandre Soares (foto), co-fundador do Instituto Winds For Future, entende que o Brasil avança na economia azul de maneira favorável e desafiadora.

Sem meias palavras, ele diz que um país banhado pelo mar e com tantas desigualdades sociais não pode ignorar o potencial econômico marítimo. “Não dá para não extrair a riqueza a partir dos recursos do mar”, afirma, sem desconhecer o desafio do uso sustentável que é resultado do equilíbrio entre uso e conservação.
A propósito, a privilegiada geografia brasileira se encaixa diretamente no conceito de economia azul estabelecido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o que a torna um hipercluster de economia do mar, em função dos sete eixos de atividades contempladas: pesca e aquicultura, extração de petróleo e gás, energia marinha renovável, construção de embarcações, transporte e logística, turismo costeiro e serviços de apoio e pesquisa oceânica.
Também integrante da Câmara Setorial de Economia Azul do governo cearense, Rômulo cita como avanços o zoneamento ecológico econômico do Ceará e o plano espacial marinho do Nordeste com definição de governança. “O Brasil aumentou quase uma Alemanha com a inclusão da margem equatorial reconhecida pela ONU incluindo áreas do Amapá até Rio Grande do Norte como integrantes da plataforma equatorial brasileira”, comenta.
Rômulo aponta as vantagens competitivas do Brasil para garantir o protagonismo na economia azul a começar pelo destaque na transição energética para um modelo sustentável com mais de 80% de fontes limpas, como os inúmeros parques eólicos. Também cita a disponibilidade das principais bacias dentro do mar para a exploração do pré-sal, além da riqueza da pesca, da logística para o transporte internacional e a cultura oceânica da região.
“Cuidamos do que conhecemos”, ilustra, lembrando a formação da plataforma Blue Ceará que visa formar a comunidade da economia azul, a exemplo da Blue Santos. Por esta condição única favorável é que o Brasil sediará, no Rio de Janeiro, em 2027, a Conferência da Década do Oceano. “Importante é não fazermos com o mar o que já fizemos com a Terra porque não temos um Planeta B”, alerta.
O presidente da Câmara Setorial de Economia Azul e CEO da CAIX Comercial de Alimentos Indústria e Exportação, Roberto Gradvhol (foto), diz que onde a experiência da economia azul tem sido implantada tem obtido sucesso. No Ceará, há várias vertentes de inovação sendo propostas, planejadas ou executadas, inclusive com a criação da Câmara Setorial de economia azul, iniciativa pioneira do governo do Estado do Ceará e que ganhou a dedicação da universidade. “É a Economia do Mar de A a Z, envolvendo não somente a pesca, mas energia, esportes, turismo e outros num movimento de mãos dadas buscando os melhores caminhos para trabalhar e desenvolver o nosso estado”, diz ele.

O Ceará sempre teve suas atividades ligadas ao mar, a começar pela pesca, mas não se limita à atividade pesqueira. Ventos que proporcionam esportes náuticos e energia, além de petróleo e gás são outras riquezas cearenses que consolidam ainda mais a importância da economia do mar.
Portugal, que guarda similaridades com a economia brasileira (em especial com o Ceará), foi um dos países que apostou na correta exploração do potencial do mar e colhe os frutos do pioneirismo com a geração de bilhões de euros. Também serviu de inspiração para a Europa que colocou a economia azul como norte.
Roberto Gradvohlarrisca dizer que os maiores investimentos governamentais do mundo emeconomia do marestão na Europa envolvendo pesquisa, ciência e tecnologia. “Muito do que fazemos aqui tem sido trazido de Portugal, num sistema de colaboração mútua, graças à parceria de longa data e à proximidade territorial”, diz.
Ele cita a Câmara Brasil Portugal, que tem buscado interagir compartilhando conhecimentos e negócios. “Nós seremos aqui a porta de entrada de Portugal para o Brasil e Portugal a nossa porta de entrada para a Europa e, em decorrência, para a União Europeia com o Mercosul”, afirma, certo de que o momento é de festejar. E finaliza lembrando que o chocolate suíço vai ter imposto zero para entrar no Brasil, torcendo para que também possam ser exportados com imposto zero produtos como a rapadura, doce de caju, lagosta e peixes brasileiros e cearenses.
O economista Célio Fernando Melo (foto), vice-presidente da Academia Cearense de Economia e partner da Astor BFA IB e da BFA Investimentos, afirma que “observar o horizonte no mar nos permite ampliar perspectivas sobre as possibilidades econômicas dos oceanos”. Ele refere-se às diversas cadeias produtivas integradas, que incluem portos, turismo, esporte, pesca, energia, minérios, dessalinização, entre outras. A seu ver, o desafio central consiste em estabelecer o uso ordenado dessas riquezas oceânicas.

Para ele, as mudanças climáticas têm como uma de suas principais prioridades as ações na década dos oceanos, reconhecendo-os como a maior absorção natural de dióxido de carbono. A conservação e preservação dos oceanos relacionam-se diretamente com a sustentabilidade da vida humana na Terra. No contexto energético, projetos como as turbinas maremotrizes próximas às plataformas petrolíferas representam iniciativas concretas de aproveitamento das correntes marítimas. O potencial das energias offshore, beneficiadas pelas correntes de ventos como os alísios, constitui outra fronteira de desenvolvimento.
O litoral brasileiro, particularmente a região Nordeste, apresenta condições geográficas favoráveis para diversos setores da economia azul. Os portos desempenham papel estratégico nas correntes de comércio global, facilitando o fluxo de produtos e serviços. No turismo, as condições climáticas e a qualidade das praias oferecem vantagens competitivas, incluindo modalidades como o turismo náutico e esportes como o windsurf.
A transformação digital encontra nos oceanos infraestrutura fundamental, através dos cabos submarinos e datacenters, elementos essenciais para a conectividade global. A ciência, tecnologia e inovação desempenham papel crucial no desenvolvimento dessas alternativas econômicas. No âmbito educacional, o Brasil desenvolveu políticas voltadas para a economia azul, incluindo o currículo específico para a área, reconhecido pela Unesco como iniciativa pioneira, o currículo Azul.
O planejamento espacial marinho constitui ferramenta essencial para o aproveitamento ordenado dos recursos naturais e a economia azul revela potencial ainda pouco explorado, representando oportunidades e desafios para a humanidade. “O Brasil possui condições para posicionar-se estrategicamente na economia oceânica global”, afirma Célio Fernando, citando como oportunidades de exposição eventos como a COP 30, em Belém, com seu Pavilhão Oceânico, e os debates preparatórios como demonstração da crescente relevância do tema no cenário nacional e internacional. A economia azul representa, assim, uma convergência entre desenvolvimento econômico e sustentabilidade ambiental, fundamental para o futuro das sociedades costeiras.
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