Para especialista, o agronegócio brasileiro espelha um pouco da estrutura agrícola mundial, onde 65% da produção em toneladas é de alimentos e o restante em fibras, biocombustíveis e borrachas. (Foto: Envato Elements)
Motor da economia e estrela na geração de divisas externas, o agronegócio brasileiro responde por quase 49% das exportações totais do país, totalizando US$ 164,4 bilhões, o segundo maior valor da série histórica, conforme dados do MDIC/ComexStat. Trata-se de um setor que mostra resiliência e robustez, apesar dos conflitos geopolíticos e imposições tarifárias.
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Historicamente, o produtor rural enfrenta obstáculos internos como os eventos climáticos extremos, além das já recorrentes dificuldades envolvendo a carga tributária e a infraestrutura logística de transporte e de armazenamento. Mesmo assim, encontra fôlego da porteira para dentro para aumentar a produtividade com investimentos em tecnologia, como agricultura de precisão e conectividade rural, para vencer o desafiador equilíbrio na sua nobre missão de abastecer os mercados interno e externo.
No desempenho das transações externas em 2024, a soja em grãos, o café verde e a carne bovina foram destaque, seguidos do milho, açúcar e celulose, produtos que cruzam os Oceanos e alcançam destinos como a Ásia, o maior comprador – e que deverá continuar liderando – a União Europeia e os Estados Unidos. Outros mercados emergentes devem se somar como África (+24,4%) e Oriente Médio (+20,4%), com diversificação de produtos de maior valor agregado, como limões, gengibre e alimentos processados.
Internamente, o agronegócio verde-amarelo, que representa cerca de 25% do PIB brasileiro, com R$ 2,72 trilhões em 2024, garante a segurança alimentar dos brasileiros com produtos como feijão, arroz e milho. A projeção de crescimento do PIB do agronegócio para este ano é de até 5%.
Otimista por natureza, o setor espera continuado crescimento da produção, especialmente de grãos, por conta da crescente demanda global, o que se concretiza com a combinação de produtividade maior, expansão de área cultivada e tecnologia, garantias que mantêm o Brasil no pódio mundial de fornecimento de alimentos. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetam uma safra recorde de grãos de 336 milhões de toneladas neste ano de 2025, o que será 13% maior do que a safra colhida em 2024.
Para o engenheiro e economista Ingo Ploger (foto), vice-presidente da Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG), o agronegócio brasileiro espelha um pouco da estrutura agrícola mundial, onde 65% da produção em toneladas é de alimentos e o restante em fibras, biocombustíveis e borrachas. Neste ano, a expectativa é favorável, devendo ser levemente superior em se tratando da soja e do milho e com ganhos maiores em carnes. As quebras ficam por conta do café.

Apesar das confusões geopolíticas, o mercado asiático deverá demandar mais, beneficiando o Brasil nas proteínas animais (boi, porco, frango e peixe) que se mantêm em alta, da mesma forma que a produção destinada ao mercado interno.
O que se prevê, segundo ele, é o aumento de preços, um fenômeno internacional. É a chamada inflação alimentar que fora do Brasil tende a ficar 4% acima da inflação local. No Brasil, estima-se que para uma inflação de 4 a 5%, os alimentos devem encarecer entre 6 e 7%. “A enorme volatilidade não combina com a necessidade de previsibilidade e segurança necessárias ao setor”, comenta Ingo, referindo-se à ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz, única ligação entre o Golfo Pérsico e os oceanos, o que estressa ainda mais a logística marítima nos embarques globais. “Diferentemente da aviação, o navio não tem como mudar rotas no curto prazo”, ilustra Ingo Ploger, que também é fundador do IP Desenvolvimento Empresarial e Institucional.
Também o armazenamento preocupa, embora o Brasil tenha investido bastante em estocagem, mas não ainda o suficiente para um país com mais de duas safras. “É preciso medir a capacidade de estocagem considerando o fluxo das produções, o que não é uma tarefa fácil”, admite.
Os obstáculos, entretanto, não tiram do Brasil o protagonismo no agronegócio, notadamente de maior produtor mundial de proteínas animais de alto valor agregado onde o Centro-Oeste se destaca cada vez mais em produtividade, e o Sul em diversificação na pauta. Santa Catarina, por exemplo, está abrindo espaço para o consumo de carne de ganso, o que atende o mercado chinês, ávido por especiarias.
Tudo num ambiente cada vez mais tecnológico e sustentável. “Na região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o que se vê são jovens agricultores que trocaram a enxada por celulares a serviço da produtividade”, exemplifica ele, dizendo que estes avanços de um Brasil que investe em pesquisa e desenvolvimento precisam ser mostrados em vitrines mundiais, como é o caso da COP 30, em Belém, em novembro deste ano.
Para o secretário executivo do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento Econômico do Ceará (SDE), Sílvio Carlos Ribeiro (foto), o estado tem se posicionado como um hub estratégico para o agronegócio brasileiro, combinando investimentos em infraestrutura, adoção de novas tecnologias e incentivos fiscais. E cita algumas ações como principais fatores de transformação. É o caso da Zona de Processamento de Exportação (ZPE), integrada ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém, única em funcionamento no Brasil e a primeira a operar integrada a um porto internacional, já tendo movimentado 95 milhões de toneladas desde 2016, com benefícios fiscais que reduzem custos para as empresas exportadoras.

Além da regulamentação de serviços, novos modelos de negócios e conectividade digital, que diminuem os custos e aumentam a produtividade, ele cita a liderança do Ceará em energia eólica e solar e a Ferrovia Transnordestina, que precisa ser continuada para operação parcial prevista 2026, conectando a Região do Matopiba, de produção de grãos, passando pelo interior do Ceará, Pernambuco e Piauí, com custos logísticos menores em até 60% comparado ao modal rodoviário. Outro diferencial listado por Ribeiro é o Terminal offshore de classe mundial, no Porto do Pecém, ampliando a capacidade de escoamento, graças à joint venture com o Porto de Roterdã.
“A integração entre a ZPE, CIPP e a Ferrovia Transnordestina cria um ecossistema logístico que viabiliza a exportação de produtos de maior valor agregado, como produtos e alimentos industrializados, polpa de frutas e sucos”, lembra o secretário, animado com o potencial de crescimento da fruticultura. Ele cita como potencial novos produtos como cacau, mirtilo, abacate e grãos nobres, além de melão, manga, castanha de caju, apicultura e aquicultura (tilápia e camarão).
Com um modelo que combina infraestrutura integrada (ZPE, Porto do Pecém, Transnordestina), conectividade digital e energia limpa, o Ceará pode servir como roteiro para estados com potencial portuário e agrícola, como Maranhão e Pará, desde que adaptado às especificidades regionais. “A chave para o sucesso será a continuidade dos investimentos e a mitigação de riscos globais, consolidando o Brasil como líder em segurança alimentar e o Ceará como um hub logístico de referência”, acredita o secretário Sílvio Ribeiro.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (FAEC) acompanha com atenção o cenário geopolítico e as possíveis oportunidades que possam surgir para o setor agropecuário cearense em decorrência de disputas comerciais, de olho na meta de dobrar o valor das exportações da agropecuária cearense nos próximos cinco anos, passando de US$ 500 milhões para US$ 1 bilhão.
“O agronegócio do estado tem crescido muito. Estamos no sexto trimestre seguido com números positivos. Somente no primeiro trimestre de 2025, a agropecuária cearense avançou 18,43%, em relação ao mesmo período de 2024”, comemora o presidente Amílcar Silveira (foto).

O Ceará é o maior produtor de camarão do Brasil, responsável por mais da metade da produção nacional, e a FAEC tem buscado a retomada das exportações para a Europa, especialmente para o Reino Unido, que estão fechadas desde 2018. Com o uso mais eficiente dos perímetros irrigados, é possível também alavancar a produção de frutas, segmento que o Ceará já é competitivo no mercado internacional.
Dentro do compromisso de modernização do setor, a entidade também vem apoiando iniciativas como o investimento em tecnologia e genética, a exemplo do projeto de Fecundação In Vitro (FIV) para o rebanho leiteiro, que tem sido fundamental para elevar a produtividade. Para isso, Amilcar Silveira entende que, em parceria com o Senar, “é fundamental preparar o produtor rural cearense para atender a demanda externa em um contexto de possíveis barreiras comerciais entre grandes mercados como Estados Unidos e China, onde o agronegócio pode se beneficiar como alternativa segura e estável”.