Para alguns analistas de mercado, o governo terá que usar outras ferramentas para frear a inflação porque a escalada de alta da taxa Selic já chegou ao fim em terras brasileiras. (Foto: Envato Elements)

Até quando os juros altos conseguirão segurar o capital estrangeiro no Brasil?

Por: Gladis Berlato | Em:
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Num retrospecto recente, o Conselho Monetário Nacional (Copom) operava com 2% ao ano de taxa Selic, desestimulando a entrada do capital estrangeiro que busca remunerações mais elevadas. O dólar começou a apontar para R$ 7,00 e teve a companhia da inflação nesta subida. Já na última reunião, o Banco Central bateu o martelo para uma Selic de 12,75%, colocando como ingrediente o viés de uma nova alta que resultou numa taxa anual de 13,25% como forma de controlar a inflação que beira os 11%.


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Este é o cenário que deve se manter pelo menos até o final do ano, independentemente de eleições (ou até por conta dela). E o mercado de capitais absorve todos os humores e tendências, afetando o retorno das aplicações. O nervosismo, entretanto, se aplica apenas a pessoas preocupadas com o curto prazo. Palavra de especialistas que sinalizam dificuldades de gestão para o próximo mandatário brasileiro, seja ele quem for, porque de um lado há redução de receita como fruto das isenções concedidas (olha a eleição aqui de novo) e, de outro, o aumento de despesas.

Para alguns analistas de mercado, como Sandro Guintini, CEO da Black Ross, escritório credenciado da Corretora Guide Investimentos, o governo terá que usar outras ferramentas para frear a inflação porque a escalada de alta da taxa Selic já chegou ao fim em terras brasileiras. Por conta disto, manterá o País atrativo ao capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos – porto seguro com seus títulos de primeira linha – já sinalizaram aumento de 0,75% na taxa, com chance de continuar subindo.

Embora ainda distante da atratividade dos juros brasileiros, o dinheiro investido na Bolsa de Valores brasileira começa a retornar para os americanos. Dos mais de R$ 60 bilhões atraídos pelo Brasil, já saíram entre 10 e 15 bilhões, gerando queda nas transações no mercado de capitais. “Trata-se de uma movimentação que dependerá do limite de juros a ser praticado pelo governo americano”, comenta Sandro Giuntini, certo de que o Brasil ainda leva vantagem neste item: 13,25% contra um teto americano de 3%. “Hora de ir às compras”, diz ele, referindo-se à aquisição de ações de empresas com valores baixos para valorização e ganhos maiores com a venda no futuro.

Nesta mesma batida se comportam os investidores no mercado acionário e financeiro que encontram guarida para seu dinheiro conforme o perfil individual do dono do dinheiro. Aos conservadores, que preferem risco menor, a recomendação é aplicar em títulos do governo, CDBs de bancos, Letras do Tesouro, LCIs, LCAs e debêntures.

O mercado de ações é para aqueles que suportam maior volatilidade, mas não se contentam com rentabilidade de 10% a 13% e querem pelo menos duplicar os ganhos das aplicações em renda fixa. Os fundos imobiliários se apresentam como opção intermediária entre renda fixa e variável e menos volátil do que as ações. E há a criptomoeda Bitcoin, a mais conhecida entre as mais de 300 existentes, que não é regulamentada, nem fiscalizada pelas autoridades monetárias e que tem sofrido com a saída de ativos de risco que buscam a segurança de títulos soberanos. Fugindo do risco, os investidores assistiram a uma queda de quase 15% somente em maio, derrubando o valor do Bitcoin para quase metade dos históricos US$ 69 mil de novembro de 2021, que atraiu multidões.

Pacote de bondades

O professor de Economia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Marco Antonio dos Santos Martins, que já acompanhou várias crises ao longo de sua carreira como analista do mercado de capitais e como então presidente da Apimec, entende que o Brasil só terá jeito se destravar as necessárias reformas, a começar pela política, fiscal e administrativa. Este caminho, entende ele, abrirá portas para muitas outras medidas necessárias. “Na contramão, entretanto, o que se vê é a distribuição de bondades de toda ordem ampliando os gastos públicos ao mesmo tempo em que reduz a arrecadação por conta das isenções envolvendo impostos de importação e de IPI”, exemplifica.

No seu entendimento, somente a política monetária já não serve para gerenciar o ciclo de desequilíbrio prolongado, obrigando o governo a aprisionar o Brasil num cenário de juros altos para segurar os investidores. Ele também concorda que é hora de investir, especialmente em Bolsa, mas alerta que esta é uma alternativa para os pacientes, que comprarão na baixa para apurar bons resultados no longo prazo.

Para este futuro tão próximo, a perspectiva não é nada favorável para quem vier a comandar o Brasil porque carregará uma pesada herança do atual momento. Mesmo assim, o professor Marco Antonio se diz um otimista com o País pela sua economia diversificada e pelo povo resiliente que busca alternativas criativas e inovadoras de sobrevivência em meio às crises.

Derivativos

À luz de um cenário de juros e inflação altos, que tendem a se manter no segundo semestre, o sócio da Verk Corporate/BTG Pactual, Rafael Meyer, não tem dúvidas de que os Fundos de Renda Fixa ficarão no topo da preferência dos investidores avessos a riscos maiores oferecendo rentabilidade atraente de 115 a 120% do CDI, baixa liquidez (D+30), vencimento de 1 a 2 anos e isentos de imposto de renda. Projeções da BTG/Pactual apontam para uma Selic de 13,50 a 14% até o final do ano, diante de uma perspectiva de IPCA de 8 a 9,5% podendo até romper a barreira dos dois dígitos.

Rafael Meyer, entretanto, manda um recado aos investidores em Bolsa, notadamente em ações do Banco do Brasil, Vale e Petrobras que apuraram elevados desempenhos. “São bons papeis, mas convém buscarem proteção nos derivativos”, afirmou ele, considerando que o cenário é incerto diante dos efeitos da campanha presidencial, a continuidade da guerra, a política americana de manter os juros altos e o esforço do governo chinês de combater a pandemia perseguindo a meta de Covid Zero, o que voltará a atrair o capital externo.

O conselheiro do Conselho Federal de Economia, Lauro Chaves Neto, assessorEconômicoda Federação das Indústrias do Ceará, concorda que basta uma rápida retrospectiva para antever que o horizonte de 2022 será cinza. O Brasil vivenciou uma recessão de 2014 a 2016, conseguiu crescimento muito tímido entre 2017 e 2019 e teve a pandemia de 2020 a 2021. Agora avista um 2022 com potencial de terminar sombrio tanto por variáveis internas como externas, caso da decisão da Finlândia e da Suécia de integrarem a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), tornando-se alvos da Rússia e, assim, contribuindo para o prolongamento da guerra.

Entre os obstáculos internos, o agravamento do cenário vem do acirramento da disputa eleitoral potencializado pelo extremismo dos candidatos e com o reforço da polarização também em toda a sociedade. “Isto afeta os negócios, incluindo as aplicações financeiras”, afirma Lauro Chaves Neto. Com maior risco, os investidores se protegem e buscam alternativas mais seguras fazendo migrar o dinheiro.

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