Os países que têm na indústria sua força propulsora, apesar da pandemia, continuaram investindo em modernização de seus parques e de seu capital humano para não perderem competitividade. (Foto: Freepik)

A indústria nacional está inovando o suficiente para atender o mercado?

Por: Gladis Berlato | Em:
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É quase uma regra: os países que têm na indústria sua força propulsora, apesar da pandemia, continuaram investindo em modernização de seus parques e de seu capital humano para não perderem competitividade frente a um mundo global em transformação. No Brasil, esta realidade se aplica mais às grandes e médias empresas, em geral exportadoras, que investem em inovação para garantirem seu espaço no mercado.


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 Na visão do diretor da SM Investimentos, Sérgio Melo, que acompanha de perto os movimentos do mercado, houve um acelerado avanço na área da tecnologia da informação provocando alterações nos processos e na mão-de-obra empregada, que teve que se qualificar para migrar para novos postos. Integrante de um grupo multidisciplinar da Federação das Indústrias do Ceará para a implantação de uma plataforma de desenvolvimento para o Estado, fruto das dores e das expectativas de mais de 40 sindicatos filiados, Melo diz que houve uma maior internacionalização da economia brasileira nos últimos dois anos, seja através de joint-ventures ou de transferência de tecnologia.

“Sem isso, o país assistiria ao aumento ainda maior da dependência por importações e seria empurrado, cada vez mais, à posição de exportador de commodities, perdendo negócios com produtos industrializados de maior valor agregado”, disse.

A lição veio da China. Por conta da falta de uma visão de longo prazo é que o Brasil teve que importar até máscaras, seringas, além das fundamentais vacinas e, ainda, enfrentar a falta de container para o transporte de mercadorias. E agora, de novo, vivencia a falta de fertilizantes (80% de fora) que garantem a alta produtividade das super safras a cada ano.

Não há outra saída. Sérgio Melo entende que a atualização industrial tem o suporte financeiro de organismos públicos como o BNDES e bancos regionais como o Banco do Nordeste, este contando com a garantia de fundos constitucionais, recursos com 2 a 3 anos de carência, 10 anos para pagamento e taxas de juros competitivas entre 4,5% a 5%. Também a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) disponibiliza recursos para a inovação, condição para a sobrevivência de qualquer empresa. 

Falta de prioridade

Apesar da disponibilidade de recursos públicos, sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) junto a executivos e CEOs de 196 médias e grandes empresas industriais e de serviços entre outubro de 2021 e fevereiro de 2022, mostra que apenas 10% delas utilizaram linhas de financiamento público à pesquisa e desenvolvimento (P&D) e que 89% custearam seus projetos de inovação. Os números foram divulgados, neste mês de março, no 9º Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria,promovido pela CNI e Sebrae.

Na ocasião, o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, disse que os resultados confirmam uma realidade que se arrasta há anos e há governos no Brasil: o país não prioriza a área de ciência, tecnologia e inovação (CT&I). Basta saber que em 2019 (último dado disponível) o Brasil investiu 1,21% do PIB em P&D entre recursos públicos e privados, contra 1,17% em 2018, distante do mínimo desejável de 2% e muito longe do investimento chinês (2,23%).

Fruto do esforço privado, em média, 19% da receita líquida de vendas das empresas resultaram do lançamento de um produto inovador, dois pontos percentuais acima do ano anterior. Outra notícia animadora é saber, pela Sondagem da CNI, que mais da metade (51,1%) das empresas pesquisadas tiveram alguma cooperação com outra organização unindo conhecimentos entre si e com universidades e startups, a chamada inovação aberta, o que acelera o processo. O fato talvez explique o crescimento de 86% em cinco anos dos projetos industriais focados em inovação e pesquisa, conforme acompanhamento da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações e que até janeiro de 2022 já apoiou 1500 projetos de 1.031 empresas que somaram investimentos de R$ 2,0 bilhões e resultando em 525 pedidos de propriedade intelectual.

A gerente de Política Industrial da CNI, Samantha Cunha, confirma que houve atualização tecnológica justamente neste núcleo de indústrias já inovadoras. Quando se olha para a média da indústria de transformação, o quadro é diferente já que, historicamente, a indústria nacional convive com baixa produtividade, o que só se agravou com a Covid-19, intensificando as carências de insumos e de infraestrutura, aumentando o já desgastado Custo Brasil.

A saída urgente, segundo a gerente Samantha, é a da economia digital. “Temos gargalos antigos e desafios novos”, resume ela, acreditando que a digitalização é uma grande oportunidade para melhor nivelar a performance da indústria brasileira que requer uma política especial voltada à inovação.

Apesar da dura realidade enfrentada nas rotinas das empresas, o Brasil tem potenciais a serem desenvolvidos e que podem se tornar diferenciais tais como a transição energética para o baixo carbono, a sustentabilidade e a tecnologia 5G para dar maior velocidade de transmissão, viabilizando outros negócios, como o de veículos autônomos e na área da medicina, que requerem respostas rápidas.

Indústria preparada

Um dos indicadores de que, apesar da pandemia, a indústria não descuidou de sua estrutura tecnológica vem do segmento de máquinas e equipamentos usados em grandes obras de infraestrutura.A Associação Brasileira de Tecnologia para Construção e Mineração (Sobratema), que reúne as maiores fabricantes de equipamentos e prestadores de serviços do setor, garante que as inovações são aparentes e ocultas. O vice-presidente Eurimilson Daniel lembra que em geral as obras são a céu aberto, o que preservou o setor durante a Covid-19, diferentemente dos estragos da Operação Lava Jato que retirou as maiores construtoras e empreiteiras do mercado.

O fato abriu espaço para operadores regionais, o que resultou numa pulverização no segmento formando um novo e fortalecido mercado. O executivo da Sobratema garante que está em curso um robusto e continuado movimento de modernização de equipamentos com motorização eletrônica, mais econômicos e sustentáveis e com a multiplicação de modelos de diferentes tamanhos, potências, velocidade e capacidade para variadas aplicações. “Este é o resultado da inovação no nosso setor, o que justifica ainda mais o avanço da opção de locação de equipamentos, garantia de máquinas de última geração, que já representa 85% dos negócios em se tratando de guindastes e 90% em plataformas”, exemplifica.

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