Segundo o levantamento, os maiores entraves relatados pelos empresários entrevistados são juros altos, indicados por 44% deles; e o excesso de burocracia para abrir, manter ou até mesmo, se for o caso, encerrar as suas atividades, bem como para a contratação e dispensa de funcionários, apontado por 34% dos respondentes. (Foto: Freepik)

Desafios do varejo: tributos e burocracia ainda impedem crescimento das empresas

Por: Anchieta Dantas Jr. | Em:
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Para nove em cada dez comerciantes brasileiros (88%), arcar com tributos e burocracia está entre os principais desafios do varejo para o crescimento dos seus negócios e o consequente avanço da economia do país. Esta é a conclusão de uma pesquisa recentemente realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae).  


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Segundo o levantamento, os maiores entraves relatados pelos empresários entrevistados são juros altos, indicados por 44% deles; e o excesso de burocracia para abrir, manter ou até mesmo, se for o caso, encerrar as suas atividades, bem como para a contratação e dispensa de funcionários, apontado por 34% dos respondentes. Na sequência, ambos com 32%, aparecem com alta carga tributária incidente sobre a produção e comercialização de produtos ou serviços e o elevado custo para empregar, assim como a tributação sobre a folha de pagamento.

“A alta carga tributária e a complexidade do sistema diminui a lucratividade e dificulta a sobrevivência do negócio, especialmente em seu início e durante a fase de consolidação”, afirmou o presidente da CNDL, José César da Costa, ao comentar os números durante o Fórum Nacional do Comércio, realizado pela entidade em setembro deste ano. Ainda de acordo com ele, “a burocracia torna as empresas lentas e pouco competitivas, os juros excessivos inibem a tomada de crédito e os investimentos, e prejudicam a capacidade produtiva”. 

Aliás, conforme a pesquisa, para 23% dos varejistas ouvidos, a dificuldade de acesso ao crédito também surge entre os desafios do varejo, configurando-se como barreira para o crescimento dos negócios. Conforme o estudo, 56% dos empresários creem que esse obstáculo está ligado principalmente às taxas de juros excessivamente altas; 34% disseram que tem a ver com o volume de garantias exigido pelas instituições financeiras; 26% às barreiras colocadas às empresas inadimplentes para terem o crédito aprovado; e 16% ao baixo conhecimento das linhas de financiamento existentes.

Embora não tenha sido mencionada na pesquisa da CNDL, “a falta de escalonamento na transição das empresas em crescimento de um regime tributário para o outro é mais um entrave para o avanço dos negócios”, afirma o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Fortaleza, Assis Cavalcante. 

“Muitas empresas querem crescer e para isso precisam sair do Simples nacional. No entanto, ao fazer isso, elas perdem uma série de benefícios. Dessa forma, se houvesse um escalonamento que permitisse que esses negócios migrarem desse regime para o Lucro Real ou Presumido, fazendo com que a mudança na tributação fosse feita de forma paulatina, isso ajudaria para que mais empresas pudessem crescer”, justificou. “Tem muitas empresas que querem se crescer mais, porém não querem sair do Simples Nacional da forma como ocorre hoje”, emendou.

Desafios de gestão no varejo

Ainda entre os desafios do varejo, a pesquisa da CNDL em parceria com o Sebrae revela que 78% dos empresários escutados relatam algum problema de gestão, com destaque para a dificuldade de contratação de mão de obra qualificada (29%), a falta de recursos financeiros para adquirir dados sobre o mercado de atuação da empresa e de seus clientes (21%) e o baixo acesso às tecnologias e inovações em função dos custos elevados (17%). Porém, na outra ponta, 17% dos entrevistados disseram não existirem problemas relacionados à gestão empresarial que interfiram na empresa. 

De fato, explica Assis Cavalcante, encontrar mão de obra com as qualificações pedidas pelo setor continua sendo um obstáculo. “Existem atualmente no Brasil 14 milhões de desempregados, contudo, a maioria não tem qualificação suficiente. Isto acaba gerando um custo para as empresas ao contratar essas pessoas. Ao mesmo tempo, a gente percebe que ainda há um descompasso entre o que é passado nas escolas, no caso no ensino médio, e as exigências do mercado. Existe o que chamo de ‘divorciamento’ entre o que é ensinado na escola e o que a empresa precisa”, afirma.

Implantação tecnológica 

Com relação às transformações que dizem respeito à digitalização e modernização dos processos de gestão, chama a atenção, entre os resultados da pesquisa, o fato de que embora 67% dos empresários se considerem inovadores, 41% dos entrevistados revelam que ainda tomam decisões importantes baseados na sua intuição, abstraindo-se dos dados de seus negócios. Isso mesmo tendo em vista que 83% dos entrevistados terem dito que conhecem os principais recursos tecnológicos disponíveis para o setor.

As ferramentas mais populares mencionadas pelos empresários participantes foram os meios de pagamentos on-line, a exemplo do Mercado Pago, PayPal, PagSeguro, entre outros, usados por pelo menos 25% deles. Em seguida, vêm as tecnologias de pós-venda e atendimento ao cliente, citadas por 20% dos respondentes; e ainda as aplicações que beneficiam os processos de troca de mercadorias, usadas por 18%. “Apesar desses números, a maior parte dos gestores tem ciência da importância da digitalização dos seus negócios e tem buscado conhecimento sobre o assunto”, aponta o estudo.

Já no que diz respeito à presença digital das empresas, as redes sociais mais utilizadas pelos varejistas são o Instagram e o Facebook, com 61% e 58% das respostas, respectivamente. Ao mesmo tempo, o estudo mostra que há um movimento de ascensão de novos canais de e-commerce. Tanto que mais da metade dos empresários entrevistados (52%) pretende adotar um novo canal de vendas on-line nos 12 próximos meses. 

No contexto tecnológico e a sua implantação nos negócios, ressalta Assis Cavalcante, da CDL de Fortaleza, o Sebrae tem sido um grande parceiro. “São cursos e consultorias oferecidos para os empresários que desejam transformar tecnologicamente os seus negócios”, afirma.

Efeito psicológico sobre os desafios do varejo

Na avaliação do articulador da Unidade de Inteligência Estratégica do Sebrae Ceará, Felipe Melo, apesar dos resultados da pesquisa atual, deve-se levar em consideração o efeito psicológico sobre as respostas dadas pelos empresários, principalmente devido ao cenário de pandemia e ao momento econômico pelo qual o país passa, o que se reflete nos resultados apresentados como desafios do varejo.

“Quando se fala, por exemplo, em tributos e burocracia, o chamado Custo Brasil, temos que levar em conta que é um entrave causado por uma série de fatores em conjunto, como institucionais, governamentais e culturais. Então, qual seria o cenário ideal para empreender no Brasil? A resposta revela que esses e outros fatores interferem mais ou menos em cada empresa. Essa pluralidade de elementos que compõe o Custo Brasil acaba se confundindo entre si e confundindo também o empresário. Dado esse cenário conturbado, observa-se um efeito psicológico de que, no geral, as coisas estão difíceis”

Felipe Melo, articulador da Unidade de Inteligência Estratégica do Sebrae Ceará

Para perceber o efeito psicológico sobre os resultados obtidos na pesquisa, ele aponta que é preciso comparar os índices do estudo anterior com os apresentados. “Se olharmos, por exemplo, o volume de respostas sobre burocracia como desafio do varejo na pesquisa de 2019, a gente observa que houve uma queda de quase 50% no índice encontrado em 2021 (34%). Então como a burocracia continua sendo um desafio tão grande para a maioria?”, questiona.

Ao mesmo tempo, fala, “enquanto boa parte dos empresários aponta a implementação tecnológica como desafio do setor, observa-se que muitos estão investindo menos em tecnologia agora, enquanto a presença digital caiu 18 pontos percentuais entre as duas pesquisas”. “Além disso, as tecnologias ficaram mais baratas desde a última pesquisa e ainda assim o percentual de empresários que não têm interesse em implementar tecnologia em seus negócios saiu de 5% para 12% atualmente”, aponta.

O mesmo raciocínio se aplica à dificuldade de obtenção de crédito. “Olhando pelo lado das instituições financeiras, conceder crédito é fundamental para elas. Elas querem emprestar dinheiro porque isto impacta no seu resultado financeiro. Já do lado das empresas, se valoriza linhas de crédito de baixo custo. No entanto, há a necessidade de maior preparação das empresas para se habilitarem para essas linhas, em termos de apresentação de projetos, aplicação, garantias, taxa de recuperação, retorno previsto, entre outras informações que devem ser apresentadas aos bancos. No entanto, essa preparação pede mais profissionalização na gestão das empresas para que elas estejam aptas a obter o crédito. Dessa forma, como muitas não se preparam, há o efeito psicológico de que o banco está sendo burocrata. Porém, ele espera que as empresas apresentem informações consistentes para que possa conceder o recurso a baixo custo”, justifica.

De acordo com ele, o que está faltando é as empresas e os demais agentes do mercado dialogarem. “Pois mesmo com quedas nos índices e a melhora em alguns aspectos comparando a pesquisa atual com a anterior, os empresários continuam dando as mesmas respostas com relação às dificuldades e os desafios do varejo”, conclui Melo.

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