Especialistas apontam que investimentos em educação ambiental, participação popular e tecnologia são o melhor caminho para a capital cearense realizar os 17 ODS.

Cidades sustentáveis: o que Fortaleza precisa para cumprir a Agenda 2030

Por: Maria Babini | Em:
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A Agenda 2030 tem um evento muito importante já marcado para os próximos anos: o fortalecimento da paz universal, através da realização dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, os ODS, e 169 metas, a fim de erradicar a pobreza e promover vida digna a todos. Para acompanhar essa trajetória rumo à Agenda 2030 de 770 municípios brasileiros, o Instituto Cidades Sustentáveis, no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, em parceria com o Sustainable Development Solutions Network (SDSN), apoio do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e financiamento do Projeto CITinova, lançou o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades ‐ Brasil (IDSC-BR)

De acordo com o IDSC-BR, entre os 770 municípios, Fortaleza ocupa a 460ª posição, com uma pontuação de 52,44 do total de 100. Em relação aos 17 ODS, quando analisado o ponto 11 sobre Cidades e Comunidades Sustentáveis, a capital cearense ainda é apontada como cidade com grandes desafios, avaliada a partir de indicadores como: o percentual da população urbana que reside em aglomerados subnormais em relação à população total do município; os domicílios em favelas; e o percentual da população de baixa renda com tempo de deslocamento ao trabalho superior a uma hora. Em contrapartida, Fortaleza já atingiu tanto o ponto 7, de Energias Renováveis e Acessíveis, como o 13, de Ação Climática. O estudo mostra ainda que há desafios significativos na produção e consumos sustentáveis.

Planejamento urbano

Uma das estratégias para promover o desenvolvimento de cidades sustentáveis é a realização de um planejamento urbano que atenda às necessidades econômicas, sociais e ambientais do local. Para Pedro Rocha,  secretário executivo da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) de Fortaleza, cabe ao poder público apresentar à população informações e gerar conhecimento sobre o município. “A informação é tão simplesmente dispor os números que a cidade tem, mas, na verdade, ela precisa gerar também conhecimento para que a população tenha condições de discutir assuntos que dependem disso”, explica. Ele acredita que a gestão precisa criar a ambiência dessa discussão para a cidade ser construída a muitas mãos. Dessa forma, é possível fortalecer a construção colaborativa e o controle social que, segundo Pedro, são muito importantes para a nova cidade de Fortaleza que deve ser construída nos próximos dez anos.

“O planejamento urbano não pode ser feito apenas dentro de escritórios ou somente na academia. Tem que ser construído nas ruas, dentro da comunidade, para poder agregar o pensamento de quem mora na cidade”

Pedro Rocha, secretário executivo da Secretaria Municipal de Urbanismo e Meio Ambiente (Seuma) de Fortaleza

Rômulo Alexandre, sócio e coordenador da área de sustentabilidade do APSV Advogados, enfatiza que, ao se falar sobre cidade sustentável, o primeiro ODS que precisa ser ressaltado é o 11, que trata justamente desse tema. “O que isso significa? É quando a gente fala de habitação, transporte público, impostos progressivos, que as pessoas com menos condições tenham uma carga fiscal, nas cidades, adequadas à sua renda. Um ponto importante, e que conversa muito com o Ceará, é o patrimônio cultural e natural. E de cultural a gente fala de arquitetura, a importância das cidades e os valores importantes para essas cidades”, elenca.

É importante conservar a memória. Eu vi uma expressão, uma vez, que me impactou, que diz que ‘um povo sem memória é um povo sem futuro’. Ou seja, dentro das cidades, nessa ideia de cidades e comunidades sustentáveis, a questão do patrimônio cultural, preservação e salvaguarda do patrimônio cultural, é muito importante”

Rômulo Alexandre, sócio e coordenador da área de sustentabilidade do APSV Advogados

Outro ponto destacado por Rômulo é a parceria de meios de implementação. Para ele, quem produz desenvolvimento sustentável não é apenas o setor público ou o privado, mas os dois juntos unidos à comunidade. “Não há uma cidade sustentável se as pessoas não participam desse processo. A participação de pessoas produz algo revolucionário na construção de uma cidade sustentável que é o pertencimento, o ato de pertencer. E as pessoas só desenvolvem o senso de pertencimento naquilo que elas participam. Então é necessário trazer a sociedade para a construção de uma cidade sustentável”, avalia.

O titular da Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema), Artur Bruno, afirma que uma das estratégias mais importantes para criar uma cidade sustentável é a educação ambiental.

“A população precisa compreender os limites da natureza. Temos que nos adaptar e compreender a importância da preservação da flora e da fauna. Informar a necessidade de combatermos os gases de efeito estufa, que estão gerando as mudanças climáticas que poderão trazer grandes catástrofes para a humanidade. Portanto, esta é a questão central: o poder público, as empresas e a sociedade têm que trabalhar fortemente a questão ambiental”

Artur Bruno, titular da Secretaria do Meio Ambiente do Ceará (Sema)

Dentro desse contexto, o secretário frisa ainda a necessidade de adaptar a cidade para a boa convivência com a natureza e os ODS da ONU. Para ele, é fundamental que haja mudança na política de resíduos sólidos. “É urgente a coleta seletiva de resíduos, porque gera emprego e renda para os catadores. Daí a importância do governo ter lançado o Programa Auxílio Catador. Hoje, nós estamos pagando aos catadores pelos serviços ambientais, além do que eles já ganham com a sua coleta”, compartilha.

Tecnologia e cidades sustentáveis

Uma outra ferramenta importante na efetivação da sustentabilidade é a tecnologia. Exemplo disso é citado por André Farias, que faz parte da Elephant Coworking, uma rede de inovação focada na área de gestão de comunidades. Ele é um dos idealizadores do movimento Winds for Future e também presidente do Instituto Winds for Future. “O nosso papel é ser agente de transformação através do desenvolvimento sustentável. Um dos nossos objetivos é transformar destinos turísticos. A ideia é entender que iniciativas se encaixam melhor nesse tipo de ambiente, tornando-os mais atrativos para os nômades digitais. A Praia do Cumbuco, em Caucaia, por exemplo, recebe todos os anos diretores das maiores organizações que você possa pensar. Imagina o potencial transformador que essas pessoas carregam e isso não é aproveitado nessas localidades”, avalia André.

A oportunidade para atrair os olhares desses empresários começou em 2019 e contou com a ajuda do kitesurf, a partir da criação do festival Winds for Future (W4F). Segundo André, a ideia era transformar o Cumbuco em uma “smart beach”. Tudo pela urgência de chamar atenção para as necessidades de um futuro com praias limpas em comunidades sustentáveis. Além de quebrar recordes com a presença de 596 kitesurfistas, o evento rendeu um novo equipamento de inovação para o fortalecimento desse futuro sustentável tão ansiado: o Hub Cumbuco.

“Através desse hub, a gente vai conseguir se conectar com essas pessoas de fora e com a própria comunidade. Poderemos ajudar a focar recursos públicos para onde a comunidade atesta que precisa. E, com isso, criamos condições para criar um trabalho de ecossistema”

André Farias, presidente do Instituto Winds for Future e um dos idealizadores do movimento Winds for Future

A ideia do movimento é continuar reunindo comunidade, gestão pública, iniciativa privada e academia para pensar o desenvolvimento sustentável do local. 

Cidades sustentáveis e futuro

Rômulo Alexandre pontua também a necessidade de investimento na infraestrutura das cidades. “A gente precisa de transportes, de saneamento, entre outras coisas. A atração de investimento do setor privado para essas demandas é importantíssima. No Ceará, por exemplo, relacionando também aos ODS, nós podemos dizer que o ponto 7, que fala de energia limpa e acessível, foi bastante reforçado pelo investimento privado. Hoje, o Estado é referência em geração de energia renovável, feito em parceria com o setor privado, e muitos deles também atraíram capitais para o Estado para desenvolver essa matriz energética”, avalia.

Ele acredita ainda que a atração de investimento privado para a constituição das comunidades e cidades sustentáveis é importante. E como fazer isso? “A segurança política é um aspecto importante, ou seja, ter clareza do marco regulatório desses investimentos e a participação privada. Segundo, políticas de longo prazo. Não se faz mudança, principalmente em um País que tem muitos desafios de infraestrutura públicas, a curto prazo. É importante que políticas públicas de longo prazo em infraestrutura permaneçam”, conclui.

Artur Bruno lista ainda outras mudanças importantes para se pensar um futuro sustentável para a cidade. “É fundamental nós mudarmos o padrão de consumo energético, ou seja, fazermos a transição rápida para as energias renováveis, usar menos petróleo, gás natural e carvão. Temos que estimular e incentivar que os carros se tornem elétricos. É preciso, cada vez mais, que utilizemos a energia solar, a eólica, o nosso oceano, que é um potencial enorme para a energia eólica. Nós estamos fazendo um trabalho agora com as escolas, com o programa Agente Jovem Ambiental, onde 10 mil jovens estarão em todos os municípios fazendo trabalhos ambientais. Isso é nossa expectativa para acelerar essa consciência ambiental o mais rápido possível”, comenta.

O titular da Sema sugere ainda que os grandes fundos de investimento estão apostando em empresas e ações sustentáveis. Ou seja, os grandes empresários que não tiverem essa visão larga ficarão para trás, sendo superados. “Hoje estamos caminhando para a economia verde, a economia circular, então, é preciso que as empresas se adaptem e se envolvam com esse programa que traz ações que façam parte dos 17 ODS”, alerta.

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