O Ceará não está entre os grandes produtores de café. No entanto, o Estado trilha um interessante caminho que alia tradição, negócio e turismo. A história remonta ao século passado quando a cultura do café chegou a representar 3% da produção brasileira, sendo integralmente exportado para a Europa. O espaço foi ocupado por outras regiões […]

Ceará transforma em gourmet café cultivado no semiárido

Por: Gladis Berlato | Em:
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O Ceará não está entre os grandes produtores de café. No entanto, o Estado trilha um interessante caminho que alia tradição, negócio e turismo. A história remonta ao século passado quando a cultura do café chegou a representar 3% da produção brasileira, sendo integralmente exportado para a Europa. O espaço foi ocupado por outras regiões produtoras. Mais recentemente, a cultura ganhou novo fôlego com o café sombreado aproveitando o relevo da serra. O desafio está sendo enfrentado – e vencido – e o Ceará transforma o que colhe no semiárido em um produto gourmet de maior retorno aos produtores e à economia da região.


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“Inovamos para garantir um café especial”, diz Frederico Yan, presidente da Associação de Cafeicultores da Serra de Baturité (Afloracafé). A Associação criada em 2017 é formada por produtores que não têm esse cultivo como atividade principal, mas que conseguem investir em qualidade, renovando e replantando as mudas com vistas a ampliar a produtividade. Yan sabe que o grupo ainda é pequeno, mas que pode fazer a diferença.

Hoje a entidade é integrada por pouco mais de 20 produtores que colhem, cada um, 30 sacas, em média, na safra. A ambição, entretanto, é de chegar a mil sacas no grupo em três anos. Também o número de associados pode aumentar considerando o universo de produtores do Maciço que, segundo a Associação dos Produtores Ecologistas do Maciço de Baturité (Apemb) chega a 400 produtores na região integrada por Pacoti, Guaramiranga, Aratuba, Mulungu e Baturité. Para a Afloracafé, o Ceará pode avançar como indústria, criando e fortalecendo a marca de café.

De acordo com Henrique Cavalcante Freitas, assistente técnico na secretaria executiva do Agronegócio da Secretaria do Desenvolvimento e Trabalho (Sedet), há boas perspectivas para a produção de café especial porque além dos herdeiros que retomam a atividade de seus ancestrais, também novos produtores estão empenhados trazendo inovação e tecnologia.

“Apesar das restrições de área e de recursos hídricos, atualmente o café no Ceará é um nicho de negócios”

Henrique Cavalcante Freitas, assistente técnico na secretaria executiva do Agronegócio da Sedet

Ele acredita que estes mesmos produtores poderão agregar outros dos arredores ampliando na produção e os resultados. “Trata-se, sem dúvida, de uma atividade lucrativa para quem quer investir no Estado”, garante Freitas. Basta saber que enquanto o preço da saca do café convencional é em torno de R$ 400 a R$ 500, a do café especial pode chegar a R$ 1.500,00. Isso graças à elevada pontuação que o produto vem atingindo nas classificações de especialistas (80 pontos de uma nota máxima de 100).

O assunto está na pauta da Embrapa que coordena a rede de pesquisa e tem projeto de ampliar de 20 a 30 para 100 produtores de café especial em cinco anos. Joel Cardoso, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical do Ceará diz que a relevância desta atividade até a grande crise de 1929 pode ser recuperada aproveitando a vegetação florestal voltada ao oceano dos maciços rochosos. “É possível revitalizar a origem da atividade quase extrativista e de baixo manejo, transformando-a em um negócio rentável a partir da diferenciação do café especial sombreado”, afirma o pesquisador, convicto de que a alternativa é intensificar a produção com tecnologia o que envolve irrigação conjugada com sistemas de gotejamento e outros, conforme a viabilidade econômica.

“Vamos trabalhar em espaços menos sombreados, mas dentro da perspectiva de preservação ambiental concentrando um pouco mais a produção e aproveitando as áreas de mata menos densas”

Joel Cardoso, pesquisador da Embrapa Agroindústria Tropical do Ceará

Outras medidas apontadas no estudo da Embrapa são a renovação dos cafezais com replantio de cultivares de qualidade e a adoção de estratégias de comercialização de nichos, diferentemente da commoditie. A meta é fazer com que o Maciço de Baturité – e por decorrência a serra produtora – conquiste espaço maior nos mercados local, regional e nacional e que seja transformada em referência como mais uma opção de turismo, além de geração de renda.

A iniciativa se junta à Rota do Café Verde, um programa do Sebrae, que reúne cidades serranas produtoras de café sombreado como Baturité, Mulungu, Guaramiranga e Pacoti mostrando plantações em meio à Mata Atlântica e os processos de torra e moagem num cenário de casarões centenários. Os principais pontos da Rota do Café Verde são o Museu de Baturité (prédio da antiga estação ferroviária), a Fazenda Caridade e os sítios Águas Finas, São Roque, Floresta e São Luís abertos à visitação dos cafezais.

Segundo Fabiana Gizele, do Sebrae Café, “os cafés especiais são novas possibilidades econômicas que trazem uma melhor condição de ganho ao produtor, ampliando a sua capacidade de gestão da atividade cafeeira”. Pelo acompanhamento do Sebrae, há pouco mais de 100 cafeicultores trabalhando na região, onde a produtividade média atual diagnosticada é de aproximadamente 6 sacos por hectare. Fabiana ressalta que a atividade é exercida em total sintonia com o bioma, sem agroquímicos e similares.

“Estamos convictos de que essa produtividade pode até triplicar com maior aporte tecnológico por meio de técnicas de manejo correto e com o uso de variedades mais produtivas”

Fabiana Gizele, do Sebrae Café

Mercado brasileiro de café

Apesar da pandemia, o Brasil bate recorde na produção de café e deverá fechar a safra 2019/2020 com 63 milhões de sacas de 60 kg, um aumento de 27,9% superando, inclusive, em 2,3% o recorde anterior de 2018 e bem acima do crescimento mundial de 4,5%, pelo acompanhamento da USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) atribui a superprodução à performance do café arábica, ao clima favorável e ao aumento de 3,9% na área plantada que chegou a 1,88 milhão de hectares.

Para Lucas Tadeu Ferreira, chefe de Transferência de Tecnologia da Embrapa Café, o produto brasileiro vem evoluindo muito nas duas últimas décadas tanto em produção como em produtividade. A trajetória é comprovada pelos estudos do Consórcio Pesquisa Café criado em 1997 e coordenado pela Embrapa Café. Pelo acompanhamento, a produtividade de 8 sacas por hectare em 1997 passou para 32 sacas e a produção foi triplicada passando de 18,9 milhões de sacas para 59,6 milhões. O volume das exportações também cresceu de 16,7 milhões de sacas em 1997 para 40 milhões estimados para 2020. No mercado doméstico, o consumo passou de 11,5 milhões de sacas para 21,0 milhões.

O País possui aproximadamente 300 mil estabelecimentos produtores de café, dos quais 82% são considerados da cafeicultura familiar. Em média, a produção brasileira tem correspondido a um terço da safra global, e, no âmbito interno, as exportações equivalem a 60% da produção nacional e o consumo por volta de 40%. No panorama mundial, a Organização Internacional do Café – OIC destaca que no ano-safra 2019-2020 a produção mundial foi de 167,9 milhões de sacas para um consumo mundial foi de 166 milhões.

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