Aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Paralelamente a essa triste marca, um antigo fantasma volta a ameaçar o País e seu desenvolvimento econômico: a fome. No Estado, entretanto, o programa Mais Nutrição, iniciativa que integra o […]

Mais Nutrição: segurança alimentar como aposta para o futuro do Estado

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Aproximadamente um terço dos alimentos produzidos no mundo é desperdiçado, de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Paralelamente a essa triste marca, um antigo fantasma volta a ameaçar o País e seu desenvolvimento econômico: a fome. No Estado, entretanto, o programa Mais Nutrição, iniciativa que integra o Mais Infância Ceará, tem atuado no sentido de ajudar a debelar esse risco, não apenas fazendo frente à insegurança alimentar – que vem a ser um dos maiores entraves históricos ao crescimento – como também contribuindo para a nutrição de qualidade para crianças. Estas, consequentemente, terão mais chances de se tornarem adultos saudáveis no futuro.

Investimentos em políticas de proteção à infância são garantia de futuro sustentável

A quantidade de cerca de 1,7 bilhão de toneladas contabilizada no mundo coloca o Brasil, com mais de 26 milhões de toneladas perdidas anualmente, como um de seus protagonistas nesse quesito indesejável, tracejando a necessidade de uma imediata mudança nos padrões de produção e consumo da população. Atuando com essa intenção, o projeto local já beneficiou 26.784 pessoas em 31 municípios cearenses, oferecendo um complemento alimentar de qualidade e dando um bom destino para mais de 563 toneladas de alimentos que poderiam ter ido ao lixo.


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Pioneiro no Nordeste, o programa, que completou um ano de seu lançamento em junho de 2020, com investimento inicial de R$ 2 milhões, conta com a parceria permanente da Associação dos Permissionários da Ceasa/CE e do Grupo M. Dias Branco. Este participa com uma doação periódica de carboidratos. Além de receber doações de parceiros espontâneos da iniciativa privada, a ação é executada pelas secretarias de Proteção Social, Justiça, Cidadania, Mulheres e Direitos Humanos (SPS), Desenvolvimento Agrário (SDA) e Central de Abastecimento do Ceará (Ceasa-CE), além do Instituto Agropólos do Ceará.

Na medida em que coaduna-se com uma das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, qual seja justamente reduzir à metade o desperdício per capita de alimentos no planeta até 2030, a natureza da iniciativa tem se comprovado pertinente. “Sempre gosto de definir o Mais Nutrição como um programa que funciona como uma ponte. Ele leva de onde sobra, de onde seria desperdiçado, colocado no lixo, para onde falta”, define Dagmar Soares, coordenadora do Mais Infância Ceará. 

Para que se tenha uma ideia, nos cálculos da Associação dos Permissionários da Ceasa, são produzidas 20 toneladas ao dia de material orgânico, para o qual, muitas vezes, não havia um destino certo. Por questões de sazonalidade das safras, em muitas situações, a oferta desses produtos torna-se maior que a demanda, o que acaba tornando as sobras inevitáveis, mesmo de legumes, frutas e verduras em perfeito estado. Apenas para o Mais Nutrição, são entregues diariamente, em média, três toneladas de alimentos, que em seguida são separados em polpas de frutas, mix de preparo de alimentos e “in natura”.

“Fico impressionada com a qualidade dos alimentos. Não é porque não foram vendidos que não servem. Vamos dizer que há um permissionário que compra diariamente cem abacaxis para vender. Vende 80 e sobram 20. Estes que sobram não tem onde armazenar. Então, iam para onde? Para o lixo, porque amanhã ele teria de receber mais cem. E, com o Mais Nutrição, eles passaram a nos doar esses alimentos”, explica a gestora, para quem a inclusão e sentimento de pertença junto ao projeto por parte dos permissionários tem sido fundamental ao processo.

Renato Barroso, presidente da Associação, para além da boa ação praticada, confirma que a parceria tem sido vantajosa, do ponto de vista financeiro, para os permissionários, uma vez que reduz os altos custos que antes eram necessários para o descarte e a limpeza do excedente que ficava. “Algumas frutas são rejeitadas pelos supermercados apenas por questões estéticas, vamos dizer assim, pois têm que expor a mercadoria. É um pouco menos criterioso do que seria para uma mercadoria tipo exportação. Tem que estar boa por fora e por dentro. Enfim, o descarte já seria feito naturalmente”, conta Barroso.

“É toda uma cadeia. A gente ajuda o permissionário, eles nos ajudam, e ainda reconhecemos o trabalho deles, botando uma plaquinha indicando que eles participam do Mais Nutrição, além de oferecer contrapartidas como melhorar a segurança. É, como eu chamo, uma corrente do bem: eles doam, sabendo o destino dos alimentos”.

Dagmar Soares, coordenadora do Programa Mais Infância Ceará

Boa nutrição

Segundo a FAO, um país está no chamado Mapa da Fome quando se torna gravemente inseguro do ponto de vista alimentar para mais de 5% de sua população. Isto acontece quando essa porcentagem de indivíduos acaba sendo atingida por uma subalimentação ou fome crônica, que é quando não se tem acesso a alimentos com valor nutricional suficiente para se ter uma vida ativa e saudável. Em julho de 2020, para o mesmo órgão, em seu relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, o Brasil ainda permanecia abaixo desse limite, com 2,5% de sua população brasileira vivendo em situação de subnutrição, o que, porém, não deixou, porém, de despertar preocupação entre especialistas. 

No Ceará, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há 1,3 milhão de domicílios convivendo com a insegurança alimentar, fazendo com que o Estado, em números absolutos, se posicione em 7º lugar no País. Por outro lado, 53,1% das famílias cearenses já contam com segurança alimentar, que é definida quando há acesso, regular e permanente, a alimentos de qualidade, na quantidade necessária e sem comprometer outras necessidades essenciais

À tarefa de oferecer assistência nutricional a famílias em situação de vulnerabilidade social, une-se um novo desafio: a mudança de hábitos há muito arraigados na cultura alimentar. “O Ceará já viveu a desnutrição, o Iprede (Instituto Primeira Infância) foi criado para trabalhar nesse campo. Mas o nosso número já baixou bastante nas últimas décadas (estava em 3,2% em 2017). Nosso problema agora é a obesidade infantil. Isso ocorre muitas vezes porque a pessoa, tendo pouco dinheiro, vai lá e compra um xilitos (apelido para salgado popular e sem valor nutricional no Ceará). E aí a gente trabalha com essas entidades que recebem os alimentos a importância de uma alimentação saudável. As pessoas então passam a consumir frutas, verduras e legumes, a criar esse gosto, pois geralmente não têm acesso a isso em casa. Assim, contribuímos para uma melhor nutrição e segurança alimentar”, comenta Dagmar Soares.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2025, o planeta deverá contabilizar cerca de 2,3 bilhões de pessoas adultas acima do peso – com o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30. Destas, aproximadamente 700 milhões serão consideradas obesas. 

“Houve uma mudança, no cenário epidemiológico, não só no Brasil mas no mundo, que mudou da criança desnutrida para a criança obesa. São crianças obesas desnutridas, que estão acima do peso, mas não estão nutridas”, conta a nutricionista do programa, Débora Wanderley de Melo. Ela afirma que o Mais Nutrição, mesmo em pouco tempo e ainda com poucos dados concretos a mensurar, tem cumprido seu papel na reeducação alimentar do cearense.

É importante que a criança, desde pequena, tenha essa relação direta com o alimento ‘in natura’. Isso ajuda muito a mudar esse quadro. Por isso que doamos também o alimento bruto, para a criança entender de onde veio aqueles legumes, aquela cenoura e a macaxeira daquela sopa desidratada. Porque assim ela vai criar um hábito alimentar saudável, para futuramente se tornar um adulto saudável, podendo passar esse hábito alimentar para a própria família”

Débora Wanderley de Melo – Nutricionista do programa Mais Nutrição

A nutricionista explica que o alimento “in natura” que chega para a fábrica do programa, em Maracanaú, é selecionado, ocasião em que é retirado aquilo que não serve para o consumo humano. Em seguida, é feita a lavagem e o acondicionamento em caixas plásticas. Já as polpas de frutas e sopas passam por um cálculo de “per capita”, que é a gramatura por criança, no qual há uma variação de quantidade para cada entidade. “Tentamos ao máximo não fazer estoque de alimentos, pois já os recebemos em processo de maturação avançado. A entidade faz o mesmo, para que não haja realocação de desperdício”, explica ela.

O acompanhamento do processo é feito pela SPS, com uma capacitação em boas práticas de alimentação e hábitos saudáveis, na qual são passadas informações sobre transporte, armazenamento e utilização máxima dos produtos, entre outras.

“A alimentação é a nossa reserva da saúde, pois é nosso combustível. A obesidade pode ter como consequência um AVC, infarto, enfim, outras doenças como consequência. E isso começa na infância. Então, quando se qualifica a alimentação na infância, se está prevenindo várias doenças, o que também tem impacto na saúde, na vida adulta e na velhice”, complementa Dagmar Soares.

Para os mais de 160 permissionários da Ceasa-CE que colaboram com a iniciativa, há ainda a sensação é de que o próprio consumo de frutas, legumes e verduras passará a ter uma outra recepção, ao menos em um futuro próximo. “A questão é bem clara: de baixo custo, o que você compra hoje para crianças? É biscoito, essas bobagens. Então, acredito, sinceramente, que tendo essa alternativa, elas possam melhorar seus hábitos alimentares”, aponta Renato Barroso, citando um exemplo que, para ele, confirma seu raciocínio. “Existe por lá um projeto chamado Ceasa no Campo, para crianças até 14 anos que têm o espaço disponibilizado pela associação, onde todo treino e recebem uma caixa de frutas já há relatos. Existem algumas frutas lá que os meninos nunca na vida tinham comido, como pitaya. E como as empresas têm que fazer esse descarte, acabam doando, e, com certeza, essas crianças poderão, sim, melhorar seus hábitos”, projeta. 

Processo de seleção

Tiago Dutra é voluntário da Associação dos Moradores do Parque Universitário, mais conhecido por Instituto Parque Universitário, que funciona há 36 anos no bairro do Pici, em Fortaleza. A instituição, que oferece à comunidade do entorno serviços de convivência e fortalecimento de vínculo, atividades recreativas e esportivas, qualificação profissional e jovem aprendiz, além de atividades culturais, foi uma 91 selecionadas na Grande Fortaleza para contarem com as doações do Mais Nutrição.

Como todas as outras, participou de um edital de seleção e, na sequência, por uma visita de técnicos – para saber se tinha o espaço físico e as condições mínimas, com a higiene adequada, para manuseio, preparo e armazenagem dos alimentos. 

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Tiago Dutra é voluntário do Instituto Parque Universitário: ‘projeto chega aonde outras iniciativas não chegam’ FOTO: Gov. do Ceará (registrada antes da pandemia)

O programa se propõe a dispor de um complemento alimentar qualificado para crianças e adolescentes enquanto estes praticam atividades fundamentais para seu desenvolvimento. Para Dutra, o papel tem sido cumprido de forma bastante satisfatória, mesmo durante a pandemia, quando os kits para as famílias tiveram de ser preparados para serem distribuídos na sede, e não mais para consumo dos beneficiários dentro da própria instituição, como era exigido. 

“O projeto chega aonde outras iniciativas que trabalham com complementação alimentar não chegam, devido a questões burocráticas. Acaba atuando junto a associações que funcionam dentro da periferia, nas comunidades mais carentes, que até contam com projetos bacanas, mas que não contavam com recursos para fornecer o lanche ou almoço para as crianças atendidas”, afirma o voluntário. 

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