Composta por atividades produtivas que têm como processo principal um ato criativo, resultando em uma produção de riqueza cultural, econômica e social, a economia criativa tem crescido ao redor do mundo, e no Ceará não é diferente. Com ações atuais e planejamentos de curto, médio e longo prazo, o Estado mira o desenvolvimento do setor […]

Com ações atuais e planos para o futuro, Ceará mira economia criativa

Composta por atividades produtivas que têm como processo principal um ato criativo, resultando em uma produção de riqueza cultural, econômica e social, a economia criativa tem crescido ao redor do mundo, e no Ceará não é diferente. Com ações atuais e planejamentos de curto, médio e longo prazo, o Estado mira o desenvolvimento do setor e já desponta como destaque em algumas áreas. A capital Fortaleza, por exemplo, foi reconhecida pela Unesco, em 2019, como Cidade Criativa do Design, uma chancela que confirma o potencial da cidade.

De acordo com os dados mais recentes da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), que realiza um mapeamento entre os estados brasileiros, o Ceará contava, em 2016, com 4,1 mil empreendimentos criativos em seu território, o que correspondia a um PIB Criativo de R$ 2,3 bilhões, o terceiro maior do Nordeste. Segundo o levantamento, o Estado também tinha, na região, a maior representatividade da classe criativa em seu mercado de trabalho formal.

Criada há aproximadamente um ano, a Câmara Setorial da Economia Criativa da Agência de Desenvolvimento do Ceará (Adece) tem trabalhado para solidificar ações de fomento à economia criativa no Estado. Para Luis Carlos Sabadia, vice-presidente da entidade, o setor é, atualmente, o que o turismo foi na década de 1980: algo novo, promissor, mas que exigia infraestrutura, políticas públicas e engajamento do setor produtivo para se tornar mais dinâmico e sólido.

“Somos um país multicultural, multidisciplinar e multirracial, com um patrimônio natural e histórico riquíssimo, além de vocação para a cultura e a arte. Essa diversidade, sendo bem trabalhada, pode ser um ativo no sentido econômico. Temos que utilizá-la como potencial para o desenvolvimento”, afirma Sabadia.

Além de abranger setores artísticos como artes cênicas, artesanato, cinema, literatura e música, a economia criativa também abraça as chamadas criações funcionais, como é o caso do design, da arquitetura e da gastronomia. Conforme Sabadia, são “áreas que têm especificidades, mas que bebem desse mesmo ativo multicultural”.

Ele lembra que, em 2017, a Federação das Indústrias do Ceará (Fiec), em parceria com o Sebrae-CE, lançou o projeto Rotas Estratégicas Setoriais 2025, na qual são projetadas diversas ações para o fortalecimento da economia criativa e de outros setores ao longo dos próximos anos.

Segundo Sabadia, a própria criação da Câmara Setorial foi uma realização importante para o fortalecimento da economia criativa no Ceará. “Se temos uma agência de desenvolvimento, era fundamental termos esta representatividade para influenciar as políticas públicas”, afirma.

A meta no longo prazo é tornar o Ceará uma referência nacional em desenvolvimento sustentável, tendo como vetor estratégico a economia criativa, a partir do fortalecimento dos processos identitários, territórios, setores, empreendimentos e da integração de organizações políticas, educacionais, empresariais e da sociedade.

Chancela da Unesco

Uma vitória importante para a economia criativa do Ceará aconteceu ao longo de 2019, quando Fortaleza, após enviar um dossiê com os resultados dos últimos anos, bem como os compromissos de projetos a serem executados nos próximos quatro anos, foi chancelada como Cidade Criativa do Design pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Na ocasião, a Comissão Nacional do Brasil para a Unesco destacou que o dossiê de Fortaleza “realça a presença da economia criativa nos projetos da cidade, assim como a relação com os objetivos de desenvolvimento sustentável e o interesse em cooperar com outras cidades dentro da Rede”.

O anúncio foi feito em outubro de 2019, pela diretora geral da Unesco, Audrey Azoulay. Segundo ela, “em todo o mundo, essas cidades, cada uma a seu modo, fazem da cultura o pilar, e não um acessório, de sua estratégia. “Isso favorece a inovação política e social e é importante para as gerações jovens”, comentou.


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Para o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, a chancela da Unesco “cria uma nova ambiência e estimula ainda mais as ações de criatividade e inventividade” da Capital. Segundo ele, o reconhecimento consolida o que a cidade já vivenciava e que pode, agora, sistematizar com políticas públicas mais arrojadas, voltadas aos princípios e necessidades de estimular a economia criativa ainda de forma mais intensa.

“Agora, com a chancela da Unesco, Fortaleza junta-se ao seleto grupo de cidades criativas de design da Unesco e passa ater, concretamente, a possibilidade de intercâmbios de cooperação entre empreendedores da economia criativa local com várias cidades do mundo, com acesso a financiamentos internacionais, a ampliação do comércio bilateral entre os profissionais criativos das cidades”, comenta Roberto Cláudio.

Conforme Alberto Gadanha, ponto focal de Fortaleza para a Rede de Cidades Criativas da Unesco, além de reforçar seu potencial criativo, a chancela da Unesco abre a possibilidade de a Capital ter acesso às boas práticas em economia criativa que outras cidades já executam pelo mundo.

“Existe um interesse muito grande em trocar experiências. A oportunidade de termos Fortaleza na mesma rede em que estão gigantes como Singapura, por exemplo, é uma maneira de identificarmos o que deu certo lá fora e de que forma podemos adaptar isso para cá. A rede incentiva esse intercâmbio”, diz Alberto Gadanha.

Ainda de acordo com Gadanha, com Fortaleza chancelada, o mais importante, atualmente é “sensibilizar a população sobre a existência desta rede, fazendo com que as pessoas percebem o design como eixo de desenvolvimento sustentável”. Segundo ele, aos utilizarem essa marca em seus negócios, os empreendedores criativos ganham “algo a mais” para valorizarem seus produtos.

Distrito Criativo

Um dos projetos mais ambiciosos de Fortaleza para fomentar sua economia criativa é a criação de um Distrito Criativo na região da Praia de Iracema, com 3,5 quilômetros quadrados (km²) de área, o que inclui 28 equipamentos culturais/turísticos, 36 bens tombados e sete praças públicas. A ideia é desenvolver um território de sinergia entre empreendedores criativos, por meio de clusters, startups, incubadoras, coworkings e micro e pequenos negócios.

Segundo Davi Gomes, presidente do Instituto Iracema, organização sem fins lucrativos e que tem contrato com a Prefeitura de Fortaleza para o desenvolvimento do projeto de requalificação da Praia de Iracema, a ideia é que o Distrito Criativo transcenda a Praia de Iracema e englobe também o bairro Centro, criando uma grande área de fomento à economia criativa.

Previsto no Plano Fortaleza 2040, o projeto deve ter sua primeira fase concluída ainda neste ano, com a atuação de várias iniciativas voltadas à criação e comercialização de produtos da economia criativa. “Lançamos, no fim do ano passado, o edital Cria P.I., que já selecionou 20 projetos criativos para o bairro”, comenta Davi.

Como parte do projeto do Distrito Criativo, a Câmara de Fortaleza aprovou, ainda em 2019, uma série de incentivos fiscais para negócios criativos que se instalarem na Praia de Iracema, em especial na Rua dos Tabajaras, tradicional ponto cultural da Capital. A legislação, prevê, por exemplo, um desconto de até 100% no Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU); de até 60% no Imposto Sobre Serviços de qualquer natureza (ISS); e de até 100% no Impostos de Transmissão de Bens Imóveis (ITBI).

“Esse projeto visa fomentar negócios criativos nas regiões da Praia de Iracema e Centro, que já possuem vários centros culturais, espaços de ateliê e outros equipamentos.  Isso é fundamental para fomentar a economia criativa, que é a mola propulsora do desenvolvimento global atualmente, já que é uma economia limpa, que usa somente o intelecto para se desenvolver”, afirma Davi Gomes.

O presidente do Instituto Iracema lembra que as maiores empresas de comunicação do mundo atualmente, Google e Facebook, têm como base a economia criativa. “Ambas já estiveram em uma garagem e, hoje, são as empresas mais valiosas do mundo”, destaca. Segundo ele, o fato de utilizar o conhecimento e a criatividade como principais insumos torna este tipo de atividade mais atrativa quando se pensa, em especial, na sustentabilidade.

Desafios e metas

Apesar de ter ganhado mais destaque ao longo dos últimos anos, a economia criativa ainda precisa continuar sendo desenvolvida para alcançar todo o seu potencial no Estado. O alerta é da professora e pesquisadora Cláudia Leitão, presidente da Câmara Setorial da Economia Criativa. Segundo ela o crescimento do setor “mal começou”, dado o potencial existente no Ceará. “Um dos desafios é fazer com que essa área seja vista, efetivamente, como objeto de políticas públicas. Neste aspecto, a existência da Câmara Setorial é fundamental”, diz.

Segundo Cláudia, que desenvolveu o plano do Governo Federal para a Secretaria da Economia Criativa, ainda no governo da presidente Dilma Rousseff, o Nordeste, no geral, possui uma vocação considerável para a economia criativa. Ela sugere, por exemplo, que os nove estados da região desenvolvam, em unidade, um consórcio para o fomento do setor, a exemplo do que é feito atualmente na área da saúde, como forma de combate à pandemia.

“Um consórcio nordestino para a economia criativa seria interessante para o desenvolvimento de políticas cooperadas, inclusive para pensar o novo turismo, que terá que ser construído no pós-pandemia. A região tem uma riqueza cultural imensa, com ciclos juninos, festas agrícolas e religiosas, além de questões muito fortes como o artesanato, que dialoga com o design. Se houver cooperação, isso poderá ganhar uma dimensão muito interessante”, destaca Cláudia Leitão.

Por fim, a pesquisadora reitera que os desafios do setor são grandes, mas que, com incentivos e informação, podem ser alcançados ao longo dos anos. “Eu diria que temos alguns pontos para desenvolver: fomento a estudos e pesquisas para os negócios criativos; criação de pastas e planos voltados à economia criativa, com marcos regulatórios e leis que atraiam esses profissionais para determinados territórios; e o melhor acesso ao crédito para os pequenos, que muitas vezes desistem de um negócio promissor por falta de recursos”, finaliza.

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