Um dos segmentos “portadores do futuro” e, de acordo com a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), que destaca a potencialidade de expansão das energias eólica e solar como fator de “diferenciado potencial” nos anos vindouros, o setor de energias renováveis ou alternativas no Estado já está olhando para o cenário pós-pandemia do […]

Investir em energias renováveis é aposta no presente

Por: Pery Negreiros | Em:
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Um dos segmentos “portadores do futuro” e, de acordo com a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (Adece), que destaca a potencialidade de expansão das energias eólica e solar como fator de “diferenciado potencial” nos anos vindouros, o setor de energias renováveis ou alternativas no Estado já está olhando para o cenário pós-pandemia do novo coronavírus. Nessa balança, apontam especialistas, mesmo com as lamentáveis perdas e dificuldades aguardadas, o panorama ainda pende mais para o lado positivo, com horizonte bem alicerçado nos contratos de longo prazo já firmados antes da pandemia.

Para eles, outro grande trunfo do setor no Ceará, que ocupa a primeira colocação em Geração Distribuída na Região Nordeste e a 9ª no País, segundo dados do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado (Fiec), pode estar numa possível mudança de mentalidade da sociedade ante os sinais emitidos pelos inexoráveis conceitos de sustentabilidade no Século XXI. Tal movimentação é um dos motivos que deverão levar à consagração definitiva, em um estágio posterior, o mercado de energias limpas.

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A TrendsCE conversou com personagens envolvidos com a pauta no Ceará, que, não obstante reconheçam dificuldades, como, por exemplo, na perspectiva da Geração Centralizada, com a evidente queda do consumo industrial nos últimos meses, e na Geração Distribuída, tendo em vista o desemprego e a descapitalização das pequenas empresas nos próximos meses, conseguem ver boas saídas.

Estas, confirmam, seriam alicerçadas em acordos de longo prazo, firmados bem antes de o mundo virar de ponta a cabeça com a pandemia, e na expectativa de que o crescimento do setor recobre rapidamente a boa velocidade que já tinha tomado.

“Ter ou não pandemia não é um fator de grande influência. É óbvio que, por conta da pandemia, teremos uma redução imediata de consumo. Só que uma diminuição em nível industrial. Estamos tendo um aumento de consumo em nível residencial, pois, com as pessoas confinadas em casa, há de se gastar mais energia, mas o que pesa mais, principalmente nos valores em escala estadual, é a parte industrial”, comenta o o consultor em energia renovável e CEO da consultoria em energia renovável Braselco, Armando Abreu. Para se ter uma ideia, em março de 2020, já eram 5.409 unidades de Geração Distribuída instaladas no Estado.

Uma das grandes questões envolvendo as energias renováveis, acrescenta Abreu, diz respeito à chamada Geração Centralizada relacionada aos grandes parques eólicos e solares. “Neste momento, o desenvolvimento e a implementação deles (empreendimentos) no Ceará dependem mais das condições e ambiente de trabalho que os empresários encontrarem no Ceará do que propriamente qualquer efeito de pandemia. Isto ocorre porque, na Geração Centralizada, a maior parte desses contratos de venda de energia é de longo prazo, de 15, 20 anos. Os quais, neste momento, não são grandemente afetados pela crise”, argumenta, acrescentando que “em todos os PPAs (Power Purchase Agreement) de longo prazo que assinamos e tivemos conversas e reuniões com os compradores, eles disseram claramente que contratos de longa duração não serão afetados”.

Eugênio Vieira, consultor da Albuquerque Pinto Advogados para a área de Energia, concorda com Abreu, embora demonstre uma preocupação maior com as pequenas empresas, principalmente no mercado de Geração Distribuída, que é de comercialização de equipamentos, por não terem caixa para suportar esse período. “As menores vão realmente sentir o impacto e entrar num nível de retração judicial ou mesmo dissolução. Agora, o mercado cativo de Energia Centralizada, das maiores empresas eólicas e solares já implementadas no Ceará, como estão num mercado regulado, com contratos de compra e venda de energia a longo prazo sendo mantidos e sem grandes riscos de inadimplência, é provável que haja pouco impacto, inclusive no fluxo de caixa”, comenta Vieira, que também é consultor fiscal no processo de privatização de companhias energéticas e consultor jurídico na aquisição de empresas do setor elétrico, mediante ingresso de participações estrangeiras.

A análise de Benildo Aguiar, presidente do Sindicato da Indústria de Energia do Ceará (Sindienergia), também é otimista, mas ele ressalta que as atenções devem estar voltadas para o calendário de ações que podem influenciar nos progressos dos negócios envolvendo a atividade.

“O setor de energia, por ser considerado um serviço essencial, tem sido um dos menos afetados. E as energias renováveis têm funcionado a contento neste período de pandemia, com algumas exceções importantes. Entre as quais os projetos de grandes desenvolvedores, prejudicados pelo adiamento recente dos leilões federais de compra de energia, que iriam ser realizados neste último mês de maio, em função da redução da demanda por energia elétrica. Outra dificuldade existente é quanto ao atendimento dos serviços necessários ao segmento pelas distribuidoras de energia, pois temos tido notícias de que algumas empresas em outros estados estão enfrentando dificuldades na aprovação e liberação dos projetos”.

Até fevereiro de 2020, conforme a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), foram 32 empreendimentos contratados em leilões no Ceará, sendo que, destes, 27 eram solares fotovoltaicas, quatro eólicas e uma hidrelétrica (PCH).

Compensações

Um alento a mais para o segmento durante a pandemia, apontam os especialistas, está no fato de a energia ser um insumo essencial. O decréscimo de consumo, devido à paralisação nas atividades da indústria, maior consumidora do segmento, de certa forma, foi compensando pela energia utilizada pelos usuários em casa. “E o impacto é temporário. Logo, na retomada, deve voltar aos níveis anteriores à crise”, projeta Vieira.

Para Armando Abreu, a projeção é mesmo de um lento reinício nos próximos meses, especialmente porque a cautela pode prevalecer diante da necessidade de investimentos.

“Na Geração Distribuída, como se aplica a pequenos consumidores, sejam eles Pessoa Física ou Pessoa Jurídica, a máxima que utilizo é muito simples: se tenho um bem chamado energia elétrica, pelo qual hoje pago à Enel algo entre R$ 800 e R$ 900 por megawatt/hora, enquanto poderia gerar essa commodity na casa dos R$ 150, R$ 200, só não o faço se não tiver dinheiro para investir. Daí, numa Geração Distribuída, que é uma geração de curto prazo, admito que em relação a todo o crescimento que tivemos nos últimos anos, especialmente em 2019 e 2018, haja uma certa retração. É natural que as pessoas se preocupem mais com seu negócio do que com energia elétrica”.

O empresário se refere ao aumento exponencial registrado na aquisição de equipamentos de energia solar. Para se ter uma ideia dessa explosão nos números, conforme dados do Observatório da Indústria da Fiec, passou-se de 335 unidades em 2016 para 5.385 em março de 2020, mês em que a paralisação de quase todas as atividades econômicas devido à pandemia foi decretada no Estado. Dessas, 73% eram residenciais, deixando bem para trás os consumos comercial (20%), rural (3,8%) e industrial (1,9%).

Saídas

Entre as estratégias para a retomada, as fontes ouvidas pela reportagem destacam a importância da priorização da agenda governamental voltada para o segmento em ações como a agilização de leilões de energia, bem como o favorecimento do ambiente de negócios, algo que também envolverá a iniciativa privada. Fatores como a consolidação da responsabilidade ambiental corporativa e a evolução tecnológica como otimização de custos também estarão “à mesa” dos investidores após o vendaval provocado pela crise sanitária.

“Acreditamos que as energias renováveis poderão contribuir muito no processo de retomada, como acontecido em outros países. O Ceará, com seu novo Atlas Eólico e Solar, repleto de inovações, sendo um novo marco no setor de energia no Brasil, possibilita aos investidores e desenvolvedores de projetos enormes perspectivas em termos de possibilidades de novos negócios.”, ressalta Benildo Aguiar

Com relação à Geração Centralizada, para Armando Abreu, itens como questões ambientais, atuação do Ministério Público e do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), além de questões relacionadas aos impostos, entre outras, terão papel decisivo nos próximos anos. “O futuro das energias renováveis, mais especificamente na Geração Centralizada no Ceará, depende mais do ambiente de negócios. Ou seja, quanto melhor esse ambiente criado pelos governos, mais investimento vamos ter em energia renovável no Ceará. Isto é uma guerra antiga que temos travado”, pontua.

Benildo Aguiar, por sua vez, chama a atenção para as modalidades de oferta do setor. “Consideramos importante a realização dos leilões o mais rapidamente possível. Por exemplo o de energia de reserva, pois pode ocorrer uma recuperação econômica acima do esperado, e de forma rápida, o que requererá energia disponível e a preço baixo. É o caso das renováveis, que sabemos ter o custo variável de operação muito baixo e ser ambientalmente muito mais adequadas, se comparadas com as termelétricas”, explica, acrescentando que o segmento propicia empregos em maior quantidade, principalmente quando há obras de infraestrutura em curso.

O dirigente cita ainda a necessidade de um engajamento do Poder Público em prol do fortalecimento da Geração Distribuída, grande fonte de postos de trabalho e de renda para o Estado. “Entendemos ser necessário um posicionamento objetivo por parte do Governo do Estado, para prover maior segurança jurídica aos empreendedores, apresentando a definição clara como um serviço essencial, por prover condições de qualidade e confiabilidade para a rede de distribuição de energia elétrica”, encerra Aguiar.

Impacto ambiental

Será que o pós-pandemia terá o poder de mudar a mentalidade dos grandes investidores, ampliando a busca por energias mais “limpas”, ou a necessidade de recuperar os prejuízos pode significar uma ameaça para o setor? A discussão se acentua ainda em meio ao alvoroço no mercado provocado por notícias como a da recente a exclusão do portfólio de investimentos do fundo soberano da Noruega de empresas brasileiras como Vale e Eletrobras, devido à má condução em relação a danos ambientais por elas cometidos.

Conforme os ouvidos pela reportagem, a discussão continua, mas o ambiente é dos mais favoráveis para o desenvolvimento do setor no Ceará, que em 2016 já respondia por 17,8% e 4,7% da produção nacional, respectivamente nas modalidades eólica e solar. E do qual espera-se, de acordo com projeções do Observatório da Indústria, uma intensa diversificação da matriz energética nos próximos anos.

“Energias renováveis têm tido um crescimento exponencial, e é natural que substituam outras fontes de energia, como o petróleo. É provável que, em breve, a energia elétrica passe a abastecer carros, e num horizonte a curto prazo. Até porque a sociedade, independentemente da pandemia, vai ter que olhar mais para o meio-ambiente, porque se não olhar para a natureza, vamos cair em outras crises como esta que estamos vivendo. E essa consciência ecológica, de um novo mundo, vai se voltar mais para as energias renováveis”, afirma Vieira.

Micro usina de energia solar fotovoltaica no Complexo do Pecém FOTO: Divulgação/Gov. do Ceará

Entretanto, para Abreu, embora a mentalidade positiva, voltada para o impacto ambiental, tenha vindo para ficar, a passagem da crise sanitária pode colocar muitos conceitos – novos e antigos – à prova, devido a futuras instabilidades:

“Os empresários que já têm uma consciência ambiental, que definem seus investimentos tendo em conta alguns padrões ambientais de sustentabilidade, dificilmente vão mudar. Mas há um problema que tem a ver com a sobrevivência econômica. Muitos deles, especialmente na parte de consumo, vão olhar mais para o bolso. E sendo a energia um custo, vão buscar onde poderão comprá-la mais barata”, avalia. O Ceará, por sinal, ocupa uma posição intermediária no ranking nacional do custo desse insumo. O Estado era o 13º do País, com R$ 529 por MWh, frente à média nacional, que era de R$ 544, num estudo recente da Fiec.

Em abril de 2020, porém, a Aneel autorizou um reajuste de 8,22%, na média, nas tarifas, o que impactará diretamente no consumo industrial, podendo fazer com que os custos de eletricidade cheguem a 40% da produção, conforme aponta o Observatório da Indústria.

Independentemente de questões mais pragmáticas, Abreu sustenta que deverão haver poucos reajustes ao panorama do mercado, especialmente no pós-crise. “Acho que os efeitos que a pandemia tem criado não vão mudar muito a forma como as pessoas encaram as coisas em termos ambientais. Quem já tomava decisões tendo em conta esses fundamentos e princípios vai continuar a segui-los. Não tenho dúvida. A não ser que, por questões de sobrevivência, tenha que optar por decisões menos ecologicamente corretas”, finaliza.

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